‘Artesão impecável’, Daniel Sada constrói pequeno tesouro em ‘De duas, uma’

‘Artesão impecável’, Daniel Sada constrói pequeno tesouro em ‘De duas, uma’
O escritor mexicano Daniel Sada, autor de 'De duas, uma' (Divulgação)

 

Duas gêmeas idênticas vivem em um pequeno povoado no Norte do México. Gloria e Constitutión são tão parecidas, tão misturadas, que quase se tornam uma só. Com o tempo, passam a se divertir com as semelhanças e a reforçá-las: “‘Elas eram como duas gotas d’água’, mesma idade e estatura, mesmo corte de cabelo, e de propósito. Talvez, ainda por cima, as duas também pesassem uns sessenta quilos”.

Quando eram meninas, os pais morreram em um acidente rodoviário. Foram criadas por uma tia, Soledad, com quem passaram a viver. Dormiam em um quartinho com sete crianças, “daquelas que à noite lhes puxavam os cabelos e até lhes levantavam os vestidos. Coisa insuportável”. A tia aconselhava, com insistência, que se casassem o quanto antes, mas as irmãs, ilhadas em si mesmas, não pareciam interessadas — “Casar para quê, se sempre andavam juntas!”.

Quando cresceram, reclamaram a herança guardada pela tia e partiram, elegendo Ocampo, uma cidadezinha não muito distante dali, para morar. Compraram uma casa, duas máquinas de costura Singer e, com dedicação, conquistaram clientela. Passavam os dias sempre juntas: trabalhando com primor, honrando prazos e vivendo bem, embora sem luxos, uma para a outra.

Fora uma pinta enorme na omoplata direita de Constitución, as demais diferenças, todas de temperamento, eram intercambiáveis: ora a faladeira ficava mais calada, ora a mais tímida assumia a liderança. Quanto às roupas do dia a dia, a primeira a escolher determinava a de ambas. “O caso é que: pela vida afora, sua única importância tem residido em sua semelhança”, ressalta o narrador logo na primeira página. Mais adiante, acrescenta: “sua identidade foi um duro trânsito, que, minuto a minuto, dia após dia, foi se amalgamando até ser um espírito unívoco e fortuito”.

Alheias aos mexericos da cidade, penduraram um cartaz na parede da oficina: “Somos profissionais ocupadas. Limite-se ao que lhe diz respeito. Não venha nos distrair sem motivo. Atenciosamente, as irmãs Gamal”.

A indissociação experimentada pelas gêmeas só é abalada aos 42 anos, quando surge um “galã”, Oscar. Se a princípio o novo elemento desequilibra a relação, logo as irmãs encontram um modo de refazer o laço: a cada domingo, quando ele vinha à cidade, uma delas ia a seu encontro, alternadamente. Oscar nem desconfia da enganação, e assim seguem por meses, em uma tensão crescente. O impasse final viria com a proposta de casamento, pois nem a lei nem os bons costumes locais aceitariam que um homem se casasse com duas mulheres. E ele, como se sentiria ao saber que eram duas?

Essa é a premissa do conto De duas, uma (Una de dos, 1994), do premiado escritor mexicano Daniel Sada. Publicado no final de 2017 pela editora Todavia, o livro tem menos de cem páginas e é um pequeno tesouro. Divertido, inventivo, poético em sua simplicidade. É difícil conter o riso e a ternura ao ler essa historieta.

Um dos grandes nomes da literatura latinoamericana, Sada nasceu em 1953 e morreu cedo, aos 58 anos. Embora seja pouco conhecido no Brasil, seus livros foram recebidos com entusiasmo em diversas partes do mundo. Entre ficção e poesia, publicou cerca de vinte títulos, tais como Porque parece mentira la verdad nunca se sabe (1999) e Casi nunca (2008), novela vencedora do Premio Herralde. O escritor chileno Roberto Bolaño declarou sua admiração por Sada e por seu projeto literário, que considerava o mais arriscado de sua geração.

Para Sada, o léxico popular era “uma enorme caldeira cheia de mistérios a serem resolvidos”. Aqui, teria ido além e explorado também suas memórias, recorrendo à própria infância para construir a trama. As irmãs Gamal teriam sua gênese em duas tias do autor que, embora não fossem gêmeas, eram tão próximas que por vezes pareciam uma só.

A novela foi adaptada para o cinema por Marcel Sisniega. O roteiro do filme homônimo, escrito em colaboração com Sada, venceu o prêmio de crítica independente no Festival de Cinema de Mazatlán, em 2001.

O belo posfácio da edição brasileira do conto foi escrito pela pesquisadora Adriana Jiménez García, viúva de Sada: “Esta história de gêmeas astutas e cândidas ao mesmo tempo — que vivem e sobrevivem em um povoado do deserto, refratárias a toda influência externa e que constituem um universo autossuficiente à força de insistir em sua semelhança — está construída com uma deliberada economia de meios e é, de algum modo, um caso à parte na obra de Daniel Sada”. García lembra que, quando a escreveu, o autor já era considerado um estilista da linguagem, o mais formalista de sua época. Nas palavras do escritor colombiano Álvaro Mutis, “um artesão impecável”.

Para esse livro, Sada teria seguido o modelo de Aura, de Carlos Fuentes, Bartleby, de Herman Melville, e Assassinatos na rua Morgue, de Edgar Allan Poe. “Isso fica evidente no que se refere à brevidade e ao recurso de depositar ao não dito todo o peso da história”, assinala García. “A anedota é sucinta; o conflito surpreendentemente básico”, mas é o olhar do narrador que transforma essa história “na qual a vontade de tornar-se uma — frase que alude aos que, cúmplices, excluem o mundo enquanto conspiram  — prevalece contra as soluções de individualização e da normalidade”.

Quando uma das irmãs imagina a vida que lhe aguarda como esposa de um rancheiro, o cenário não parece melhor do que a vida que leva com sua gêmea. Ao contrário. Se estão aprisionadas uma à outra como ao espelho, também são livres para beber Club 45, ouvir a música cumbiera e ensaiar passos de dança até o amanhecer.


FABIANE SECCHES é psicanalista e mestranda em Estudos Comparados (Literatura e Psicanálise) na Universidade de São Paulo

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