Sobre a dificuldade de ler

Sobre a dificuldade de ler
Giorgio Agamben (Arte Revista Cult / Foto Christina Bocayuva)
  Gostaria de lhes falar não da leitura e dos riscos que ela comporta, mas de um risco ainda maior, ou seja, da dificuldade ou da impossibilidade de ler; gostaria de tentar lhes falar não da leitura, mas da ilegibilidade. Cada um de vocês terá feito a experiência daqueles momentos nos quais gostaríamos de ler, mas não conseguimos, nos quais nos obstinamos a folhear as páginas de um livro, mas ele nos cai literalmente das mãos. Nos tratados sobre a vida dos monges, este era, aliás, o risco por excelência ao qual o monge sucumbia: a acédia, o demônio do meio-dia, a tentação mais terrível que ameaça os homines religiosi se manifesta, antes de mais nada, com a impossibilidade de ler. Eis a descrição que S. Nilo lhe dá: “Quando o monge acedioso tenta ler, interrompe-se inquieto e, um minuto depois, cai no sono; esfrega o rosto com as mãos, estende os dedos e continua a ler por algumas linhas, balbuciando o fim de cada palavra que lê; e, entretanto, se enche a cabeça com cálculos ociosos, conta o número das páginas que ainda restam a ler e as folhas dos cadernos e se lhe tornam odiosas as letras e as belas miniaturas que tem diante dos olhos até que, por último, torna a fechar o livro e o usa como um travesseiro para a sua cabeça, caindo em um sono breve e profundo...”. A saúde da alma coincide aqui com a legibilidade do livro (que é também, para o medievo, o livro do mundo), o pecado com a impossibilidade de ler, com o tornar-se ilegível do mundo. Simone Weil falava, nesse sentido, de uma leitura do mundo e de uma não-leitura, de

Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »

TV Cult