A poesia portuguesa no século 20

A poesia portuguesa no século 20
A poeta Sophia de Mello Breyner Andresen, marco da segunda fase da poesia portuguesa no século 20 (Reprodução)

 

Há, no século 20, dois períodos em que se concentram os acontecimentos que dele faz um século maior da poesia portuguesa. Naturalmente, encontramos fora desses ciclos outros fatos poéticos da máxima importância, quanto mais não fosse porque os principais agentes estendem a sua ação concreta para lá de tais limites, artificiais como todos os estabelecidos em história literária. Mas não somente por isso: a evolução da poesia portuguesa é um processo vasto e complexo, com múltiplos participantes, ainda que nem todos tenham lugar no primeiro plano em que só cabem as intervenções mais influentes nessa evolução.

A primeira das duas fases a que me referi poderá ser situada entre a publicação das revistas Orpheu, em 1915, e Athena, em 1924-1925, com a saída do único livro de Camilo Pessanha (1867-1926), Clepsidra, pelo meio, em 1920. Ao longo destes anos, poeticamente dominados pelas personalidades de Pessanha, de quem são publicados em 1916, nas páginas de Centauro, outra revista do modernismo, 16 dos seus poemas mais representativos, Fernando Pessoa (1888-1935) e Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), cujos últimos poemas aparecem em 1924, na Athena, consolida-se o lugar da poesia moderna, que tivera, no último quarto do século 19, antecessores tão fortes como Cesário Verde (1855-1886), Gomes Leal (1848-1921), António Nobre (1867-1900).

Não sendo da minha preferência o vocábulo “salto”, diria que existe, nos cerca de dez anos que demarquei, uma espécie de aceleração da extraordinária mudança reconhecível na linguagem poética portuguesa. Revistas como Portugal Futurista, Contemporânea ou Athena abrigam muito dessa poesia.

Curiosamente, é em 1927, dois anos após o fim de Athena e um ano depois do último número de Contemporânea, que se inicia a publicação da revista Presença, situada no âmbito da modernidade, e de inquestionável importância para a consolidação de uma consciência literária moderna em Portugal, mas em cujas páginas o contributo poético decisivo será ainda o de Pessoa, que nelas apresenta muitos dos seus mais emblemáticos textos, como, por exemplo, os poemas “Marinha”, “Isto”, “Autopsicografia”, a ode “Para ser grande, sê inteiro…”, o oitavo poema de O Guardador de Rebanhos, “Aniversário”, “Gazetilha”, “Tabacaria”, e até alguma coisa do Livro do Desassossego, superando sempre, a grande distância, toda a restante colaboração poética, predominantemente mais conservadora e, sobretudo, em geral, de menor qualidade, o que é patente ao longo dos 56 números da revista.

A Presença termina a sua publicação em 1940, a edição da obra de Pessoa, pela Ática, inicia-se em 1942; e, em meados da década de 1940, a poesia portuguesa retoma um elevado grau de intensidade — traduzido, acima de tudo, na revalorização da imagem e na capacidade de restituir à palavra o lugar central na construção do poema, como seu elemento estrutural —, que a religa ao período áureo da afirmação do Modernismo em Portugal.

Delimitaria esta segunda fase com as datas de publicação dos livros Poesia (1944) de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), como primeiro marco, e (Este) Rosto (1970), de Fiama Hasse Pais Brandão, como segundo.

O livro de estreia de Sophia, Poesia, inaugura os tempos da máxima confiança no poder da palavra como unidade essencial do discurso poético, comum quer aos que, como a própria Sophia, Carlos de Oliveira (1921-1981), Eugénio de Andrade, enraizavam a sua obra na tradição lírica, inovando dentro dela (como, em grande parte, já fizera Pessoa, no setor ortônimo), quer a outros (Jorge de Sena (1919-1978), António Ramos Rosa, Alexandre O’Neill (1924-1986), Mário Cesariny), que nitidamente procuravam atingir pontos mais avançados dentro da modernidade, operando sínteses diversas, obtidas a partir do cruzamento das novidades com maior influência na, então, jovem poesia: a herança de Sá-Carneiro e de Pessoa (esta última reconduzente, por vezes, via Álvaro de Campos, a Cesário Verde, em particular no caso de Mário Cesariny, como António Ramos Rosa soube observar, na recensão crítica – Ler, nº 12 – a Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos: “Eu, pelo menos, já há muito tempo não respirava um clima tão acre, tão realista, e que me dá vontade de ir a Lisboa, ao menos para me desiludir. É afinal um surrealista – vejam lá! – que por intermédio de Álvaro de Campos e sem o parecer logo, vem encontrar-se com Cesário Verde”; a assimilação do surrealismo como movimento; a linha mais moderna da poesia presencista, representada principalmente por Adolfo Casais Monteiro (1908-1972).

