O Esboço de Marselha

O Esboço de Marselha
Siegfried Kracauer: sociólogo sugere uma afinidade eletiva entre o cinema e o materialismo (Foto: Suhrkamp Verlag)
  Teorias do cinema (1960), de Kracauer, não goza de boa reputação. Deixando de lado que os escritos de pós-guerra do pensador alemão não têm a originalidade de visão, a lucidez da análise ou o estilo brilhante dos ensaios publicados na República de Weimar ou nos primeiros anos de exílio, Teorias apresenta dificuldades específicas. Foi criticada pela obstinação em basear-se num conceito ingênuo de realidade, cuja representação deveria ser tarefa da fotografia e do cinema; assim como pela explicação do desenvolvimento histórico do cinema a partir de uma oposição abstrata entre uma tendência “realista” e uma “formalista”, o que acaba por dar ao estudo um caráter dogmático e normativo curiosamente contraditório com a linha geral de pensamento de Kracauer.  O conceito de realismo proposto no livro poderia ser salvo da condenação radical, acima de tudo porque apresenta uma riqueza de matizes e sutilezas maior do que a que certos críticos, induzidos por sua própria forma de dogmatismo, estariam dispostos a perceber. Mais lamentável é a apatia política do tratado: em comparação com os artigos e resenhas das décadas de 1920 e 1930, nos quais os filmes e a linguagem cinematográfica eram abordados não apenas de uma perspectiva estética, mas também sociológica e política, o livro de 1960 revela um espantoso esforço de neutralidade. A essa castração política acrescenta-se a tentativa de abandonar o estilo ensaístico que prevalecia nos primeiros escritos para adotar uma forma mais condizente com os usos e costumes da aca

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