Maestro do Canão

Maestro do Canão
O rapper Sabotage, assassinado em 2003 no bairro da Saúde, em São Paulo (Foto: Divulgação)

 

Era 24 janeiro de 2003. Toni C. deixou a Cidade Hip-Hop do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, para imprimir o panfleto de um show de rap que aconteceria naquela tarde quando escutou no rádio a notícia da morte de Sabotage. O rapper, que seria a atração surpresa, acabara de deixar sua esposa no trabalho e se dirigia para o aeroporto quando foi atingido por quatro tiros na Avenida Abraão de Moraes, no bairro da Saúde, em São Paulo. O jardineiro Sirlei Menezes da Silva foi considerado o autor do crime, supostamente causado pela ligação do artista com o tráfico de drogas. Foi Toni C. quem levou a notícia da morte do rapper à Cidade Hip-Hop.

Ele e Sabotage nunca chegaram a se conhecer. Porém, basta passar meia hora conversando com Toni para saber detalhes da vida e obra do artista. “Se me deixar, eu fico a tarde toda falando do ‘Sabota’”. Há um ano Toni C. se debruçou sobre as muitas histórias e os poucos documentos deixados por Mauro Mateus dos Santos para escrever a primeira biografia de um rapper brasileiro: Sabotage – Um bom lugar. “Dez anos depois, lançar este livro é uma forma de acertar uma dívida com ele: já que anunciei sua morte, hoje tenho a chance de contar um pouco do que foi sua vida”.

O livro, que chega às livrarias pela editora LiteraRUA e com o apoio do Itaú Cultural, mescla depoimentos a letras de música, como forma de reconstituir os sinuosos passos do rapper que, mesmo com dois anos de carreira e apenas um disco produzido em vida – Rap é compromisso, de 2001 –, é considerado uma figura essencial para o hip-hop brasileiro. “Ele fundiu o rap com outros estilos, como o samba, o rock e o eletrônico, levando-o para outras classes sem descaracterizá-lo. Isso é algo que hoje artistas como Criolo e Emicida dão sequência”, afirma Toni C., que também escreveu o romance O hip-hop está morto! – A história do hip-hop no Brasil e dirigiu o documentário É tudo nosso! O hip-hop fazendo história!.

Pelo texto ritmado de Toni C., que em alguns momentos se assemelha ao próprio rap, descobrimos as facetas de uma figura que levou a realidade do Canão – parte da Favela do Aeroporto, erguida no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo –, onde nasceu e cresceu, para os palcos. “É impossível contar a história de Sabotage sem falar do Canão, sem contar o processo de construção da Avenida Água Espraiada na gestão de Paulo Maluf, que desviou verba pra caramba e desembocou na CPI do Banespa. Não dá pra contar a história do cinema nacional nas últimas décadas sem falar da imagem do Sabotage beijando a bunda da Rita Cadillac”.

A cena citada por Toni é parte do longa-metragem de Hector Babenco, Carandiru (2003), em que o rapper interpretou o personagem Fuinha. Pela atuação, Sabotage foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Ele participou, ainda, do filme O invasor (2001), de Beto Brant, interpretando a si mesmo e contribuindo com cinco faixas para a trilha sonora. “Sabotage deixou de ser o negro invisível, o favelado sem estudo da periferia, para invadir a sala escura do cinema e ocupar um lugar na cultura brasileira”, afirma.

Além do lado artístico de Sabotage, do rapper eternizado por canções como “Rap é compromisso” e “Um bom lugar”, o autor explora sua personalidade multifacetada. A partir do depoimento das muitas personagens que emprestam suas vozes ao livro, como Maria Dalva, a esposa de Sabotage, conhecemos a figura do pai carinhoso, brincalhão e, ao mesmo tempo, ausente; do homem que se distancia e se envolve com o mundo do crime e das drogas.

Ainda este ano, a história do rapper também irá para as telas com o documentário Sabotage – Maestro do Canão. Dirigido por Ivan 13P, o filme mostra a importância de Sabotage na cultura brasileira a partir do depoimento de importantes rappers, como  Rappin Hood e Mano Brown, e de nomes como Paulo Miklos, da banda Titãs. Um CD com músicas inéditas também está previsto para o segundo semestre. “Ao escutar algumas das músicas inéditas fiquei com a sensação de que elas haviam sido gravadas ontem. Estamos a dez anos da morte de Sabotage e sua obra ainda é muito atual. Talvez esse período de dez anos ainda seja muito curto para dizer a real importância dele. Talvez, com as coisas que estão surgindo, ele seja dimensionado para um patamar que eu ainda não sei projetar”, opina Toni C.


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