O livro de Fiama Hasse Pais Brandão, tal como os de Luiza Neto Jorge (1939-1989) publicados na década de 1960 (nomeadamente, Terra Imóvel, de 1964, O Seu a Seu Tempo, de 1966, e mesmo Dezanove recantos, de 1969) ilustra o modo como, nesse quarto de século (entre 1944 e 1970), mas, sobretudo, na década de 1960, as buscas estilísticas e as incursões surrealizantes e experimentais de variadíssima natureza confluíram e se fundiram, muitas vezes, com os intuitos de uma poesia realista – em certos casos mesmo abertamente política, mas nunca, nos seus grandes momentos, alheia ou desatenta às especificidades e exigências da invenção poética.

Nem (Este) Rosto nem Dezanove recantos encerram, propriamente, este segundo ciclo de modernidade – que se prolonga, voltando a atingir pontos especialmente significativos em obras tão inovadoras como Entre duas memórias (1971) de Carlos de Oliveira, O ciclópico acto (1972) de Luiza Neto Jorge ou, já perto do final da década de 1970, Toda a terra (1976) de Ruy Belo (1933-1978), Cobra (1977), de Herberto Helder e Área branca (1978) de Fiama Hasse Pais Brandão.

A revolução (ou revoluções) poética(s) a que me venho referindo prende(m)-se com a enorme alteração que, quer no plano da fuga à lógica comum, quer no da desobediência à norma gramatical, ocorre desde o início do século 20. Bastará, por exemplo, observarmos o soneto de Camilo Pessanha Foi um dia de inúteis agonias, para nos apercebermos de como a sucessão das imagens (“dia de sol, inundado de sol”, “fulgiam nuas as espadas frias”, “dália a esfolhar-se, – o seu mole sorriso”, “voltavam os ranchos das romarias”, “minuete de discretas ironias” e, sobretudo, a caracterização do “dia impressível mais que os outros dias” como “difuso de teoremas, de teorias”) “dispensa concatenação lógica”, para me servir das palavras de João Gaspar Simões (1903-1987), a propósito da “poesia moderna”, no prefácio (de 1940) às Poesias de Mário de Sá-Carneiro. Vejamos o enquadramento da sua consideração: “Mas que a poesia moderna evita contar, não há dúvida; que a poesia moderna evita discorrer, é certo; que a poesia moderna dispensa a concatenação lógica, é indiscutível. Imagine-se então a perplexidade do crítico que lê uma obra moderna na intenção de penetrar o segredo dos seus poemas. Logicamente, discursivamente, não há nada a fazer: a menos que se pretenda substituir por qualquer discurso arbitrário aquilo que por natureza é silêncio, êxtase, símbolo.” E em Sá-Carneiro podemos encontrar tão brilhantes exemplos de violação da sintaxe como o último verso do poema “Álcool”, “Manhã tão forte que me anoiteceu”, em que um verbo intransitivo é transformado em transitivo.

O domínio completo da imaginação, a instauração da total liberdade de associação de palavras, de imagens, de sons (sem, contudo, geralmente, se abdicar de uma fidelidade profunda ao real), a libertação do discurso poético, em suma, eis o que talvez melhor caracterize a poesia do século 20, que, no caso português, em Pessanha, Pessoa, Sá-Carneiro, encontra os seus mestres, aos quais forçoso será juntar, pelo menos, o nome precursor de Cesário Verde. Que a imaginação e a liberdade não se tenham nunca oposto ao quase obsessivo rigor construtivo (poemas como “Uma pequenina luz” de Jorge de Sena ou “Um dia não muito longe não muito perto” de Ruy Belo poderão ser, entre muitos outros possíveis, exemplos elucidativos do que acabo de dizer), mesmo em poetas que delas largamente fizeram uso, é outro fenômeno definidor de muito da grande poesia portuguesa do século 20.

António Ramos Rosa, uma das mais agudas consciências críticas da nossa modernidade poética, pôs sob o signo de Rimbaud a poesia sua contemporânea, ao intitular Poesia, Liberdade Livre o primeiro livro de ensaios que publicou (1962). E afirma, na já citada recensão, a Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, do surrealista Mário Cesariny, reproduzida, aliás, na contracapa da reedição do poema, em finais da década de 1950: “Chamo provocação a toda a séria tentativa surrealista de denúncia da realidade através duma coerência total com o próprio grito.”

Penso que não apenas a poesia surrealista, mas toda a poesia moderna, pode ser lida como essa “denúncia da realidade”, no sentido em que é no luminoso abismo aberto entre o real e a linguagem que a evidência da poesia se produz e revela.

Para completar esta visão, forçosamente rápida e incompleta, de um período tão rico e denso da poesia portuguesa, por alguns já classificado como o seu “século de ouro”, resta falar um pouco, por um lado, do tempo situado entre as duas fases da modernidade que tentei destacar, ou seja, dos anos delimitados pelos meados das décadas de 1920 e de 1940, correspondentes, em grande parte, à vigência da – Presença (1927-1940), e, por outro, além de acrescentar alguns nomes aos já citados dos anos 1950 e 1960, esboçar algumas indicações acerca dos, ainda tão próximos, 30 anos finais do século 20 e primeiros do século 21.

