Transfobia tem raízes na misoginia, diz primeiro brasileiro a fazer cirurgia de readequação sexual

Transfobia tem raízes na misoginia, diz primeiro brasileiro a fazer cirurgia de readequação sexual Primeiro homem trans a fazer cirurgia de readequação sexual no Brasil, João Nery conta trajetória em novo livro (Foto Divulgação)

 

 

Na juventude, João não pagava meia entrada no cinema: ninguém acreditava que a carteirinha de estudante fosse dele. Ao ser parado pela polícia na rua, o rapaz era sempre acusado de falsidade ideológica – ou de estar brincando com os policiais. Tudo porque seu aspecto masculino não batia com o nome que os documentos anunciavam: ao lado da foto de uma pessoa andrógina e de cabelos curtos, lia-se “Joana Nery”.

“Meus próprios documentos depunham contra mim”, lembra João W. Nery, o primeiro homem trans a submeter-se a uma cirurgia de readequação sexual no Brasil, em 1977. Isso em plena ditadura militar, quando o procedimento ainda era experimental – e ilegal. Aos 27 anos, ele preferiu arriscar a própria vida “a ter que viver uma mentira”.

Mesmo depois da cirurgia, como o nome social não era (e ainda não é) legalizado, ele foi obrigado a abrir mão do histórico escolar e do diploma de psicólogo, que conquistara ainda com o nome de Joana, para se registrar como João. Desde então, tem dificuldade para conseguir emprego em sua área.

Da difícil caminhada, nasceu um livro: Viagem solitária, a primeira autobiografia de um transgênero no Brasil, lançada em 2012. Agora, cinco anos depois, o autor lança uma continuação de seu relato em Vidas Trans – A coragem de existir, publicação que traz também as histórias de Amara Moira, Márcia Rocha e T. Brant.

Hoje, os relatos do autor funcionam como um guia para quem quer passar pela transição “e também para as famílias”, diz. Nery também dá nome a um projeto de lei que visa à legalização do nome social, e é o fundador de grupos nas redes sociais focados no apoio e na proteção de homens trans – ou “transhomens”, como ele prefere. “Sou um transhomem feminista e luto por todas as minorias”, resume.

À CULT, Nery fala sobre o novo livro, faz um balanço da luta transgênero no contexto brasileiro, condena o que chama de “prisão da feminilidade” e coloca o machismo como o grande mal da sociedade – e como origem da transfobia: 

CULT – Que dificuldades a população transgênero tem passado no Brasil, especialmente no contexto político atual?

João W. Nery – A população trans engloba não só os transgêneros, mas também todos os outros gêneros, como os interssexuais e os não-binários. Ou seja, é muita gente. Toda essa fatia social tem níveis de depressão altíssimos, e as pessoas que pertencem a ela se suicidam em taxas assustadoras. Isso porque ainda somos considerados doentes mentais, não só mas principalmente no Brasil. Para sermos quem somos, precisamos passar cerca de dois anos em um processo que “comprova” nossa “condição”, entre psicólogos, psiquiatras e endocrinologistas. Poucos hospitais do SUS no Brasil fazem a transição, e nenhum, por exemplo, nas regiões norte e nordeste. Quem tem dinheiro vai para o particular, mas poucos têm, porque a maioria é expulsa de casa. E aí, entramos em outro problema, a prostituição: muitas pessoas trans precisam vender o próprio corpo para sobreviver. Nós não temos empregabilidade – eu mesmo estou desempregado e sem aposentadoria -, e o Estado não toma conhecimento disso. O que é pior, não há nenhuma lei de proteção à identidade de gênero. Você tem a lei contra o racismo, tem a lei Maria da Penha, mas não tem nada contra as agressões contra trans ou homossexuais, especificamente. As pessoas trans são vítimas, mas perante a sociedade acabam viram réus, culpados apenas de serem quem são. O desrespeito é concreto, é total.

Na Comissão de Direitos Humanos, tramita um projeto de lei com o seu nome, que tem como objetivo tornar legal o uso do nome social. O que significa esta luta para a comunidade trans?

