Privado: Tornar-se mulher, devir feminista

Privado: Tornar-se mulher, devir feminista
Simone de Beauvoir, em retrato de Henri Cartier Bresson, 1945, Paris (Reprodução)

 

“Não se nasce mulher, tornar-se mulher”, tradução brasileira para o original “On ne naît pas femme, on devient femme”, é a frase célebre com a qual Simone de Beauvoir começa o segundo volume de O segundo sexo, em 1949 (o primeiro volume havia passado praticamente despercebido), cujo eco se ouve ainda hoje na política e na teoria feminista. O recurso ao original tem aqui o objetivo de chamar a atenção para a importância do verbo reflexivo “tornar-se”, que supõe, na sua definição, um movimento de transformação, promove uma mudança e faz com que algo ou alguém deixe um estado e passe a outro. Na obra da filósofa Simone de Beauvoir, a atualidade do verbo “tornar-se” só é compreensível em toda a sua profundidade e extensão a partir do seu original – “devenir” – , que carrega nele tanto o sentido do movimento quanto o de futuro, resultado da sinonímia entre verbo e substantivo no idioma francês. Esse entrelaçamento pode ajudar a compreender a importância da herança deixada por Beauvoir não apenas para o presente, mas para o devir, uma das palavras da língua portuguesa com a qual se pode traduzir “devenir”.

O segundo sexo vem reverberando desde sua publicação e, mais recentemente, seu cinquentenário foi comemorado como um grande feito da filosofia política feminista. A primeira grande contribuição da filósofa foi perceber que a mulher tinha sido reduzida, desde o início da modernidade, ao lugar de outro do homem, excluída do conceito supostamente neutro e universal de humano, sob o qual, de direito, estava abrigado apenas o homem. Por isso, Beauvoir começa observando que a ninguém nunca teria ocorrido escrever um livro sobre a condição do homem, por que esta sempre esteve abarcada pela condição humana. Cumpre, assim, uma tarefa histórica, a de denunciar o fracasso do projeto moderno de universalidade ao perceber que só havia uma definição negativa para a mulher: aquela que não é homem.

Essa concepção inferiorizava a mulher em uma posição secundária, argumentava Beauvoir, ainda que o segundo sexo não estivesse fundamentado em nenhum aspecto da natureza humana, mas na educação, na cultura e nas formas de sociabilidade. O corpo biológico de uma fêmea torna-se mulher a partir da cultura, e não de regras até então tidas como naturais. Com este ponto de partida, ela influenciou pensadoras ocidentais em diversos campos da teoria feminista, que estabeleceu, a partir dos anos 1970, sob influência da antropóloga Gayle Rubin e em debate com o antropólogo Lévi-Strauss, o sistema sexo/gênero, indicação de que a todo corpo biológico é atribuído um gênero, este submetido a regras sociais.

Em diálogo com as aberturas proporcionadas por Beauvoir, sob influência de Rubin, de Monique Wittig e de tantas outras, no final da década de 1980 a filósofa norte-americana Judith Butler escreve uma série de artigos que serão reunidos no livro Problemas de gênero – feminismo e subversão da identidade (Civilização Brasileira, 2003). O primeiro texto é inteiramente dedicado a fazer avançar o sistema sexo/gênero a partir de um componente até então ausente, o desejo. É por perceber essa ausência que Butler dá um passo a mais na teoria feminista, abre espaço para a emergência da teoria queer – que tem entre seus objetivos a crítica da heterossexualidade normativa – e ainda propõe a performatividade de gênero, possível a partir de uma certa radicalização do verbo “tornar-se”. Performatizar é uma forma de fazer gênero, expressão já indicativa de que o gênero não é da ordem do ser, não é estático, não está previamente dado.

O segundo sexo, de Simone de Beauvoir
Edições francesas dos dois volumes de ‘O segundo sexo’ (1949), obra celebrada de Simone de Beauvoir

De certa forma, Butler desconstruiu – aqui lembrando que desconstruir não é destruir, mas decompor camadas sedimentadas do pensamento – o sistema sexo/gênero como o filósofo franco-argelino Jacques Derrida já havia feito com o par significante/significado da linguística estruturalista de Ferdinand Saussure. Há nos dois gestos, no entanto, o reconhecimento de que esses pensamentos se fazem a partir das brechas abertas pelos pensadores anteriores.

