Cabelo, coroa

Cabelo, coroa (Foto: Stéph Munnier)

Ao celebrar o crespo e expor o racismo, a cineasta Yasmin Thayná, de 23 anos, constrói em seus projetos novas narrativas sobre o ser mulher

No centro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, entre ambulantes, lojas populares, música alta e um mar de gente, Yasmin Thayná diz que ainda não é cineasta, como tem sido aclamada: “Vou ser cineasta no dia em que um filme meu for vendido aqui e passar no cinema do shopping”. A diretora dos curtas-metragens KBELA e Batalhas está escrevendo o roteiro de um longa sobre o amor entre duas mulheres negras e se reafirma – a cada filme, palestra, artigo, entrevista – como voz importante da juventude, das mulheres negras, da cultura periférica, do cinema.

Cabe aqui um parênteses: meu primeiro contato com Yasmin aconteceu em 2013 quando, de alguma forma, este texto começou a ser escrito. Semanas depois de contribuir com a vaquinha organizada por uma amiga para ajudar “uma menina batalhadora a comprar outro computador”, porque o dela havia sido roubado, recebi um e-mail carinhoso de agradecimento, que mencionava a leitura da minha dissertação de mestrado.

Depois de mais mensagens trocadas, a garota de 23 anos pegou um ônibus no Rio e veio a São Paulo prestigiar a festa de inauguração da Casa de Lua, coletivo do qual fiz parte. Antes de o evento terminar, Yasmin já estava de volta à rodoviária, para chegar ao Rio na manhã seguinte. De onde saiu essa menina? Era a pergunta que eu me fazia a cada contato.

Na casa onde Yasmin viveu desde os 21 dias até os 15 anos, na periferia de Nova Iguaçu, os ratos eram frequentes, até passeavam sobre as crianças enquanto dormiam. Lá, ela foi cuidada pelo pai, Osmar Machado Neves, hoje aos 48 anos. Porteiro durante a noite e pedreiro durante o dia, nunca deixou faltar comida, roupa ou material escolar para os três filhos. “Eu dava banho, cuidava quando tinham febre, fazia tudo. Nunca fui machista”, afirma Osmar, que também se preocupava com o cabelo da filha. Comprava alisante na perfumaria e passava na menina, para que ela se sentisse bonita.

Parar com o alisamento do cabelo, marca do embranquecimento a que Yasmin, como tantas meninas negras, foi submetida, é o tema do conto “Mc-KBela”, escrito em 2012 no programa de formação de escritores da FLUPP (Festa Literária das Periferias) e que deu origem ao curta que a nomeou cineasta. O texto foi produzido depois de um alisamento queimar seu coro cabeludo.

A dor física trouxe angústia, reflexão e o desejo de nunca mais passar por aquilo. E do conto, veio o curta. Lançado no Cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro, com os 550 lugares lotados, KBELA levou parentes de Yasmin ao cinema pela primeira vez. Além do orgulho óbvio da menina, sentimentos contraditórios foram despertados.

“Quando eu assisti ao filme, naquela cena em que alisam o cabelo da menina, eu percebi que era o meu irmão, a minha mãe. Eu mesma levei Yasmin ao Beleza Natural [rede de salões especializada em cabelos crespos e ondulados] pela primeira vez”, conta, com pesar, a tia Zilma Martins Gomes, 55. “Ela ficava tão feliz jogando o cabelo. Nunca pensei que fosse mau para ela”, lamenta, desculpando-se pelas lágrimas.

Bela, KBELA
A subjetividade ferida de mulheres negras, que percebem os cabelos crespos como defeito, é uma marca do racismo. A feminista negra norte-americana bell hooks, no artigo “Alisando nossos cabelos”, explica: “A realidade é que o cabelo alisado está vinculado historicamente e atualmente a um sistema de dominação racial que é incutida nas pessoas negras, e especialmente nas mulheres negras de que não somos aceitas como somos porque não somos belas”. A partir do cabelo, Yasmin nos diz que somos belas.

Para bell hooks, assim como para tantas militantes e pesquisadoras das temáticas de gênero e étnico-racial, problematizar, assumir e valorizar o cabelo crespo é uma postura política individual e coletiva. “Em uma cultura de dominação e anti-intimidade, devemos lutar diariamente por permanecer em contato com nós mesmos e com os nossos corpos, uns com os outros. Especialmente as mulheres negras e os homens negros, já que são nossos corpos os que frequentemente são desmerecidos, menosprezados, humilhados e mutilados em uma ideologia que aliena. Celebrando os nossos corpos, participamos de uma luta libertadora que libera a mente e o coração.”

KBELA, mais do que registrar a violência e a dor do alisamento, celebra o crespo em uma experiência audiovisual produzida de forma colaborativa. Foram arrecadados, por meio de financiamento coletivo, cinco mil reais para a locação de equipamentos e alimentação da equipe de cerca cinquenta pessoas, entre atrizes, maquiadoras e figurinistas, todos reunidos pela internet e dirigidos por Yasmin.

A linguagem do filme, inspirada no ator e diretor Zózimo Bulbul, recebeu elogios. Um dos mais rasgados foi de Marcia Tiburi: “KBELA enquanto cinema e enquanto arte é um grande não à propaganda biopolítica que usa os cabelos como linguagem da opressão. Como politização da estética contra a habitual estetização da política, a estetização racista da política, KBELA é antipropaganda que se faz como resistência poética na linguagem de Yasmin Thayná, para quem, por essa pequena joia de filme, merece um elogio resumido: genial”.

