Lições de Modesto Carone

Lições de Modesto Carone
O escritor, jornalista e tradutor brasileiro Modesto Carone (Reprodução)

 

O ensaio intitulado “Franz Kafka e o mundo invisível”, escrito por Otto Maria Carpeaux em 1942, é considerado o marco inicial da recepção crítica da obra do escritor tcheco no Brasil. Passados dez anos, em 1952, coube a Sérgio Buarque de Holanda ampliar os horizontes críticos  por meio do ensaio “Kafkiana”, publicado nas páginas do Diário Carioca. A abordagem mais voltada propriamente à técnica de composição viria anos depois, na década de 1960, com Anatol Rosenfeld. Para Modesto Carone, tradutor brasileiro da obra de Kafka, esses são os momentos centrais da fortuna crítica do autor no Brasil, a qual considera insuficiente, se comparada à de outros países. “Até onde eu enxergo, a fortuna crítica de Kafka no Brasil é pequena. É claro que várias pessoas analisaram aspectos parcelados, pequenos. Antonio Candido, por exemplo, escreveu um livro chamado Quatro esperas (1990), mas não é uma avaliação de conjunto”, explica à CULT.

Ante essa lacuna, e após quase 30 anos dedicados à tradução e à análise da obra kafkiana, Modesto Carone decidiu reunir ensaios, prefácios, textos produzidos para conferências, além de outros inéditos, e publicá-los em livro. Com texto fluido e envolvente, Lição de Kafka esmiúça as particularidades da poética kafkiana, além de presentear o leitor com reflexões acerca dos desafios impostos pelo ofício da tradução.

Realismo às avessas

Ao visitar uma exposição de pintores cubistas em Praga no início do século passado, o jovem poeta tcheco Gustav Janouch comentou com seu mentor Kafka que Picasso distorcia deliberadamente as formas. Em resposta ao amigo, Kafka disse que o pintor espanhol apenas registrava “as deformidades que ainda não penetraram em nossa consciência”. A análise perspicaz preconizava um aspecto hoje comum à arte: a superação das formas tradicionais, em busca de um novo realismo. Tal raciocínio foi incorporado à sua literatura, de modo que em sua prosa “as deformações são precisas”, como analisou Walter Benjamin.

Ao contrário daqueles que inserem o autor de O processo na chamada literatura fantástica, Modesto Carone o associa ao realismo, porém não àquele praticado no século 19, cujo narrador onisciente sabe de tudo o que se passa à sua volta. “Para mim, Kafka é um autor realista, mas um realista não convencional. Ele criou uma nova forma para dar conta de uma nova realidade, pois o mundo havia se tornado tão obscuro, tão insolúvel, que ele deveria fazer uma construção literária para dar conta literariamente daquilo. Então ele inventou um narrador que não sabe, e esse narrador somos nós”.

Por meio de uma prosa límpida, oriunda da linguagem de protocolo, Kafka narrou o insólito, como a terrível metamorfose sofrida por Gregor Samsa. “Esta é uma característica definitiva em sua obra: a colisão entre a clareza absoluta da linguagem e o assunto opaco.”

Um programa a ser seguido

Em meados dos 1960, quando ingressou no curso de letras da USP, Modesto Carone planejava estudar literatura anglo-americana. Contudo, as aulas ministradas por um professor berlinense fizeram-no mudar de planos e dedicar-se aos estudos de língua e literatura alemãs. Em vez de ensinar a gramática de modo convencional, o professor utilizava textos literários, acessíveis do ponto de vista formal, o que despertava maior interesse por parte dos alunos. Em uma das aulas, o texto analisado foi a parábola Diante da lei, de Kafka. As orações incisivas e a narrativa protocolar aliadas à inventividade do escritor tcheco encantaram o jovem aluno. Era o convite ao universo kafkiano. Tempos depois, Modesto partiu para a Áustria, onde estudou no Instituto de Tradutores e Intérpretes da Universidade de Viena, aprofundando-se nos estudos da língua alemã. Nos anos 1980, já de volta ao Brasil, decidiu embrenhar-se na tradução da ficção de Kafka.

Por ocasião do centenário de nascimento do escritor, em 1983, Modesto foi convidado pelo jornal Folha de S.Paulo a escrever um ensaio que viria acompanhado de algumas traduções. Aqueles primeiros textos tornaram-se o embrião de seu vigoroso projeto. As traduções até então disponíveis no mercado brasileiro, além de não serem feitas diretamente do idioma original, continham erros crassos. “Recordo-me que, em uma das edições, em vez de ‘bando de gralhas’, publicaram ‘enxame de urubus’, algo inacreditável”, comenta.

Ciente de que toda tradução, por mais escrupulosa que seja, é sujeita a perdas inevitáveis, Modesto Carone pormenoriza alguns dos desafios enfrentados por ele ao longo dos anos dedicados à obra kafkiana. No ensaio “Alguns comentários pessoais sobre a tradução literária”, Modesto cita o início de A metamorfose, no qual três expressões negativas prefiguram o clima ruim da novela (unruhig, ungeheuer e Ungeziefer, todas com a partícula negativa “un”). Em português, porém, só foi possível traduzir literalmente a primeira, resultando em “intranquilo”. As demais (ungeheuer e Ungeziefer, que significam “monstruoso” e “inseto daninho que ataca pessoas”) não encontram paralelo de negação em língua portuguesa. As perdas são significativas, na medida em que, etimologicamente, tais expressões remetem às noções de “não familiar” e “animal inadequado, que não se presta ao sacrifício”, aspectos intimamente ligados à trajetória do protagonista, Gregor Samsa.

Enfrentar tais desafios requer acuidade e, sobretudo, paciência. Questionado sobre a razão de estudar exclusivamente o mestre tcheco ao longo de tantos anos, Modesto Carone é objetivo e, a exemplo do narrador kafkiano, desconhece os porquês: “É um mistério que não consigo desvendar”.

Lição de Kafka
Modesto Carone
Companhia das Letras
144 págs.
R$ 29,50

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