Desde que seja leve

Desde que seja leve

Nunca de maneira óbvia, a poesia de Rubens Rodrigues Torres soube ser, sempre, a morada dos impasses que a filosofia enfrenta

 

A Coleção Postal, das editoras Azougue e Cozinha Experimental, me colocou nas mãos novamente um livro do poeta Rubens Rodrigues Torres Filho (1942). Fazia um tempo que Rubens morava quieto aqui na estante. Lá nos anos 1990, quando embarquei nessa coisa de querer ler toda a poesia que achasse por perto, me lembro de poucos autores que me deixassem tão encantado. E carreguei pra cá e pra lá seus livros de poesia, pequenas joias dos catálogos que já tinham minha especial atenção: Massao Ohno, Brasiliense, Claro Enigma (Duas Cidades), Iluminuras. E foi a mesma época em que comecei a ler alguns dos Pensadores e achava incrível que aquele poeta boa-praça aparecesse como tradutor especialista numa turma complicada, que tinha Schelling, Fichte, Kant, Nietzsche, Benjamin, Novalis. Enfim, um poeta com tanto humor que circulava pelas linhas tão sisudas do alemão – era um ponto a mais pro Rubens na minha cabeça adolescente. E ainda é, de certo modo.

O livro que acaba de sair reacendeu aquele encanto pela poesia do Rubens Rodrigues. Nele encontrei uma mostra significativa do humor e da inteligência impactantes que me prendiam a cada um dos seus livros que fui conhecendo na segunda metade dos anos 1990. Para o leitor que eu era então, fazendo animado o “serviço militar da poesia concreta”, Rubens apontava como poucos para um jeito de passar por aquelas disputas sem cair nos maniqueísmos que consumiram tanta tinta àquela época. Mas não era apenas isso que me encantava nos versos de Rubens: considero impossível ler sua poesia sem ter em mente o quanto ele mantém de diálogo – distante, nebuloso, tortuoso, mas a meu ver intenso – com a filosofia.

Nunca de maneira óbvia, a poesia de Rubens soube ser, sempre, a morada dos impasses que a filosofia enfrenta, mas ao modo da poesia. Da melhor poesia. A propósito, lembro sempre de uma imagem que minha memória atribui ao Benedito Nunes, creio que numa das entrevistas em que falou de poesia e filosofia: a filosofia, por ser uma forma radical de pensamento, de reflexão, nos leva até o limite, até nos colocar diante de um muro ao final do caminho (uma dúvida ainda maior ao final das dúvidas que nos levaram até lá). Por sua vez, a poesia salta esse muro.

É nesse salto que a filosofia se converte em poesia, é nele que a poesia, pela forma como se abre a bem mais do que à racionalidade, escancara as faces mais recônditas da realidade, da subjetividade, enfim, da vida. É no voo que a poesia é capaz de lançar a partir da linguagem que se revelam sentidos perseguidos muitas vezes sem sucesso pelos rigores da filosofia. Não por acaso, a imagem do voo é tão cara à poesia de Rubens Rodrigues, desde o título de um dos seus principais livros, “O voo circunflexo” (1981), até os diversos poemas em que aves tomam o céu.

Na poesia de Rubens, no entanto, não há a pretensão de fazer da poesia um complemento da filosofia, de fazer a poesia auxiliar as tarefas da filosofia ou com ela parecer. Pelo contrário, na entrevista que deu a Pedro Paulo Pimenta e Sérgio Cohn em 1996 (reproduzida no final do livro), Rubens dá uma interpretação no mínimo curiosa para essa aproximação entre poesia e filosofia em seus poemas:

– Sempre dizem em resenhas dos seus livros “o filósofo e poeta Rubens Rodrigues…”
– Eu acredito que falam isso porque é fácil. É uma linha, um assunto para se pegar. Eu sempre tentei dizer o contrário. Muito marcadamente o contrário, para combater essa facilidade, pelo menos um meio termo tem que ter. O que aprendi a comentar é que existem os poetas filosóficos, metafísicos, mas que no meu caso a necessidade de filosofia e metafísica já tinha sido satisfeita profissionalmente trabalhando com filosofia, e que eu não precisava então da filosofia na poesia. Eu não precisava da poesia como veículo para isso.

Vocês sabem que poetas adoram despistar leitores e críticos… Rubens, ao defender uma profunda separação entre seu trabalho com filosofia e seus livros de poemas, a meu ver apenas pretende que seu leitor mergulhe nos poemas com a coragem e a liberdade que a poesia exige, sem subordiná-la ao expressivo trabalho de tradutor e professor de filosofia que o poeta sempre exerceu.

Noto ainda, na resposta de Rubens, um ponto que me parece primordial: a negação da figura de “poeta filosófico”. De fato, há poetas que vestem bem esse traje, mas Rubens não é um deles. Sua poesia nunca se mostra como uma “poesia do pensamento”, uma “poesia da reflexão”, ou seja, não são poemas que expõem os raciocínios e as perturbações típicas da atividade intelectual, como vários poetas já o fizeram e fazem, com grande qualidade em muitos casos.

Rubens vai por outro caminho. Seus versos, fugindo a qualquer preciosismo, têm a leveza do que é feito “simplesmente porque é gostoso”. Parece pouco, parece falso, mas o leitor perceberá que, por aí, Rubens consegue tirar bem mais da poesia do que tiraria se dela exigisse mais rigor do que alegria. Aos poemas, pois.

ANTILEITOR

1
Adeus, leitor, me despeço
logo no primeiro verso:
mal inicio o poema
já não te quero por perto.

Pisque o olho, fique sério,
dê tratos à metonímia,
suponha que faço troça,
ensaio outra faceirice

ou sou um simples gabola.
Mas simplesmente não julgue
que sua desobediência
de algum modo me consola.

2
As palavras que repito
aqui neste parco verso
para o leitor indiscreto
que repete essas palavras

não para seu ouvido
(ou olho, se lidas baixo)
mas para se repetirem
em si mesmas, eco abstrato.

3
Palavras no branco, parvas,
parecendo dizer algo
a sós, aqui entre nós,
que somos – creio – milhares,

algo dão, amaciando,
estas arestas tão claras
por vias inomináveis
parcamente palmilhadas.

Nós, achados desatados,
cada um de nós, cada nó
dá volta à letra, laçada:
e a linha corre melhor.

SEJA BREVE

Isso de ler e escrever
é puro amor ao estudo.
Marx e a vida são breves!
Pode-se querer tudo
desde que seja leve.

MEDITAÇÃO

Se minha cabeça toma jeito,
não fica do mesmo jeito. Do mundo mesmo
quero pouca coisa. Hoje, penso,
quase nada.
E um virar e desvirar de coisas internas.
Quase uma santidade, se for.
Do que passou, do que foi,
das coisas que aconteceram comigo,
parece que está tudo resolvido,
concluído, terminado,
perdoado. Problema, mesmo,
acho que não resta nenhum. Só carinho.

Tarso de Melo é poeta, advogado e professor, com doutorado em Filosofia do Direito pela USP. Seus livros de poemas estão reunidos no volume “Poemas 1999-2014” (Dobra/E-galáxia, 2015).

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