Representatividade

Depois do sucesso no Odeon, com outras três sessões lotadas além do lançamento, KBELA levou Yasmin a Cabo Verde, à Suíça, a diversas cidades brasileiras, jornais, revistas e programas de televisão. “Você trabalha com cinema, não é?”, perguntou, no trem, uma menina negra vestindo turbante, em alguma estação entre a Central do
Brasil e Nova Iguaçu.

Camila Souza, de 16 anos, moradora de Nilópolis, na região metropolitana do Rio, conheceu Yasmin em um programa da televisão aberta. “O que você faz é muito importante! Eu demorava sempre para sair de casa, com medo de caçoarem do meu cabelo. Agora sei que sou rainha”, afirma a garota que lê diversos blogs e páginas de redes sociais sobre mulheres negras. Nas periferias cariocas, no centro, e até na zona sul, Yasmin é reconhecida. “Tem gente que vem conversar, às vezes alguém grita: ‘Valeu, Kbela’. Eu entendo que é uma grande responsabilidade”, diz Yasmin.

A responsabilidade pesa para a jovem, que muito produz e pouco se diverte. “Não tenho isso de parar, curtir, não fazer nada”, pontua. “Eu queria! Mas não me permito. Tenho que trabalhar, não acho que posso ficar ali onde a galera interage. Estou sempre de cara amarrada”. Quando não está nas aulas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio, onde cursa Jornalismo, ou no trabalho como consultora do Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio de Janeiro (ITS), Yasmin está escrevendo roteiros, projetos ou o livro que pretende lançar no início do ano que vem, Cartas ao meu pai branco.

Dos projetos em que tem investido, está a AFROFLIX, plataforma para audiovisuais produzidos por pessoas negras, e o filme Batalhas, que registrou a primeira vez quando o funk foi apresentado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A praia, que tanto simboliza o Rio de Janeiro, não costuma ser frequentada por Yasmin, que nunca pisou na areia de Copacabana, Ipanema ou Leblon. “Não sei bem por que nunca fui. Mas a praia da Zona Sul não é para todo mundo. Conheci gente que nasceu e viveu uma vida no Rio sem nunca ter ido à praia. Dependendo da vida que a pessoa leva, não tem tempo nem vontade disso”.

Formação

A garota, que aos 11 anos recheava os churros vendidos pelo pai e a avó, não ia bem na escola, mas sonhava com uma carreira militar. Ao final do Ensino Fundamental, no contraturno escolar, frequentava o cursinho preparatório para escolas técnicas e militares de um vizinho. Aprovada no vestibulinho, foi estudar eletrotécnica na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), onde entrou no grêmio e criou um cineclube. O pai, que via a garota limpar os vinis da avó, pensava que ela gostava de coisas antigas e começou a comprar DVDs de filmes “velhos”, como Fellini e Chaplin, dos ambulantes do centro de Nova Iguaçu.

Para ficar mais perto da escola, aos 15 Yasmin saiu da casa onde morava com o pai, os irmãos e a avó para viver com a tia, no centro da cidade. Lá, conheceu a Casa de Cultura de Nova Iguaçu, onde ingressou no projeto Jovem Repórter. “Foi outro sentido para a vida. Ser parte de um grupo, ter vivido a cidade como eu vivi. A cidade, que parecia não ter nada, tinha muita coisa, muita gente, muita história. O slogan do projeto era ‘Todo mundo tem história’. Ali eu aprendi a construir outra narrativa”, afirma. “No jornal, era só assalto, sequestro, morte. Aprendemos a enxergar potencialidades, criar uma narrativa positiva.”

Da Casa de Cultura, conheceu a Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. “Fiz uma prova para entrar. Pessoas como Eliane Costa e Ivana Bentes estavam envolvidas com o projeto. Ali era altíssimo nível. Aprendi muito na Escola Livre.” A garota era monitora do Jovem Repórter, onde ganhava 150 reais por mês, e podia se dedicar aos projetos, ao movimento estudantil, a observar os mais velhos e a estudar.

“Eu sou fruto de uma política pública”, reconhece Yasmin, ao contar sobre as gestões de Nova Iguaçu que, em parceria com o Governo Federal, investiram na educação e na cultura como possibilidades de transformação social. Hoje, a menina é referência para estudantes e seus antigos professores.

Em 2011, fez o Enem, mas não tinha pontuação suficiente para o curso de Jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Conseguiu bolsa de 50% em uma faculdade privada, mas queria frequentar uma instituição renomada para ter uma formação melhor, fazer contatos e investir no currículo.

No segundo semestre de 2014, foi aprovada no vestibular da PUC e recomeçou o curso de Jornalismo, sem hesitação ou arrependimento. “Eu tenho muito para ler, muito para aprender.” Além das aulas, a biblioteca e o bosque da PUC, Yasmin frequenta as reuniões do Coletivo Nuvem Negra, que fundou com alunas e alunos negros de diversos cursos da universidade. No Instituo de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), tem planejado uma comunicação audiovisual que torne as tecnologias mais compreensíveis e acessíveis às pessoas.

Durante as Olímpiadas, ela foi convidada para um jantar com representantes de uma multinacional que patrocina projetos sociais no Rio de Janeiro. Enquanto tomava champanhe em um dos restaurantes mais caros da cidade, recebeu uma mensagem de pessoas próximas dizendo que não tinham nada para comer. “Podem dizer o que quiserem, me convidar para qualquer coisa, que não tenho como ficar deslumbrada.”

Migrante na cidade, entre classes, nas perspectivas de vida, Yasmin segue jovem negra em uma grande cidade brasileira, construindo novas narrativas sobre o ser mulher. E, confio, logo mais seus filmes serão vendidos pelos ambulantes no centro de Nova Iguaçu.

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