Um velho olhar para novos objetos

Um velho olhar para novos objetos
Glenn Close no papel de Joan Castleman em A esposa, indicado ao Oscar e dirigido pelo sueco Björn Runge (Foto: Divulgação)

 

(Alerta de spoiler: o texto abaixo contém revelações do enredo de A esposa)

Que a mais recente onda de valorização das minorias na cultura mainstream tem lançado luz sobre questões interessantes é algo difícil de contestar, mas o tratamento dado a essas questões ainda tem deixado a desejar. Indicado ao Oscar de Melhor Atriz, A esposa faz esse caminho incompleto e tematiza conflitos importantes do debate feminista de maneira bastante rasa.

Dirigido por Björn Runge, o filme foi inspirado em um romance de Meg Wolitzer e retrata a dinâmica de uma relação em que o talento de uma mulher é usurpado pelo marido. Discreta e dedicada, Joan Castleman (Glenn Close) passa a reexaminar suas escolhas de vida quando o marido, Joe (Jonathan Pryce), é agraciado com o prêmio Nobel de Literatura. A similitude dos nomes é o primeiro indício de simbiose experimentada pelos dois: ao longo do filme, descobrimos que o casal escrevia juntos, em uma espécie de parceria na qual Joe entrava com ideias e edição de texto, mas Joan era a escritora de fato.

O acerto foi feito logo no começo da relação, por iniciativa dela. De um lado, havia um professor universitário recém demitido por ter se relacionado com uma aluna (a própria Joan). De outro, uma jovem brilhante que queria escrever e ser lida, mas não se sentia encorajada a pagar o preço dessa posição. A ideia de escrever para o marido permite que exerça seu talento sem arcar com os custos habituais e também a coloca em uma situação de poder dentro da relação. Ela, que antes estava insegura com a possibilidade de um rompimento, acaba se tornando imprescindível.

Embora um acordo como esse pareça de saída destinado ao fracasso, o casal foi capaz de sustentá-lo por décadas, construindo uma espécie de bolha narcísica a dois. Mas a chegada do prêmio Nobel e a forma como Joe se refestela acriticamente nos louros adquiridos, escanteando a mulher ao reconhecimento afetivo, o contrato de anos começa a ruir. Nessa ocasião, a figura vaidosa do marido e a farsa compartilhada subitamente soam repugnantes para ela.

A maior parte da história se passa em Estocolmo, na Suécia, em meio aos bastidores da premiação. É lá que as rachaduras desse casamento aparentemente feliz começam a se espalhar e o mal-estar transborda, tensionando os momentos de festejo e pompa.

Alguns outros fatores agravam o ressentimento pela imortalidade perdida: Joe esnoba as pretensões literárias do filho, enquanto a mãe acha que ele tem potencial. Parte importante da mágoa de Joan também se dá porque, embora seja muito devotado à esposa publicamente, ele também se utiliza da glória emprestada para seduzir outras mulheres.

Em que pese a qualidade da atuação de Glenn Close, que consegue dar ares de dignidade até aos momentos mais rebaixados da personagem, A esposa não é um grande filme. Mas, como ocorre com o livro que o inspirou, serve para lançar luz sobre a negligência com que o trabalho das mulheres ainda é tratado e sobre o modo como o reconhecimento afetivo muitas vezes camufla a falta de reconhecimento intelectual.

Esse retrato, no entanto, é feito de modo pouco ou nada sutil. Joan literalmente escreve pelo marido, em um quadro quase esquemático. Talvez pudesse ser mais interessante pensar em uma relação onde a contribuição fosse um pouco mais difusa, em que nem a mulher nem o homem tivessem noção exata da extensão dessa colaboração que o favoreceu de modo desmedido.

Joan Castleman (Glenn Close) e Joe (Jonathan Pryce) em A esposa (Divulgação)
Joan Castleman (Glenn Close) e Joe (Jonathan Pryce) em ‘A esposa’ (Foto: Divulgação)

Em certo momento, Joe faz comentários sobre um conto escrito pelo filho, argumentando que o casal de personagens, claramente inspirado nos pais, seria um clichê. O que ele não se dá conta é de que a crítica é, na verdade, uma autocrítica involuntária. Mas, ainda que seja um personagem plano, infelizmente não dá para dizer que seja inverossímil.

Os casos extraconjugais do marido parecem servir apenas para reforçar um esquema maniqueísta de bandido e mocinha, entregando a leitura junto com a obra. Pior, o tratamento do roteiro acaba sugerindo que as ambições femininas são tão domésticas que o incômodo de Joan só poderia se legitimar nesse eixo.

A ideia de que Joan não foi apenas vítima do marido, mas também articulou seu destino e transformou Joe em uma espécie de personagem a serviço do projeto em comum, foi negligenciada pelo roteiro — diferentemente do que ocorre em outro filme com premissa similar, o francês Monsieur & Madame Adelman, no qual a esposa assume um papel bem mais obscuro. Se as mesmas questões estão presentes em ambos, a diferença é que A esposa acaba simplificando dilemas femininos de tal modo que serve pouco ao debate e menos ainda à arte.


Fabiane Secches e Juliana Cunha são doutorandas do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP.

(6) Comentários

  1. Excelente crítica, o público brasileiro é carente de análises que não se confundem com propaganda.

  2. Comecei a assistir os filmes e a debater sobre o tema. Como faço para poder entender melhor o que o filme quer mostrar?

  3. Nãobtive esse sentimento de vítima ou de heroína pela personagem. Acho que o filme fez isso bem, ao contrário do afirmaram. A esposa/escritora é uma mulher que decide o caminho de sua vida. Viver tantos anos como a esposa exemplar parece mais uma ferramenta que usou. Tanto marido, quanto esposa são dependentes um do outro. Isso fica claro nos cuidados que ela tem por ele e na necessidade que ele tem dela para ser uma figura de destaque no mundo. Sem heróis ou vítimas.

  4. O filme pintou o marido como vilão (ok, ele é um babaca mesmo), enquanto retrata a esposa como mulher mãe avó elegante cuidadora e amorosa que foi escravizada por ele. Ela nunca perde o ar de superioridade moral como se não tivesse sido cúmplice da fraude. Sim, o mundo é horrível com a gente mas a personagem parece mesmo se comportar como uma vítima do sistema e do casamento ficou um pouco forçado. Ele fica como o garanhão aproveitador e ela como a coitada injustiçada.

  5. Essas questões também me incomodaram muito quando o vi o filme, e me fazem pensar até que ponto podemos considerar um avanço ter um tema como esse num filme de Hollywood indicado ao Oscar, se nas entrelinhas as mensagens continuam tão conservadoras.

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