Em São Paulo, casas comunitárias acolhem pessoas LGBT vítimas de violência

Em São Paulo, casas comunitárias acolhem pessoas LGBT vítimas de violência Moradoras da CasaSóVulvas (Foto: Reprodução/Instagram Vick Basilio)

 

Isabella ainda era menor de idade quando revelou ser transgênero para a família. Enfurecido, o pai respondeu com três facadas. Depois, asfixiou-a com um travesseiro, deixando-a semanas em coma. Sem rumo, a garota foi obrigada a sair de casa.

A história de Isabella não é incomum. Só em São Paulo, pelo menos 8,9% da população de rua se identifica como LGBT, segundo estudo da prefeitura realizado no ano passado. Como não há abrigos voltados para essa população, ela também é cerca de oito vezes mais vítima de violência sexual nas ruas e em abrigos comuns do que os heterossexuais, de acordo com a mesma pesquisa.

Com pouco apoio especializado dos órgãos públicos, ativistas da área acabaram tomando o problema nas próprias mãos, numa tentativa de proporcionar alternativas para casos como o de Isabela. São as casas de apoio LGBT, residências coletivas e gratuitas que abrigam aqueles que foram expulsos pela família e que não têm perspectivas de vida, emprego e moradia.

Em São Paulo, há duas delas: a Casa 1 e a Casa SóVulvas – a primeira, aberta a toda a população LGBT; a segunda, focada apenas em pessoas designadas mulheres ao nascer, conhecidas como AFAB (assigned female at birth, na sigla em inglês). “Essas casas são espaços para sacudir a poeira, levantar e continuar a caminhada”, diz Isabella. Hoje, aos 20 anos, ela mora na Casa 1 há um mês – e ali voltou finalmente a estudar, a se relacionar e a se divertir.

Fachada da Casa1 no bairro da Bela Vista em São Paulo (Reprodução)

Inglês, arte e terapia

Mantidas pelos próprios moradores, as residências oferecem mais que apenas um teto. Na Casa 1, além de um forte apoio psicológico – os moradores têm direito a consultar-se com estudantes de Psicologia -, existe acompanhamento médico quinzenal, um cursinho preparatório para o Enem, aulas de inglês, aulas de canto, culinária, teatro, performance e até oficinas de tarô.

Há também eventos culturais, como cineclubes e debates, e festas pensadas para arrecadar dinheiro, nas quais a casa recebe visitas importantes dentro do meio LGBT: MC Linn da Quebrada, Pabllo Vittar e a Banda Uó já passaram por lá. “Toda a programação da casa é criada com base nas demandas dos moradores”, conta Iran Giusti, jornalista e criador da Casa 1.

Mais recente, a SóVulvas funciona menos como um centro cultural e mais como um apoio caso a pessoa realmente não tenha para onde ir, embora a ideia seja mudar isso aos poucos, inserindo aulas de fanzine, de espanhol e inglês e até workshops de mixagem de música.

Por enquanto, a residência abriga onze moradores – dez mulheres lésbicas e um homem trans. Há intenção de trazer oficinas profissionalizantes, como de confecção de camisetas, produtos de beleza naturais e trufas. “Aqui, cada um oferece seu talento para a comunidade. Aprendemos muito juntos”, diz Antôni Gabriel da Silva, homem trans e um dos fundadores da SóVulvas.

Ali, toda sexta-feira acontece uma aula de desenvolvimento corporal, e a cada mês a casa abre suas portas para eventos de temas variados, como maternidade lésbica, pornografia e empoderamento por meio do crochê. Entre os moradores, o sentimento é de companheirismo: “Tivemos vivências iguais, bastante violentas, por termos sido definidas como mulheres e definidas como o ‘sexo frágil’ no nascimento”, justifica Gabriela Jude, outra idealizadora da residência e uma das primeiras moradoras de lá – ela mesma expulsa de casa pelos pais e obrigada a trancar a faculdade por conta de sua sexualidade.

Dentro das casas, o atendimento psicológico é um dos maiores objetivos dos organizadores: “Não dá para pensar educação, emprego e reestruturação de vida sem passar primeiro pela saúde mental”, explica Giusti, da Casa 1. Lá, todo o processo de triagem dos possíveis novos moradores, que acontece todas as sextas, passa por três profissionais ligados à saúde mental. Aos sábados, um grupo de estudantes de psicologia da FMU – os mesmos que se voluntariam para atender os moradores em sessões de terapia – coordena grupos de conversa de mediação de conflito.

Na SóVulvas ainda não há atendimento psicológico porque os organizadores não conseguiram encontrar profissionais dispostos a ajudar de forma voluntária. A ausência é bastante sentida pelos moradores: “Aqui todo mundo tem algum problema, como depressão, ansiedade e bipolaridade. Temos que nos ajudar e entender uns aos outros até conseguirmos apoio profissional”, diz Ana Paula Prado, uma das moradoras.