Vitorino Nemésio (1901-1978), rigorosamente contemporâneo da chamada “geração da Presença” e por ela bem pouco apreciado e valorizado, estréia em 1935, com um livro de poemas em francês, La Voyelle Promise, publicando, em 1938, O Bicho Harmonioso e, em 1940, Eu, – Comovido a Oeste, obras marcantes, cujo trabalho esplendoroso sobre a palavra antecipa, na década de 1930, a melhor poesia das décadas subsequentes, e estava, na verdade, em grande avanço sobre a dos seus mais festejados companheiros de geração, o que só cerca de 30 anos mais tarde começou a ser amplamente compreendido.

Na verdade, aquelas que foram, pelo menos até os anos de 1950, consideradas as figuras maiores da Presença, poeticamente, José Régio (1901-1969) e Miguel Torga (1907-1995), representavam uma tendência mais conservadora e retórica de poesia, com o correspondente desinteresse pelo prosseguimento do processo inovador inaugurado pelo primeiro modernismo, na linha dos precursores já mencionados. A exceção, entre os presencistas, é, como já referi, Adolfo Casais Monteiro, mais atento a uma linguagem da modernidade. Mas são, sobretudo, além do de Nemésio, outros casos, durante muito tempo, de certo modo, marginalizados, da poesia revelada na década de 1930, que se nos afiguram hoje os mais vivos e resistentes à erosão: a Irene Lisboa (1892-1958) de Um Dia e outro Dia (1936), Edmundo de Bettencourt (1889-1973) (dissidente da Presença, como Torga, em 1930), Saul Dias (1902-1983).

Sem poder nem querer ser exaustivo, não posso deixar de juntar agora aos nomes já referidos alguns outros que, na segunda metade dos anos de 1950, seguiram -percursos paralelos aos dos que buscavam restituir à palavra a sua especificidade como elemento privilegiado da construção poética: Fernando Guimarães, Fernando Echevarría e Pedro Tamen são alguns deles. E, na década seguinte, em consonância com a tentativa de conciliar realismo e vanguarda, patente em poetas como Ruy Belo, Fiama e Luiza Neto Jorge (Herberto Helder manteria a sua poesia no puro plano da criação lingüística, evidentemente com uma visão do mundo e da vida bem definida, mas imune a quaisquer tentações de a ligar, próxima ou longinquamente, à realidade circundante), haverá que salientar a presença de dois poetas tão importantes como Armando Silva Carvalho e Fernando Assis Pacheco (1937-1995).

Depois de 1970, assistimos ao aparecimento de poetas que, ou se situam numa certa continuidade em relação à poesia da década anterior, como é o caso de António Franco Alexandre e, pelo menos inicialmente, o de João Miguel Fernandes Jorge (saudado por Ruy Belo, no prefácio que escreveu para o seu primeiro livro, como vindo “na linha dos melhores poetas de Poesia 61”), ou procuram afirmar-se na prática de um acentuado discursivismo, como acontece com Nuno Júdice, cuja evolução, até o presente, se faz no sentido de um estilo cada vez mais narrativo e assumidamente “prosaico”, tendência que é também a de alguns dos poetas revelados nos últimos dez ou 11 anos, embora não seja esse, no mesmo período, o caso dos, por isso mesmo, mais relevantes e inovadores: Luís Quintais e Rui Coias.

Nos anos de 1980, sobressai uma das mais fortes e originais personalidades da poesia recente, Luís Miguel Nava (1957-1995), tragicamente desaparecido aos 37 anos, em 1995, a que deveremos somar os nomes de Paulo Teixeira, Adília Lopes e Fernando Luís Sampaio, que voltou a ser publicado, após um silêncio de 11 anos, com dois  livros notáveis, de 2001 e 2005. A partir de 1990, há que assinalar, entre outros, o aparecimento de -Fernando Pinto do Amaral e de Manuel Gusmão. Este último, que, pela idade, pertence à geração revelada na década de 1970, rapidamente foi reconhecido como uma das grandes vozes da mais recente poesia. Também Manuel António Pina, um poeta de 1970, se tem vindo a afirmar,  principalmente nos seus últimos livros, por uma escrita que equilibra um extremo rigor com uma emotiva aproximação dos temas quotidianos.

A evolução da linguagem poética é, naturalmente, como comecei por dizer, feita de muitas contribuições e, portanto, também daqueles que, não sendo, porventura, os mais diretamente decisivos para a sua renovação profunda, não deixam, por isso, de ter um peso próprio ou até uma influência significativa no fluir dos acontecimentos. Este breve panorama, sem ter a pretensão de conseguir referenciar todas essas presenças, terá, espero, contribuído para pôr em relação linhas e obras particularmente representativas de uma modernidade poética que se estende do ano já remoto de 1915 até aos nossos dias.


Gastão Cruz é poeta, estreou em 1961 com A morte percutiva. Após ter toda a sua obra contemplada em Poemas reunidos (Lisboa, Dom Quixote, 1999), publicou mais três livros, o último deles, Repercussão (Lisboa, Assírio & Alvim, 2004). Gastão Cruz nasceu em Faro, Portugal (1941) e vive em Lisboa.

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