O nome social é uma luta que foi encabeçada pelas travestis e pelas mulheres trans. Hoje em dia, ele ainda não é legalizado – o que se faz é uma gambiarra: a pessoa se registra de novo no cartório como se nunca houvesse registrado. Isso gera diversas questões, como o apagamento do histórico escolar, o que tem impacto direto na vida profissional. Não ter direito ao nome social é mais um fato que nos torna completamente invisíveis perante a sociedade. Veja, sem documentos que tragam um nome condizente com os nossos corpos, enfrentamos problemas que vão desde o constrangimento ao ser chamado pelo nome de batismo em uma sala repleta de pessoas até não poder fazer passaporte por medo da acusação de falsidade ideológica. Eu mesmo, quando era jovem, preferia pagar entrada inteira no cinema só para não mostrar a carteira de estudante. Lembro também que a polícia, quando me parava na rua, achava que eu estava tirando um sarro deles, mostrando o documento da minha irmã. Meus próprios documentos depunham contra mim. A PL com meu nome diz que qualquer pessoa trans pode ir ao cartório e trocar seu nome e gênero quando quiser. No entanto, ela ainda não foi votada, porque temos cada vez mais evangélicos e conservadores no poder que barram a passagem de leis como essa. Uma das últimas ações da Dilma, antes de sair da presidência, foi baixar um decreto obrigando todas as escolas e repartições públicas a aceitar o nome social, mas o novo governo cortou o decreto e voltamos à estaca zero. Claro, o nome social é um paliativo, um direito mínimo – mas também representa o direito básico à existência, que ainda nos é negado.

O que falta para estas demandas serem atendidas? O tem sido feito?

Falta muito. Mas, para começar, acho que falta quem estude gênero na academia, para fomentar as políticas públicas que nós não temos. O Brasil ainda não tem a cadeira de gênero e sexualidade em todas as suas universidades. Ou seja, há profissionais das ciências humanas que não sabem diferenciar sexo de gênero, e isso tem impactos devastadores. A primeira e única providência que foi tomada para a população trans pelo governo, que eu me lembre, foi o Transcidadania, no governo de Fernando Haddad (PT), que dava uma bolsa de estudos para travestis voltarem a estudar. Mas o projeto fechou assim que o governo de João Dória (PSDB) assumiu. Então, a coisa fica nas mãos da iniciativa privada: em várias cidades do Brasil há cursinhos preparatórios para o Enem voltados à população trans; há casas de acolhimento para quem foi expulso de casa, como a Casa 1, em São Paulo, e Casa Nem, no Rio. Mas ainda é pouco. De qualquer forma, eu sou um cara otimista. Acho que aos poucos as coisas estão mudando. Na minha época não tinha nem passeata.

Você diria que há um atraso do Brasil em relação a outros países quando se trata de direitos dos transgêneros?

Não é que o Brasil seja o mais atrasado do mundo, mas estamos bem atrás. Em outros países, a coisa anda bem mais rápido: na Argentina, já se aceita o nome social; na Austrália, é possível registrar um bebê como gênero neutro, para que o gênero não seja uma imposição, mas uma percepção. Na Suécia, já existem escolas que adotam o gênero neutro, nas quais as crianças brincam com todos os brinquedos, independentemente de ser boneca ou carrinho, “de menino” ou “de menina”. Já aqui no Brasil, só para dar um exemplo, a faloplastia [cirurgia de implantação de pênis] é dita “experimental” apenas para pacientes transgênero – o mesmo procedimento não é considerado experimental para homens cis que perderam seus pênis em acidentes ou por doenças.

No livro Vidas trans, você diz que faz um trabalho de ‘despreconceito’ com as pessoas trans por meio das redes sociais. Em que medida os novos meios de comunicação ajudam pessoas que percebem a própria transgeneridade?

Tenho um perfil especial no Facebook só para atender os homens trans. Criei também um grupo secreto em que juntei vários profissionais, como advogados, psicólogos e médicos que não são transfóbicos para ajudar quem me procura a encontrar também esses profissionais. Também tento fazer uma espécie de censo online: já contei 3.500 rapazes trans, com algo entre 14 e 20 anos. Eles muitas vezes não sabem que são trans, e estão deprimidos ou ansiosos e não entendem o por quê. E a razão é muito simples: eles vivem uma mentira para ter algumas migalhas de amor e aceitação, e isso enlouquece. Eu fui feliz por ter uma família de classe média que me permitiu estudar, e não fui rejeitado, mas mesmo assim foi dificílimo sem ter ao meu lado pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu. Acho que é essa a importância da internet, mostrar que a pessoa não está sozinha. Não é, como foi para mim, uma viagem solitária.

