De grande escritor do século 20, Kafka passou a ser um dos maiores do século 21

De grande escritor do século 20, Kafka passou a ser um dos maiores do século 21
  “Para mim, Kafka é um autor realista que criou uma nova forma para dar conta de uma nova realidade, pois o mundo havia se tornado tão obscuro, tão insolúvel, que ele deveria fazer uma construção literária para dar conta literariamente daquilo. Então ele inventou um narrador que não sabe, e esse narrador somos nós”. Por meio de uma prosa límpida, oriunda da linguagem de protocolo, Kafka narrou o insólito, como a terrível metamorfose sofrida por Gregor Samsa. “Esta é uma característica definitiva em sua obra: a colisão entre a clareza absoluta da linguagem e o assunto opaco.” Kafka é claro sobre as coisas mais obscuras. Ciente de que toda tradução, por mais competente que seja, é sujeita a perdas inevitáveis, Modesto cita o início de A metamorfose, no qual três expressões negativas prefiguram o clima ruim da novela (unruhig, ungeheuer e Ungeziefer, todas com a partícula negativa “un”). Em português, porém, só foi possível traduzir literalmente a primeira, resultando em “intranquilo”. As demais (ungeheuer e Ungeziefer, que significam “monstruoso” e “inseto daninho que ataca pessoas”) não encontram paralelo de negação em língua portuguesa. As perdas são significativas, na medida em que, etimologicamente, tais expressões remetem às noções de “não familiar” e “animal inadequado, que não se presta ao sacrifício”, aspectos intimamente ligados à trajetória do protagonista, Gregor Samsa. A tradução de A metamorfose assinada por Modesto Carone passa das cinquenta edições. No momento, o pro

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