O enigma compartilhado

O enigma compartilhado
O escritor tcheco Franz Kafka (Reprodução)

 

“Por isso somos condenados a arrastar atrás de nós, do berço à sepultura, um Doppelgänger, um irmão mudo e sem rosto, que é todavia co-responsável pelas nossas ações, portanto, também pelas nossas páginas.”
Primo Levi. “Dello scrivere oscuro”, L’altrui mestiere

O ensaio “Anotações sobre Kafka” é exemplar da escrita, do estilo adorniano de escrever, além de se constituir numa interessante ilustração das suas reflexões sobre o en­saio como gênero híbrido, em que a função crítica ressalta do entrecruza­mento entre uma escrita filosófica e uma escrita propriamente literária. Podem-se ver nesse texto em particular alguns dos aspectos caracterizados por Primo Levi como típicos do “escrever obscuro”: o Doppel­gänger mudo e sem rosto que o escritor carrega às costas pode ser o conjunto genérico de textos literários e filosóficos da tradição ocidental que o precedem no tempo e, ao mes­mo tempo, uma constelação singular de precursores (longínquos ou próximos, conscientemente admitidos ou não) que o escritor compõe com seu estilo particular.

A compreensão do ensaio ador­niano sobre Kafka fica comprometida se não se levar em conta, ademais, que o projeto de refletir de mo­­do crítico sobre a razão e suas vicissitudes implica necessariamente um momento de assombro enquanto necessária contraparte do esclarecimento e que as luzes da razão, além de cumprir sua fundamental função es­clarecedora, podem também ofuscar ou mesmo diretamente cegar. Se a escrita ador­nia­na mi­metiza, transferindo quase que à letra os paradoxos de uma racio­na­­lidade possível, desencadeados pelo confronto com os acontecimentos extremos da história do século XX, esse movimento ocorre de modo par­ticular­men­te in­trin­cado em sua interpretação de Kafka.

As “Anotações sobre Kafka” [incluídas em Prismas – Crítica cultural e sociedade, editora Ática] são a releitura de Adorno do ensaio de 1934 de Walter Benjamin sobre o au­tor praguense, sendo assim também um tributo à amizade intelectual entre os dois. Nesse sentido, a dedicatória feita por Adorno a sua esposa Gretel, de quem Benjamin se sentia bastante próximo, em nada desmente a homenagem não de todo explícita. Sabemos, por outro lado, o quanto o ensaio ben­jaminiano, escrito com certa dificuldade, deveu à sua troca de idéias com uma constelação de cabeças pensantes (as principais e mais conhecidas: Gerschom Scho­lem, Bertolt Brecht, além dos próprios Benjamin e Adorno), cujo testemunho podemos apreender na sua correspondência.

Numa carta fundamental, de dezembro de 1934, Adorno solicita en­faticamente a Benjamin o envio de suas novas reelaborações do texto sobre Kafka (algumas seções do texto final, postumamente editado, tinham sido publicadas em periódicos da época), apesar de seu caráter inacabado, pelo qual Benjamin deixara de enviá-las anteriormente. Adorno usa como argumento para convencer o amigo a fazer o en­vio o próprio caráter ina­cabado do trabalho e compara-o ao estudo sobre as Passagens:

“Se o senhor mesmo caracteriza o seu trabalho como ‘inaca­ba­do’, seria naturalmente muito pouco convencional e estúpido se eu pretendesse contradizê-lo. O senhor sabe com demasiada precisão o quanto aqui [na obra kafkiana] o que é significativo irmana-se ao que é fragmentário. Mas isso não exclui que o lugar do inacaba­men­to possa ser caracterizado – justamente porque esse trabalho é anterior às Passagens. Pois tal é o seu inacabamento. A relação entre proto-história e modernidade ainda não foi elevada a conceito e o sucesso de uma interpretação de Kafka deve em última instância depender disso.”

