Tempo de poesia

Tempo de poesia

 

Ruy Belo, um dos maiores poetas modernos de Portugal, deu-nos, em um livro de 1970, o seguinte verso: “Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais.” A imagem, além de sua beleza, leva-nos, com a potência de sua afirmação, a pensar o que é um poeta vivo, quando um poeta morre; e parece dizer-nos que vive todo aquele cuja palavra permanece a inquietar para além dele; vivo e contemporâneo será o poeta capaz de uma obra em que, todo o tempo, a língua permaneça nova e apta a deslocar nossa subjetividade, gosto e gesto. Situada além do valor lógico-utilitário das coisas cotidianas, é poesia contemporânea – não importa a época de sua escrita – a que se mantiver plural, ilimitada, e que por isso vence a morte.

Por seu lado, outro grande poeta português, Gastão Cruz, escreve: “Os meus contemporâneos são mortais.” Apontando para o tempo, a morte e os homens, o verso devolve-nos a obviedade com força de revelação: não sem espanto e alguma melancolia, deparamo-nos, como se pela primeira vez, com a verdade inexorável do fim.

Mas quem são os nossos contemporâneos? Aceitando-se a proposição de Ruy Belo, poder-se-ia buscá-los em qualquer tempo. Sem objetar a validade de tal solução, mas exatamente por concordar com ela e com a liberdade em que nos instala, o dossiê Vozes da Poesia tem por objeto poéticas e poetas já consolidados – surgidos em meados da década de 1940 do século 20, que se prolongaram até recentemente ou ainda operantes – mas também uma produção recentíssima, ainda inédita em livro. Para tanto, convidamos críticos de diferentes gerações, atuantes dentro e fora das universidades, dentro e fora da própria criação artística.

Já não há qualquer novidade na afirmação de que a poesia brasileira atual apresenta uma larga diversidade que impede a delimitação de um quadro hegemônico. E também não será difícil observar que na convivência de linhagens está em cena, sobretudo, o trato com diferentes “formas” e “tons”: o verso livre convive com a metrificação; o soneto com o espaço concretista; o coloquial com o registro culto e elevado; a construção com o fluxo surrealista. Tal variedade faz ver que não há uma opção por alguma genealogia pretensamente inquestionável, com a qual os poetas ingressariam sem riscos no quadro da poesia brasileira. E não caberia perguntar quem está mais certo em suas opções, a não ser que a questão sirva para acentuar o caráter de risco (“poesia é risco”, conforme Augusto de Campos) para quem escreve hoje, pois um acervo forte e o aproveitamento dele nada tem a ver com facilitação.

Não há dúvida de que a vitalidade, o número expressivo e a extraordinária heterogeneidade das poesias brasileira e portuguesa atuais dão o sinal de uma valorização de seus  acervos. Se parte relevante dos estudos literários – sobretudo aqueles que têm lugar nas universidades – está cada vez mais preocupada com o questionamento dos cânones, apontando a matriz ideológica de quaisquer escolhas, a produção poética, por sua vez, parece constituir-se de modo mais complexo, em uma tensão entre o desejo de superação do cânone e o acolhimento da tradição.

Sim, podemos lançar mão de quaisquer formas, mas é preciso atentar para o fato de que estas só serão fortes se suportarem as injunções que nos impõem “o tempo presente, os homens presentes, / a vida presente” -(Drummond), ou seja, a experiência e a história. Seria um erro afirmar (e não é raro ouvi-lo) que depois de -Drummond ou de João Cabral, ou das vanguardas, restou-nos apenas a repetição, a imobilidade, ou que, pelo contrário, suas mortes ter-nos-iam libertado da presença incômoda de suas estaturas. Esses poetas, como Murilo Mendes ou Eugénio de Andrade, e muitos outros, estão vivos, e tanto exercem variada pressão sobre nós, quanto sofrem o influxo dos poetas e leitores que vieram depois deles.

Fundamental, creio, é a avaliação de escritores (incluídos aí críticos e teóricos), poemas e livros não como se procurássemos novos eleitos, novos príncipes, inventores, formas inéditas, teorias demolidoras, gerações recentíssimas; nossa busca deve ser por pesar em conjunto a produção poética atual (uma atualidade mais larga do que pretendem a pressa e o esquecimento precoce), suas ramificações, temas, táticas, como respostas às demandas estéticas e existenciais do presente. Só seremos contemporâneos amanhã como são contemporâneos, hoje, Fernando Pessoa, Vinicius de Moraes, Camões, Manuel Bandeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Ferreira Gullar, Herberto Helder (a lista, felizmente, seria grande) se procurarmos compreender os muitos tempos que fazem da poesia, a nossa eternidade no agora.


Eucanaã Ferraz é poeta, doutor em Literatura Brasileira e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor de Rua do mundo (Companhia das Letras, 2005) e organizador de O mundo não é chato (Companhia das Letras, 2005) e Veneno antimonotonia (Objetiva, 2005)

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