Um silêncio chamado política

Um silêncio chamado política
Fan Ho, Approaching Shadow, 1954 (Reprodução)

 

Na entrada os homens, como se posicionam os soldados. A prontidão aprendida há milênios confirma-se em apertos de mão e abraços duros intensificados por densos tapas nas costas. Um pacto ancestral e sua coreografia. Um homem alto de camiseta branca segura entre as mãos os ombros de um outro mais forte do que ele. São mais de vinte, de trinta, quarenta talvez. Estão em pé como árvores rijas e tesas, testam forças, firmeza e sustentação. Nenhum deles esmorece, não há dúvida, não há abalos, não há brisa, nem vento.

Há uma rua como um rio por onde podemos navegar. O carrinho com a caixa de som segue os corpos ansiosos em expedição pelo território sinuoso. É a marcha pela liberdade de um preso político famoso e amado pelo povo. Microfones estridentes ampliam a angústia. Cinegrafistas munidos de câmeras produzem o sonho coletivo de despertar as pessoas para a importância perdida de suas vidas.

Falo com o dono da banca de rua onde se vendem tênis de marcas falsificadas. Mais adiante compro uma sandália. Pergunto sobre a vida na crise, tomo um café. As mulheres estão dentro das lojas, o pequeno comércio serve de esconderijo às cidadãs amedrontadas. Trabalham muito, falam pouco. Pego o microfone, chamo as mulheres para a rua. Aquelas que vêm às janelas e sacadas, comentam que estão trabalhando, que não podem participar. Testo a voz masculina e ela apenas me diz, como aprendi com Ana Cristina César, “estou cansada de ser homem”.

Avançamos pela rua. Chegamos à praça onde feirantes vendem o que podem para pessoas que têm muito pouco. Me encanto com os sacos de um tempero vermelho. Horas depois ganho um pacote de um companheiro atento, cavalheiro perdido entre fios de alta tensão descascados.

A pobreza não choca quem vem de dentro dela, eu reconheço. O governo nos abandonou, uma senhora me diz. Um homem com os olhos machucados me explica que foi golpe enquanto fuma seu cigarro. Eu penso no que ele vê, enquanto o outro me conta como perdeu o emprego ao lado daquele que lastima a fila do posto de saúde para conseguir seu medicamento do coração. Uma jovem, cabelos loiros e lisos, passa dizendo que odeia os políticos. Uma mãe me conta como a filha, uma menina de sete anos, vai três vezes por semana à escola, apenas meia manhã, para ter aulas com a diretora que resolveu manter a escola aberta.

Eu caminho, solta na experiência como cabe a uma professora de filosofia. Entre pensar e agir, é preciso descobrir o caminho. E percebo que estou em casa em meio ao abandono.

É então que uma mulher, setenta e poucos anos, talvez sessenta, talvez cinquenta, com um pequeno pacote ao qual está abraçada, me olha. Eu a olho também. Ela fixa o olhar em mim, perdida que está dentro dela mesma em um mundo que a mantém só. Eu sou seu espelho.

Ela enche os olhos d’água. Eu também.

Nos abraçamos. Ela não pode dizer nada, tanto quanto eu. Entre nós, nenhuma palavra, apenas uma troca de lágrimas. Outra é a comunicação. Um grande silêncio nos une.

Demoro a entender que o nome desse silêncio é Política.

Levo comigo esse olhar e esse abraço que guarda o reconhecimento dessa dor que nos une e penso que ele não pode acabar nunca mais.

(8) Comentários

  1. Um texto que nos dá um breve descanso da luta por justiça em todos os cenários da nossa vida. Mesmo assim, na reflexão lutamos.
    Parabéns Márcia Tiburi. Sou sua admiradora desde muito antes do golpe, desde muito antes da morte de Mariele, desde muito antes da destruição da democracia brasileira.

  2. Obrigada, por este texto, poético porém lúcido e triste! Que desvela e revela este momento de golpe, perda de direitos! #LulaLivre

  3. Desejo-lhe uma ótima caminhada!

    Queria ser do Rio, nesse momento, para estar ao seu lado lutando por esse propósito.

    Abraço!

  4. Ver, ouvir, saborear, tatear, sentir como fazer política de outro modo?
    Como ser feliz no chamamento dos cidadãos para eles verem, ouvirem, saborearem, tatearem e sentirem.
    Há tal autoritarismo na organização politica do estado para impedir dos cidadãos de fazerem política.

  5. Os textos da Márcia sempre me emocionam, há um estreitamento da interioridade nos seus livros – os quais também me tocam profundamente – onde a voz trespassa através do texto, como se o mesmo se tornasse físico tal como um tecido tocável, sensível assim como o relevo das costuras. Ao mesmo tempo o texto se converte em voz pra mim e escuto ela falando pra si, como se fosse tangível. Obrigado Marcia por sua fala que acorda, toca e ao mesmo tempo sendo realista, trás esperança…

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