Sobre o ódio, o amor e o problemático mundo dos afetos

Sobre o ódio, o amor e o problemático mundo dos afetos
Jean-Michel Basquiat, Glenn, 1985 (Foto: Reprodução)

Será que somos livres para amar e odiar se há tanto controle por trás dos afetos?

 

Começamos a falar de ódio há algum tempo, quando percebemos que ele estava em alta. Para muita gente, de repente, o ódio pareceu uma novidade. O discurso de ódio ganhou as televisões, as redes sociais, o dia-a-dia das pessoas e tornou-se algo natural. “Amar”, um poético verbo intransitivo, foi substituído pelo odiar.

Algo que é próprio da vida dos afetos é esquecer como eles surgem. Seja o ódio, seja o amor, que parece o seu contrário imediato, os afetos são vividos como que naturalmente. Isso quer dizer que são experimentados sem que haja consciência das mediações a partir das quais eles são possíveis na vida das pessoas. Não nos perguntamos por que odiamos. Do mesmo modo como não nos perguntamos por que amamos. Como passamos a odiar ou a amar? O que impulsiona nosso amor, nosso ódio? O ódio é nosso mesmo? Ou é coletivo? E, se for coletivo, seria ainda autóctone? O ódio é como aquele deus ex machina que vem do nada? Ou ele é produzido com fins específicos?

Pensamos que o ódio que sentimos vem de nós mesmos, que o amor que sentimos também. Que ele vem de um fundo pessoal, de algo como uma natureza própria. Mas será que esse tipo de raciocínio não prejudica a nossa compreensão desses fenômenos que definem nossas vidas e a vida dos outros e das comunidades com as quais convivemos?

Parece importante pensar um pouco mais na utilidade dos afetos. Pensar no uso que as instituições e os poderes fazem deles. Perguntar quando a família, a igreja, a televisão nos ensinam a amar e odiar. Será que somos livres para amar e odiar se há tanto controle por trás dos afetos?

Não seria a hora de perceber que há uma verdadeira economia política dos afetos que leva tanta gente a adorar shoppings e mercadorias em vez de promover o amor ao conhecimento e o respeito à educação e à escola? Que leva tantos a amar tecnologias, carros, telefones celulares, televisores de último tipo enquanto reservam seu ódio às pessoas?

Os afetos não estão fora da linguagem. Não são algo como um “instinto”. Os afetos não forjam discursos apenas, mas também são criados pelos discursos. Os discursos, por sua vez, são falas prontas que servem para definir estruturas e orientar ações. Todos nós somos vítimas de discursos: o publicitário e o anti-publicitário, o religioso e o anti-religioso, o partidário e o apartidário. Discursos são evidentemente causa e efeito de pensamentos e emoções, mas escolhem por onde levar esses ou aqueles pensamentos e emoções a um objetivo específico.

Todos estamos enrolados nos fios do círculo vicioso da discursividade. Como ser livre afetivamente, nessas condições?

Contra esse estado de coisas, só o pensamento crítico pode nos abrir caminhos lúcidos. A reflexão é a única ação que pode produzir mudanças capazes de fazer sentido hoje.

(7287) Comentários

  1. Atenção a como formamos imagens e julgamentos, àquilo que nos influencia, às suas intenções – manifestas ou não, reconhecer os nossos proprios valores, entre outras medidas ‘higienicas’, ajudam a preservar a liberdade individual.

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