Homens trans não costumam aparecer tanto na mídia e nas produções culturais quanto mulheres trans. Como você vê esse fato?

Concordo, isso acontece mesmo. Os transhomens, como eu prefiro chamar, são as pessoas que nascem mulheres, ou seja, que a sociedade considera que não valem nada, e que têm a pretensão de ascender ao poder – de se tornarem homens. Ora, como ser um homem sem um pênis dentro de uma sociedade falocêntrica? Claro que o pênis não define um homem, nem a vagina define uma mulher, mas não é como a sociedade vê. Então, há um apagamento aí, como se não fôssemos “homens de verdade”. Além disso, há a questão da falta de glamour: enquanto muitas mulheres trans entram em meios como concursos de beleza, novelas e música, transhomens não estão nem aí para isso. Eles querem desaparecer, se tornar invisíveis, não querem mais nenhum constrangimento. Eles costumam sumir até da militância em busca dessa paz. E por isso também acabam aparecendo menos que as mulheres trans.

Você diz que a homofobia e a transfobia vêm da misoginia. Por quê?

Gênero, para mim, é uma invenção social que varia de tempos em tempos e de lugar para lugar. É uma performance com a qual você se identifica ou não. As pessoas assumem alguns valores do que é visto como “feminino” ou “masculino” e, de tanto repetir, acreditam que é algo natural, mas nada é natural, tudo é socialmente adquirido. Na nossa sociedade atual, o que é considerado “feminino” é uma agressão muito grande. É uma prisão que mantém a mulher subalterna. Veja bem, a mulher sempre foi desprezada e vista como um objeto inútil: na Bíblia, ela vem da costela do homem, um osso absolutamente sem função e que pode muito bem ser retirado sem maiores consequências. Ao longo dos séculos na sociedade patriarcal, os indivíduos do sexo feminino se tornaram a escória social. Hoje, o maior xingamento para o homem é “viado”, ser comparado a uma mulher. E é nesse sentido que a misoginia fabrica a homofobia e a transfobia: os homens não podem ser delicados, não podem exercer cuidado, não podem ter contato com os próprios sentimentos que já são taxados de “mulherzinha” e automaticamente desvalorizados. Homens sofrem muito com isso também. Tem tanta coisa bonita no que é considerado feminino, e eu faço questão de manter isso comigo. Toda a minha herança feminina, aquilo que a Joana podia, eu mantenho com cuidado.

O Brasil é o país que mais mata transgêneros no mundo. Mas também é um dos que mais busca pornografia envolvendo pessoas transgênero online. Como você vê essa dualidade?

O Brasil é o primeiro em mortes de transgêneros: por aqui, morre um por dia. A distância entre o nosso país e o segundo da lista, que é o México, é assustadora: por lá, morrem quatro vezes menos transsexuais por ano. Essa incoerência entre o desejo de morte e o desejo sexual em relação à população trans é uma loucura. Eu conheço muitas travestis que trabalham como prostitutas e elas sempre dizem que seus maiores clientes são homens heterossexuais e casados com mulheres. E que as travestis são coagidas a serem ativas na relação. Por que isso? Porque na verdade eles adorariam ser passivos, mas só se permitem se for com uma mulher, porque eles não podem ser considerados homossexuais. Além disso, existe essa busca gigantesca por vídeos pornográficos com pessoas trans na internet. Essa atração sexual é proporcional à aversão; uma aversão que vem do fato de que nós, transgêneros, somos uma ameaça para os homens cisgêneros – porque representamos a possibilidade do que eles são, mas não podem ser. Os trans funcionam como espelhos, mostrando a verdadeira essência de quem olha, e causam aversão por causa disso. Eu digo isso porque tenho convicção de que as pessoas que estão seguras com a própria sexualidade estão pouco se importando com a sexualidade do outro. Só se incomoda com isso quem não é resolvido.

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