Thais Beltrame, guardiã do nosso recuo

Thais Beltrame, guardiã do nosso recuo

A exposição A VIDA FELIZ de Thais Beltrame estará na casa do Espaço Revista Cult (http://www.espacorevistacult.com.br/index.php) durante o mês de setembro. Quem gosta de desenho não pode perder. Quem gosta de crianças também não. Falo assim, porque me vi diante de algo tão emocionante que queria que todo mundo conhecesse.

Escrevi o texto abaixo sobre os desenhos da Thais. Fico muito feliz de participar, de ver, de poder estar perto de uma coisa tão bonita como são estes desenhos, embora não sejam desenhos simplesmente bonitos. E esse adjetivo seja só pra estabelecer comunicação com os leitores. Quem quiser conhecer um pouco mais http://thaisbeltrame.com/

Thais Beltrame, guardiã do nosso recuo

O que primeiro chama nossa atenção nos desenhos de Thais Beltrame são as crianças. Junto delas, as árvores, os animais, uma casa. E a primeira impressão é de um mundo de delicadeza em que poderemos passear e esquecer dos medos, das obrigações, dos vícios. Como se alguém nos convidasse a comer um doce, paramos para descansar.

O estranho deserto em que somos adultos ainda não começou. Tudo parece travessia e, ao mesmo tempo, a sensação é de um recuo possível. Um mundo perdido de um tempo atrás está a salvo, resguardado.

Então olhamos um pouco mais. A infância, verdade absoluta de quem permanece sobre a terra, arrebenta como o segredo da semente na umidade calorosa que promete o que há de vir. Não há garantias. Os segundos, antes calados na experiência amorfa da vida diária, devoram nossos olhos vagarosamente. A delicadeza de antes é véu de seda para quem ainda não percebeu o pesado veludo que reveste a existência.

O tempo, miasma sutilíssimo, pede-nos que entremos na madrugada. É noite na experiência vivida em que nunca fomos senão a impressão de um encantamento. A atenção, essa virtude infantil que perdemos um dia, está prestes a ser recuperada.

Com um olho só, tendo o outro na mão a ser guardado no bolso, vigiamos o pensamento. Talvez não sejam crianças e não atravessem um mundo inóspito. Talvez não estejam sós, como nós possivelmente não estamos. Então, por que a vida é o cenário onde se traça um mistério, o brilho claro sob as árvores, e antes delas, ilumina o escuro desde há muito carregado dentro de cada um de nós. Um outro, miúdo, quase escondido, pede quietude, abre-nos uma porta. E, conquistada a paragem silenciosa do instante, sugere passagem.

O que por fim chama a atenção reencontrada entre as sombras da floresta, como uma pétala no meio do caminho, um pássaro que voa para trás, é a pequena porta que ficou no tempo de antes, cuja chave perdemos.

Thais Beltrame é a guardiã que detém a chave sem a qual somos caule seco de uma árvore morta, uma folha em vão, ossos descarnados do animal em pé. Eterna viagem sem rumo.

A chave tem o nome de beleza. Está acessível a quem, com as lentes cinzentas que – escondendo – mostram o dia, descobre que o mundo é um desenho invadindo o instante finito a que chamamos vida.

Podemos, assim, atentos como nunca, e em direção ao nunca, recomeçar.

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