Nessa longa carta que podemos ler como um rascunho do ensaio pos­teriormente escrito (mas que não é a primeira tentativa ador­niana de interpretar Kafka – uma outra, realizada nove anos antes e aludida na carta, se perdeu), aparecem explicitamente as correntes interpre­tativas que tanto Adorno quanto Benjamin (em parte) combaterão: as interpretações de cunho teológico-psicológico-existen­cialista, como a leitura feita pelo amigo de Kafka, Max Brod, a leitura psicanalítica de Kai­ser, o “crime” da interpretação de Ernst Bloch, e a de outro escritor do círculo judaico, Soma Mor­genstern, ainda que Adorno reconheça o papel fundamental do entrelaçamento da cultura germânica com a judaica, assim como assinalado por Benjamin.

Adorno também considera “estranho ao material” estudado a inclusão de categorias do teatro épico brechtiano, pois caracteriza a arte de Kafka como antiteatral e essencialmente romanesca. Para a arena do debate, Adorno traz a filosofia de Hegel e sua própria leitura de Kierkegaard (diferente daquela de Brod, ironizada por Benjamin), pretendendo com essas referências incentivar o amigo à construção de uma comum teologia “inversa” ou “dialética”.

Adorno queria de certa forma realizar, como já assinalou Hans Mayer num bonito ensaio sobre Benjamin e Kafka, uma dupla negação dos influxos provindos dos dois outros interlocutores fundamentais de Benjamin, Scholem e Brecht. Contra as interpretações místico-teológicas (embora Adorno nunca tenha negado a presença forte de elementos da tradição judaica em Kafka) e contra a visão materialista-histórica estrita (embora Adorno persiga ao longo de sua obra aquilo que Brecht visava em Kafka – a lição ilumi­ na­dora de sua obra, seu caráter es­clarecedor da história).

A interpretação adorniana de Kafka tem em Benjamin o seu duplo assumido. Como o ensaio de Benjamin, o de Adorno também desdobra-se em seções e parece constituir de fato uma resposta, como se fosse a continuação do diálogo com o amigo morto. O que ambos os textos têm de fundamental em comum é o fato de não pretenderem chegar a uma interpretação absoluta do texto kafkiano e procurar interrogá-lo em suas asperezas, em suas incongruências, em sua exemplar imperfeição, em seus paradoxos – sem necessariamente resolvê-los. “Insistência diante do enigma” – este o mote explícito do ensaio adorniano, que certamente também se aplicaria ao ensaio benjaminiano:

“Cada frase é literal, e cada frase significa. Esses dois aspectos não se misturam, como exigiria o símbolo, mas se distanciam um do outro, e o ofuscante raio da fascinação surge do abismo que se abre entre ambos. Apesar do protesto de seu amigo, a prosa de Kafka se alinha com os proscritos também por buscar antes a alegoria do que o símbolo.”

Assim Adorno faz jus ao respeito cabalista do amigo Benjamin em relação à materialidade da linguagem, reelaborando no seu próprio textos idéias e imagens do universo da reflexão e – sobretudo – da escrita benjaminiana. Adorno não apenas reconhece e explicita o tri­buto do texto ben­ja­­ miniano à tradição judaica, mas através desse seu reconhecimento presta ele mesmo homenagem a uma tradição interpretativa na qual a sua própria obra se inscreve. Não por acaso, a obra ador­niana, construí­da cuidadosamente por um movimento de auto-reflexão que se realiza no labor da própria escrita, é atravessada por passagens obscuras, enigmáticas, contraditórias e muitas vezes também paradoxais. O leitor precisa insistir a cada vez diante dos pequenos e grandes paradoxos que sua obra lhe apresenta. Como Benjamin, Adorno era sensível aos movimentos da escrita no interior da tradição literária e filosófica. Herdeiro de uma trajetória do pensamento permeada pela consciência do tempo e da história, sabia da força explicativa, ilu­ mi­nadora do choque de elementos opostos. No átimo do choque, a linearidade histórica se interrompe e, com isso, o presente é revolucionado, transformando a história e convertendo a espera pelo futuro em um ato criador do presente.


SUSANA KAMPFF LAGES é professora de língua alemã no Centro de Ensino de Línguas da Unicamp, é autora de Walter Benjamin: Melancolia e tradução (Edusp), pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti, e João Guimarães Rosa e a saudade (Ateliê/Fapesp)

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