Quando Butler estabelece com Beauvoir um debate sobre o par sexo/gênero, o faz por perceber que essa distinção ainda está submetida à tradição cartesiana que orientou o pensamento ocidental sobre o sujeito. Por isso, a filósofa norte-americana se propõe a discutir como e se a noção de gênero decorre do sexo, decorrência na qual ela aponta uma forma de afirmação de uma “unidade metafísica” que faria com que um sexo – feminino, por exemplo – se torne necessariamente uma mulher, como se houvesse no corpo biológico alguma substância ou essência a fornecer qualquer tipo de garantia ao “tornar-se”. De certa forma, desde o “tornar-se mulher”, de Beauvoir, já havia um acento na liberdade do gênero em relação ao corpo biológico. Afirmar que não há a verdade do gênero fez Butler ser reconhecida na França como uma continuadora da obra de Michel Foucault, para quem já não havia a verdade do sexo ou a verdade do sujeito, desde sempre assujeitado a estruturas de poder que produzem e condicionam sua subjetividade. Em Butler, corpos fazem e desfazem gêneros, fazem e desfazem pela repetição, sem nunca serem idênticos a si mesmos. Ela explicita, assim, a arbitrariedade da ligação entre sexo e gênero, assim como Derrida havia percebido a arbitrariedade da ligação entre significante e significado. Se, com Foucault, sexo já é um ideal regulatório que produz corpos a serem governados em Butler há a percepção de que a norma depende da repetição. É aqui então que ela – se afastando de qualquer tipo de pensamento liberal que pretenda conferir à performance um ato de liberdade individual do sujeito – se vincula ao “tornar-se” de Beauvoir, acrescentando o caráter de prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia. Com isso, Butler se afasta da ideia de uma essência ou substância do sujeito que “torna-se” para pensá-lo – ao sujeito – como um “eu falante, formado em virtude de ter passado pelo movimento de ‘tornar-se’”. Se em Beauvoir as opções sexuais a que os sujeitos estão limitados são sempre duas, em Butler a tarefa é ampliar as possibilidades de conjugação do verbo “tornar-se”, já não mais restrita ao binarismo dos corpos ou ao imperativo heterossexual que possibilita certas identificações e impede outras.

A partir de O segundo sexo e de todas as possibilidades que o pensamento de Beauvoir proporcionou à teoria feminista, abriu-se um campo de debate sobre como a diferença sexual funciona como uma estrutura hierárquica nas relações sociais. Nas empresas, nas escolas, na família e na cultura, papéis de gênero alocam homens e mulheres em determinadas funções, sentimentos, formas de vida e capacidades. Já a partir da leitura de Butler, outro componente – a heteronormatividade – entra no debate sobre os problemas de gênero. Cada uma a seu modo, Beauvoir e Butler renovaram as perspectivas teóricas sobre o feminismo e abriram caminho para diferentes correntes de pensamento que hoje se valem da proposição inicial de Beauvoir – tornar-se, devir – para pensar a transgressão das normas de gênero.

Se Beauvoir inovou na crítica à universalidade do masculino, apontando uma estrutura que excluía o feminino da possibilidade de tornar-se sujeito, Butler inovou na abertura à singularidade, percebendo como a dicotomia sexo/gênero funciona no engendramento de sujeitos submetidos a normas que determinam entre quem pode ou não tornar-se sujeito e constrangem determinados corpos como abjetos por não serem reconhecíveis dentro da norma. Tornar-se, que em Beauvoir parecia ser um movimento único, passa a ser com Butler um movimento permanente, um devir feminista no que o termo tem de mais contestador das normas (de gênero) vigentes.


CARLA RODRIGUES é professora de Filosofia da UFRJ e vice-coordenadora do laboratório Khôra de Filosofia das Alteridades.

Deixe o seu comentário

TV Cult