A fuga

A fuga
(Foto: RWBPress)

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Nos despedimos na esquina da rua, no meio da noite. Pedimos desculpas um ao outro: ele por ficar, eu por partir.
Sándor Márai, Terra, Terra!

 

1. Seguir por algo que parece ser um caminho, fazer uma longa e árdua jornada, deixar tudo para trás e, ao final, não chegar a algum lugar. Fazer essa jornada e ler na placa enferrujada, caindo aos pedaços, uma paisagem inóspita: “não verás país nenhum”.

Com certeza, você já viu as imagens dos refugiados ucranianos, de alguns dos milhões deles. Fogem de Kiev, Mariupol, Kharkiv, Chernihiv, Kherson e cruzaram as fronteiras com a Polônia, Hungria, Romênia de trem, carro ou mesmo a pé. Eles levam consigo poucas coisas, apenas o que conseguem carregar nas próprias costas. Os mais afortunados conseguem, além da família, manter próximo de si seu cachorro e algum objeto do passado.

O que as imagens não mostram é que eles não estão fugindo da confusão, se mantendo a uma distância segura dos tiros e bombas. Se fosse somente isso, haveria até um lado positivo, encontrar novos ares, refrescar a cabeça, evitar o estresse da guerra, visitar velhos amigos, fazer novos amigos. Não, não é isso. Essas pessoas têm costurada aos seus casacos a marca “refugiado” porque elas não têm mais uma casa para onde voltar.

O lugar onde viviam, a paisagem onde se moviam, a vida que tinham até meados de março de 2022, o bar que frequentavam, a igreja onde rezavam, a escola onde estudavam não existe mais.

2. Você que lê este texto, olhe ao seu redor, observe as coisas que você reuniu durante a vida, o exemplar barato de Vidas secas comprado em um sebo, o porta-retrato onde você está com sua avó, o boletim da 8ª série com aquele 9,5 em Matemática, todas essas coisas que são apenas papel para o mundo, mas que, para você, te definem assim como a cicatriz no joelho, seu tom de voz, seu jeito de balançar as mãos quando anda. Pare um pouco e lembre de seus amigos, as pessoas com as quais você se encontra para celebrar a vida; vá até a janela e olhe a rua, veja o local onde um senhor vende frutas… Essas coisas que você pode dizer que são suas, não como algo que você comprou, mas como um pedaço do mundo que você conquistou… tudo isso está irremediavelmente perdido para quem foge da guerra.

Em um dicionário, a definição de refugiado deveria ser: aquele que perdeu seu lugar e para quem ser um sobrevivente é um fardo.

3. O ocaso do século 20 e o florescer do século 21 prometeram que nos tornaríamos, nós, toda a humanidade, cidadãos do mundo. Surgiria um novo Esperanto falado por todos os cantos; o fim dos últimos muros depois da queda do Muro. Passado 1989, o lugar, o lugar de cada um, seria todo o planeta, seria o mundo inteiro, um imenso e inesgotável pacote turístico.

O melhor, prometiam, viria depois. Com a pandemia – mais uma crise que gera oportunidades –, se descobriria que nem precisamos estar em algum lugar para que a máquina do mundo entre em operação, cada engrenagem poderia ser gerida remotamente ou apenas funcionar sozinha.

Sem lugar, sem tempo. A civilização, melhor a Civilização com letra maiúscula, a Tecnologia, o Capital realizaram nosso destino: a vida plena, o fim das fronteiras, a criatividade sem rédeas, o Esperanto ensinado a toda a gente, a felicidade perpétua.

4. Mas pergunte a quem não tem lugar, a quem perdeu o lugar. Pergunte ao refugiado o que significa transformar uma cidade, uma província em um ponto no mapa organizado por cores, linhas contínuas e linhas pontilhadas. Pergunte para quem está em fuga, alguém que sabe que o ponto no mapa continua lá, mas o lugar, não.

Como escreveu o filósofo australiano Jeff Malpas, o lugar não é o espaço, não é o ponto no mapa. Pessoas de um passado não tão distante assim, pessoas a quem as promessas do século 20 não alcançaram, falavam de terra, nossa terra como algo que compreendia mais do que a localidade onde se nasce. Para essas pessoas, o lugar da vida, as edificações, os acidentes geográficos, os heróis da cidade – como o homem que salvou a criança do afogamento e que parecia levitar sobre as águas, a mulher que deteve uma cobra venenosa com seus poderes mágicos –, são a terra. A terra, o lugar da vida é a música que se ouvia, as tristezas partilhadas, as alegrias partilhadas, as necessidades comuns e as esperanças comuns… algo vívido objetivamente, como o busto cravado na praça municipal, algo vívido subjetivamente, como o conforto do versos do poeta louco sentado sob o busto cravado na praça municipal.

5. Quando a calamidade acabar – se a calamidade acabar – aqueles que estiveram em fuga não dirão para seus anfitriões: “Muito obrigado pela hospedagem! Desculpa o incômodo! Preciso voltar para casa, lá deve estar a maior bagunça. Preciso voltar para meu emprego, pois devo ter muito trabalho acumulado. As plantas precisam ser regadas”. Aqueles que tiverem coragem para voltar para Kiev vão encontrar ferros retorcidos e um forte e indescritível odor. Eles não estarão voltando para casa. Ela não existe mais e eles sabiam disso no minuto que saíram por aquela porta e não quiseram olhar para trás e se desculparam por partir.

A calamidade não vai acabar. E quanto esta calamidade acabar, a calamidade continuará. Isso vai acontecer até que todos nós estejamos em fuga?

p.s.: Dedico este texto a Marcelo Faria, geógrafo e professor, que tenta ensinar a valor do lugar e o significado da sua destruição.

 

Waldomiro J. Silva Filho é professor titular de Filosofia da UFBA e Pesquisador do CNPq. Atualmente é Pesquisador Visitante do Center for Contemporary Epistemology and the Kantian Tradition da Universidade de Colônia, Alemanha.


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