Sangue não é água, convivência também não

Sangue não é água, convivência também não
Imagem restaurada pelo projeto Retratistas do Morro, coordenado por Guilherme Cunha (Foto: Afonso Pimenta)
  “Então ela não é do meu sangue!”, diz a avó materna ao saber que a neta foi gerada por ovodoação. “Mas é o sangue!”, profere uma técnica da rede de assistência à infância ao destacar a importância de restituir às famílias de origem as crianças acolhidas em instituições. Recorro a situações nas quais o tema dos laços sanguíneos aparece, escapa, transborda quando o assunto é a família. Busco discutir a atualidade da questão do enigma sobre as origens no campo da família, particularmente nos casos que envolvem a doação de material genético. Questão que sempre esteve no seio da família e que retorna – mas será que se modifica? – quando se trata das novas configurações familiares e da procriação medicamente assistida.  A doação (de óvulos, de sêmen e também de barriga – refiro-me à maternidade de substituição, popularmente chamada barriga de aluguel) constitui uma via para formar família. Enquanto as adoções são praticadas desde a Antiguidade, a doação se institui como prática mais recente, viabilizada pela evolução da ciência no campo da procriação medicamente assistida (os dois primeiros bancos de sêmen foram inaugurados nos EUA e no Japão em 1964). Ambas as práticas vêm permitindo a formação de novas famílias e o exercício da parentalidade para homens e mulheres que muitas vezes não poderiam ter filhos se não dispusessem desses meios. Ambas as práticas podem ocorrer no campo da família heteroparental e estão quase sempre na origem das famílias homoparentais (que podem se formar a

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