Ciro Gomes e o basculho antipetista

Ciro Gomes e o basculho antipetista
Não é preciso chamar Lula de ladrão ou de maior corruptor do Brasil para criticar duramente a candidatura dele (Foto: Jarbas Oliveira)

 

Depois da recente pesquisa do Datafolha, que coloca Lula como líder da disputa eleitoral do ano que vem, mas que também mostra como quase 70% do eleitorado estão divididos entre o ex-presidente e o presidente Bolsonaro, há considerável inquietação nos que se esforçam para oferecer uma alternativa eleitoralmente viável aos dois principais candidatos. 

No setor das alternativas, até agora ignorada eleitoralmente pela memória e atenção dos eleitores, Ciro Gomes é único que efetivamente entrou em campo. Ciro saiu da fase das conversas e balões de ensaios e está em campanha. Posts no Twitter e a produção de vídeos curtos para mídias digitais, as novas ferramentas da moda da comunicação política, já estão funcionando a todo vapor. E as entrevistas se sucedem. 

Nestas, a nova estratégia e a compreensão da conjuntura política de Ciro aparecem claramente. Conjunturalmente, Ciro considera que neste momento Lula já bateu no teto de intenções de voto e que Bolsonaro tende a derreter, em virtude da CPI, dos escândalos e do desgaste na opinião pública. Aparentemente, a campanha não só vislumbra a possibilidade de Ciro ir para o segundo turno em lugar de Bolsonaro – ou, quem sabe, de Lula – como considera possível que migrem para ele as intenções de votos que não estão ainda sedimentadas, de um lado e do outro. 

É uma aposta, que molda uma estratégia: a busca por demarcar a sua diferença de Lula. A tática é informar a eleitores não bolsonaristas de Bolsonaro, que Ciro não é uma outra versão do lulismo, assim como declarar ao eleitor de esquerda que quer uma alternativa a Lula que Ciro pode representar algo melhor. 

A este ponto da história, não creio que Ciro tenha outra escolha para se viabilizar sem algum distanciamento de Lula. A questão é que ele está criando uma imagem para dois públicos antagônicos. De um lado, o sujeito de esquerda que busca uma alternativa, sim, mas está no momento mais alto do seu respeito pelo ex-presidente depois do complô político-judicial que o retirou da última corrida eleitoral. De outro lado, está o cidadão que apertou o 17 para evitar que o PT tivesse mais um mandato presidencial, movido a isso pelo pânico moral do antipetismo em 2018

Ora, é impossível satisfazer a esses dois senhores ao mesmo tempo. Ao tentar diminuir Lula para promover a própria imagem, Ciro pode até agradar ao antipetista não bolsonarista, mas não deixa confortável o cidadão de esquerda que não quer ver Lula acusado por ele, Ciro, das mesmas coisas que os bolsonaristas o acusam. Essas pessoas que brigaram com o PT por Ciro em 2018 são as mesmas que deploram o Ciro que declara que “Lula é o maior corruptor da história brasileira”. Ciro pode prescindir desse perfil de eleitor?

O forte de Ciro para este perfil são inteligência e conhecimento. Diferentemente dos 58 milhões de compatriotas que não se incomodaram de eleger o mais estúpido e o mais ignorante dos candidatos em 2018, há quem prefira que o presidente seja o mais inteligente possível e tenha muito conhecimento para liderar o país em um mundo tão complexo. O fraco de Ciro é uma dimensão da sua pessoa pública, o tipo macho clássico, autoritário e que busca o conflito por esporte. Não gosto de machos. 58 milhões de brasileiros gostam, eu não. Quando Ciro diz na entrevista ao Valor “Vou pra cima de Lula…” deve estar tentando impressionar aos bolsonaristas, não a nós. 

O PT tem muitos pés de barro, a começar pela baixa convicção republicana na condução da coisa pública e um protocolo para lidar com a corrupção que sempre passa pela negação do fato e a proteção do ninho. Não é preciso chamar Lula de ladrão ou de maior corruptor do Brasil, como um vulgar antipetista, para criticar duramente a candidatura dele. Ciro não quer ser um bolsominion vulgar, para que, então, ir buscar no basculho do antipetismo o vocabulário e os recurso para demarcar sua diferença de Lula? Nesse lixão já se alimentaram muitos candidatos de 2016, 2018 e 2020. Ninguém precisa de mais antipetismo. 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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