Casas de passagem

Mesmo com auxílio psicológico e companheirismo entre moradores, não é fácil manter uma casa de forma colaborativa. Por isso, ambas as iniciativas têm regras bem delimitadas: para morar na Casa 1, a pessoa deve ter entre 18 e 25 anos e ter sido expulsa de casa por ser LGBT ou, ao menos, estar sofrendo violência psicológica na família por esse motivo.

Além disso, por falta de estrutura, a residência não acolhe pessoas de fora de São Paulo, nem quem tenha dependência química ou algum problema psiquiátrico muito forte. Pessoas que estejam sendo perseguidas ou ameaçadas também não podem permanecer na casa: “Infelizmente somos uma iniciativa pequena e ainda não temos como dar esse tipo de apoio”, acrescenta Giusti. No total, os moradores podem permanecer na casa por até três meses: “Somos uma casa de passagem”, define o organizador.

A SóVulvas só aceita maiores de idade e evita acolher pessoas com vícios em drogas. Essas, no entanto, são as duas únicas semelhanças: ao contrário da Casa 1, para ser aceito na casa o interessado passa por uma espécie de entrevista com todos os moradores que, juntos, decidem se estão ou não confortáveis com a presença dela.

Não há tempo máximo de estadia: “A pessoa só sai daqui quando ela tem uma estrutura para estar lá fora”, diz Natacha Orestes, música, ativista e dona do imóvel onde a SóVulvas se organiza. Crianças são aceitas por lá – um dos moradores, inclusive, é Teo, de 4 anos, filho de Natacha. Mas o mais importante é que a SóVulvas aceita apenas lésbicas e homens trans.

A ideia, segundo Gabriela, não é excluir, mas criar um espaço em que pessoas que sofreram opressão por “terem sido designadas mulheres ao nascer” possam estar em contato e protegidas: “Muitos aqui sofreram violência sexual, foram estuprados. Queremos criar um lugar em que essas pessoas se sintam completamente seguras para recomeçar”, explica, apontando também que, em abrigos mistos comuns, pessoas AFAB podem ser vítimas do chamado “estupro corretivo” – uma violência perpetuada principalmente contra lésbicas e homens trans com o objetivo de “consertar” sua sexualidade.

O dia-a-dia na Casa SóVulvas (Reprodução/Instagram Vick Basilio)

Rede de ajuda

Como as casas são mantidas sem dinheiro público, os organizadores têm procurado novas ferramentas para viabilizar suas empreitadas. A internet é a mais importante delas, porque facilita a conexão entre quem precisa de acolhimento e o serviço: “90% do nosso fluxo de pessoas vem da internet, por e-mail ou pelo Facebook. O resto são pessoas indicadas por amigos e conhecidos”, conta Gabriela.

Ela lembra também que foi por meio da rede que os moradores da casa conseguiram ajudar mulheres de outros estados e até de outros países – Iasmin Hausf, por exemplo, fugiu do Paraguai e foi direto para a SóVulvas porque não conseguia se manter em seu país e sabia que, por aqui, encontraria abrigo. “Vim de mochilão, demorei um mês. Mas cheguei e fui acolhida. Posso recomeçar”, conta.

A rede abre, ainda, espaço para novas formas de sustentação das residências. A Casa 1 sobrevive principalmente por meio de um financiamento coletivo recorrente, que funciona como uma assinatura: quem quer ajudar paga uma determinada quantia mensal que pode variar dependendo do quanto a pessoa pode contribuir por mês. “Isso garante que nós tenhamos liberdade para realizar nossos projetos e programações, sem ficarmos presos a uma empresa”, diz Giusti.

A SóVulvas ainda não conta com um financiamento do tipo, mas pretende começar em breve, seguindo os passos da Casa 1. Os moradores se sustentam pela venda dos produtos das oficinas da casa e principalmente por doações feitas por amigos e conhecidos – que incluem, além de dinheiro, produtos de limpeza, alimentos, roupas e até móveis. Tudo é organizado através do Facebook da casa.

A arrecadação não é a única questão que preocupa os organizadores. Outro problema é a enorme demanda por serviços de acolhimento focado em LGBTs, impossível de atender: só a Casa 1 tem uma fila de espera de 400 pessoas. A SóVulvas não tem uma estimativa de quantas pessoas esperam um espaço, mas o fluxo de pedidos de ajuda é constante: “Não passa uma semana sem que tenhamos alguém querendo um lugar para recomeçar”, diz Gabriela.

Mesmo com tantas dificuldades, o recomeço é rápido. Na Casa 1, os moradores costumam permanecer cerca de um mês, e por isso os habitantes das casas estão sempre se renovando. Alguns, segundo Giusti, ficam até o limite de três meses, mas em geral são pessoas com questões de saúde mental e problemas financeiros mais difíceis. Na SóVulvas, embora não haja um limite de permanência, muitas pessoas conseguem ficar apenas o tempo necessário para se reerguer. “O que percebemos é que as pessoas só precisam de um espaço onde possam ficar até arrumar um emprego e um outro cantinho”, explica Gabriela.

“Há moradores de rua LGBT desde que a cidade é cidade”, lamenta Giusti. Natacha concorda: “Não era para precisar existir uma casa como essa. Estamos em 2017, e as pessoas deveriam ser livres para amar”.

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