Tudo deve ser simples (e você vai ser controlado sem saber)

Tudo deve ser simples (e você vai ser controlado sem saber)
(Arte Revista Cult)

 

O Brasil tornou-se o reino das coisas simples. Tem-se um presidente que se apresenta como um exemplo de “homem simples”. Os ministros também, como pessoas simples, cansam de cometer erros de gramática e reproduzir os preconceitos enraizados na sociedade brasileira. A verdade, contudo, é sempre complexa. 

A identificação e a solução dos problemas, bem como o exercício consciente da soberania popular, exigem a compreensão da complexidade da vida em sociedade, a identificação das positividades e negatividades inerentes aos fenômenos e às pessoas. O modo de pensar e atuar hegemônico no capitalismo atual, contudo, quer fazer de tudo meras “positividades”, objetos úteis à lógica da concorrência e ao funcionamento do mercado. Ao contrário do que se poderia imaginar, a simplicidade está ligada menos à ideia de ajudar a compreensão do que ao objetivo de facilitar o controle dos negócios e da população. 

O empobrecimento da linguagem é um dos efeitos dessa busca por simplicidade e leva tanto ao abandono de palavras e de figuras de linguagem como às modificações na articulação entre significante e significado. Metáforas, por exemplo, que ajudavam a compreender os fenômenos, tornaram-se raras. Com a “simplicidade” na linguagem, busca-se controlar os sentidos. A reflexão e a verdade, que se inserem no campo da complexidade por envolverem positividades e negatividades, passam a ser demonizadas e/ou relativizadas. A simplificação da linguagem é, portanto, uma operação que leva à redução do campo do pensamento e à uniformização das condutas. 

De volta à religião e à ditadura

É o desejo por visões simplificadas da realidade que explica, em certo sentido, o fortalecimento sob a égide neoliberal de fundamentalismos religiosos e de projetos políticos reacionários nos quais se buscam a segurança (“simples”) de um Deus, que tudo ordena e simplifica, ou de um passado mítico e idealizado (no caso brasileiro, idealiza-se a ditadura instaurada em 1964). 

 Não por acaso, a “teologia da prosperidade” e a “teologia do domínio” (“Batalha Espiritual”) ganham cada vez mais espaço. A teologia da prosperidade faz da religião e da Igreja um mercado, isso através de uma simplificação da relação de Deus com as pessoas, reduzindo-a a um contrato (se os indivíduos tiverem fé em Deus, ele fornecerá a contraprestação de segurança e prosperidade). A teologia do domínio, por sua vez, é construída à imagem e semelhança da “concorrência”, o que faz com que o mundo acabe transformado em um campo de batalha no qual se desenvolve uma luta maniqueísta do bem contra o mal:  de um lado, os “verdadeiros” cristãos; do outro, os demônios e os seres humanos que acabaram dominados pela força demoníaca. 

A redução de tudo, inclusive da desigualdade, da injustiça e da violência, a efeitos da ação demoníaca ou das políticas de “esquerda” é uma forma de simplificar as coisas e de reforçar a crença de que por trás de outras religiões, do intelectualismo, da poesia, das ciências e das artes, por exemplo, esconde-se o Diabo.

RUBENS R.R. CASARA é juiz de Direito do TJRJ e escritor. Doutor em Direito e mestre em Ciências Penais. É professor convidado do Programa de Pós-graduação da ENSP-Fiocruz. Membro da Associação Juízes para a Democracia e do Corpo Freudiano


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