As primeiras leituras brasileiras da obra de Franz Kafka

As primeiras leituras brasileiras da obra de Franz Kafka
O escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) (Reprodução)

 

Será difícil determinar quando Kafka pousou na minha vida. Imagino que entre 1949 e 1950, ocasião em que já frequentava a faculdade. Integrei a minha primeira roda de amigos e falávamos de livros e autores, dia e noite. Caiu do ar, um certo dia, uma informação, como um pólen dentro da alma: a obra de Murilo Rubião se parece com a de Kafka.

Em 1951, ao conhecer pessoalmente o autor de O ex-mágico, então chefe do gabinete do governador Juscelino Kubitschek, ouvi dele a confissão de que escrevera sua obra inaugural sem ter conhecido, ainda, o autor de O processo (1925). No fim da década de 50, preocupavam-nos as vanguardas. Escrevi para uma revista carioca um artigo sobre Khlebnikov, Dois círculos de estrelas cadentes. O poeta russo reclamava o entrelaçamento do som puro com a razão no interior da palavra poética. E li sua novela Ka, cuja personagem lembrava o nome de Kafka: Ka! Na época, solicitei a Maria Lúcia Lepecki traduzisse do francês a preciosa obra que conseguimos saísse no Suplemento Literário do Minas Gerais. Foi quando fiz amizade com o professor e filólogo tcheco Zdenek Hampejs.

Na ocasião, ele me brindou com uma série de fotografias de Kafka e família. Mais tarde, ofereceu-me postais sobre a “Praga de Kafka”, em que se vislumbravam a vida e a obra do escritor. Tivemos intensa correspondência, até que veio o golpe de 64, que me desapropriou de uma de suas cartas e a expôs em painel público como prova da subversão no Brasil. Por causa da revista Tendência, que reclamava uma vanguarda que fosse nacional e socialista, entrei em polêmica com Otto Maria Carpeaux. Briga feroz.

Um dia, ao dar balanço do ano literário para o Boletim bibliográfico brasileiro, como de hábito eu fazia, incluí um título de Carpeaux entre os melhores no gênero “ensaio”. Ele considerou admirável o meu gesto, pois achava que eu tinha comprado, com a polêmica, uma inimizade eterna e cega. E passou a ser meu amigo. Toda vez que tirava folga no Correio da Manhã, onde trabalhava, tinha um único passeio: passar alguns dias em Ouro Preto, sozinho, na pousada do Chico-Rei. E invariavelmente procurava uma única pessoa em Belo Horizonte: eu.

Carpeaux conheceu Kafka pessoalmente. Falou da sua voz rouca, consequência já da tuberculose na laringe. E foi, segundo depõe em artigo, o primeiro a dizer de Kafka no Brasil. Tinha uma história rocambolesca acerca do volume de O processo que trouxe consigo ao Brasil, uma das raridades existentes da primeira edição do autor, pois o editor da Die Brücke (A Ponte) falira com a publicação da obra recomendada por Max Brod. Falecido Otto Maria Carpeaux, a viúva, D. Helene, encarregou-me de achar uma instituição que pudesse receber a sua biblioteca.

Acabei me fixando na Biblioteca Mário de Andrade. Infelizmente, a diretora da Biblioteca não preservou o acervo e o dispersou gloriosamente na classificação universal. Somente ficou, identificável, o volume Der prozess, encaminhado à seção de Obras Raras. Assim, São Paulo abriga o exemplar raríssimo da obra de Kafka. Curiosamente, quando se comemorou o centenário do escritor, em 1983, os jornais paulistas e do resto do país, para celebrar a data, se limitaram a reproduzir os artigos de Carpeaux, ignorando o fato de termos aqui a raridade das raridades em termos de Kafka.

Recentemente, travei conhecimento com um especialista no autor de O castelo e em Murilo Rubião: Alfred von Brunn. Ele me havia pedido que obtivesse de Fernando Sabino o trecho de uma carta que Murilo Rubião lhe enviou da Espanha, falando de sua leitura de Kafka. Depois veio a São Paulo, quando o introduzi a Carpeaux e à primeira edição de Der Prozess. Hoje ele pensa em motivar uma organização italiana no sentido de realizar uma edição facsimilar daquela obra, com base no original da Biblioteca Mário de Andrade.

A ideia de Alfred von Brunn é cobrir o vazio que existe na principal bibliografia de Kafka na Alemanha, em que se registra a repercussão do
romancista em todo o mundo. Há espaço para a Argentina. Quanto ao Brasil, nada, nem uma linha sequer. É nesse vácuo que ele trabalha, deseja cobrir essa falta. Estuda Murilo Rubião e outros autores brasileiros que possam ter parentesco com o grande escritor tcheco. Tcheco? Carpeaux diz: “Franz Kafka não foi tcheco, porque escreveu em alemão. Não foi alemão, porque se considera judeu. Não foi judeu, porque não tinha a fé dos seus antepassados nem o sentimento nacional dos seus contemporâneos”.

Kafka no Brasil? A onda kafkiana chegou a ser tão forte em certa época que Carlos Drummond de Andrade chegou a ironizar: “Franz Kafka, escritor tcheco, imitador de certos escritores brasileiros”. E Graciliano Ramos denominava de “literatura espírita” a toda aquela, no Brasil, inspirada no romancista tcheco.

Kafka é único neste século. Dizem que, por detrás dele, havia a Cabala e Sören Kierkegaard. Tinha uma técnica narrativa objetiva (seus autores preferidos eram Kleist e Flaubert, grandes realistas), mas de caráter expressionista. Era leitor do dramaturgo Hebbel, que expressava o indivíduo saído do “nexo universal” em busca de emancipação. Articulava-se com um simbolismo de fundo religioso e filosófico, bordejando o alegórico. Mas criava uma atmosfera de angústia e pesadelo, que mais o aproximava do surrealismo. Insistiu em mostrar a inocuidade da tentativa humana de romper com a lei de Deus. Tinha baixo teor mimético em relação à realidade empírico-histórica. Predominam em sua prosa as imagens míticas ou as oníricas, vizinhas do pesadelo, de um mundo enigmático.

A exegese de Kafka hoje é imensa e inconcludente. Sob a influência de Max Brod, amigo e testamenteiro, que felizmente não obedeceu à recomendação de queimar os originais que deixou, houve grande concentração sobre os temas religiosos de sua obra. A voga do existencialismo explorou Kafka sob todos os aspectos do desespero humano. A frustração, na arte do romancista, é um dado permanente.

Depois veio a psicanálise. A relação edipiana ganhou força interpretativa da ficção kafkiana. Mas o pequeno barco da dúvida infinita transportava a obra do escritor tcheco por entre as ilhas do saber hermenêutico, sem jamais atracar num cais duradouro.

Segundo Günter Anders, o poder equivale, para Kafka, ao direito; o homem sem direito e, portanto, sem poder, é por isso mesmo culpado. O conto Diante da lei diz tudo. Por mais que se queira integrar o interminável labirinto da lei, o suplicante fica de fora. Há uma vigilância eterna que impede o seu acesso à norma. O homem é um banido, um desterrado eterno (um judeu, sob a ótica de Kafka). Não consegue ingressar na lei dos homens. Inútil bater à porta. Daí o pensamento de Kafka: “Talvez haja só um pecado capital: a impaciência”.


FÁBIO LUCAS é crítico literário e autor de Vanguarda, história e ideologia (Ícone) e Do Barroco ao moderno (Ática). Foi, também, presidente da União Brasileira de Escritores – UBE

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