Rio, cidade insurgente

Rio, cidade insurgente

O que está em disputa no Rio é a passagem do Brasil fordista, nacional-desenvolvimentista para uma periferia global em que as bordas invadem o centro, que se reinventa não pela falta e nem pelo negativo, mas pela potência

Arte Andreia Freire
Reprodução

E eis que se abriu um portal ou um minúsculo buraco de agulha por onde vão passar de enxurrada todas as expectativas do mundo, como o Aleph do conto de Borges que contém o infinito. Mas pode chamar de segundo turno das eleições municipais do Rio de Janeiro. Afinal, a cidade sempre foi umbigo e tambor do Brasil e surpreendeu ao derrotar e banir o PMDB e o candidato do prefeito Eduardo Paes nessas eleições.

Não teve Olimpíadas, não teve marketing, não teve VLT, não teve Porto Maravilha, não teve máquina e nem marketing capaz de salvar Pedro Paulo, o candidato pmdbista de Paes e Temer, que afrontou um limite ético: seu comportamento violento com a mulher.

Em meio a um momento profundamente reativo e conservador, no Brasil e na América Latina, novas dicções na política emergem, conectando o Rio de Pedro Paulo com os EUA de Donald Trump, também amargando um inferno astral nas eleições para presidente por seu comportamento de macho predador.

São muitas essas outras inflexões na política – quais os limites entre comportamento público e o privado? Por que um candidato que humilha mulheres se torna inelegível? Quem são os “ninguém” (a soma de abstenções, e dos votos nulos e brancos) que foram vitoriosos em várias capitais do Brasil? Quais os limites entre política e religião? Por que os direitos humanos ainda são considerados defesa de bandidos? Onde estão as mulheres, os negros, os gays, a periferia no parlamento?

O fato é que nas crises se abrem caminhos a fórceps, pós trauma, pós golpes, surgem “frentes” amplas e heterogêneas, partidos-movimentos, redes. Não se trata de um universo em desencanto simplesmente, mas um instantâneo significativo de que é preciso dar um sacode geral em tudo que se institucionalizou.

E o que se institucionalizou nessas últimas décadas foi a esquerda, no Brasil e na América Latina, em um ciclo virtuoso e vicioso que produziu avanços extraordinários, mas que também cometeu erros e sofreu um rebote pela direita. Se olharmos para os Fóruns Sociais Mundiais, expressão celebratória da onda democratizante que varreu o continente latino-americano, o interstício das democracias imperfeitas chegou ao teto, mas não ao fim.

A primavera democrática representada por Lula, Chávez, Mujica, Evo, Correa, Lugo e os Kirchner arrefeceu, se esgotou, foi deposta pelas forças conservadoras, mas o fato é que estamos falando de um ciclo vitorioso para a democracia no mundo. Um laboratório de novas institucionalidades e inovações sociais que não vão cessar de operar, mesmo em um terreno árido e que se tenta “salgar”.

 

“Não se trata de um universo em desencanto simplesmente, mas um instantâneo significativo de que é preciso dar um sacode geral em tudo que se institucionalizou”

 

A crise que estamos vivendo não é a crise das ditaduras, dos regimes autoritários e nem a crise do neoliberalismo, estamos diante da crise das democracias latino-americanas. É a nossa crise!

Nesse contexto, a vitória do neoliberalismo caboclo e do caviar lifestyle em São Paulo transformou o Rio de Janeiro em uma espécie de Nárnia temporária em um cenário Mad Max pós-apocalipse em que enfrentamos operações seletivas espetaculares anticorrupção, a perseguição e a derrota nacional do PT nas urnas, a emergência de um partido dos banqueiros, o Partido Novo, em uma reconfiguração da direita que força também um rearranjo das esquerdas.

São Paulo saiu na frente como a vanguarda da retaguarda, chancelando a nova velha direita do PSDB, elegendo um prefeito com cashemir enrolado no pescoço e mil empresas de lobby político e clubes de privilégios na mão.  São Paulo foi na contramão do Rio, que derrotou o PMDB e colocou Marcelo Freixo em um segundo turno com cara de final de Copa do Mundo.

A vitória do milionário João Doria Júnior em São Paulo, com sete empresas que “não produzem um parafuso”, mas organizam eventos, editam revistas como a “Caviar”, vivem do consumo de luxo e de verbas publicitárias do governo de Geraldo Alckmin, são a constatação de que os ricos, a elite conservadora e uma multidão de pobres e da classe média compraram o discurso neoliberal e privatista, anti-político e do “self made man” hipócrita de Doria.

Quem precisa de política pública, afinal? Os empresários, os banqueiros, a mídia se uniram para acabar com a “mediação”. Tiraram do governo uma presidenta eleita com 54 milhões de votos e colocaram Michel Temer, um operador do mercado e da política para fazer o desmonte do Estado e se apropriar da máquina de commons. Precisam de um Estado mínimo apenas, para privatizar com seus representantes o que é bem comum.

Por isso, o Rio de Janeiro já sai vitorioso, com uma candidatura alavancada do rés do chão, contra todas as regras do marketing eleitoral, com financiamento coletivo, com tempo ínfimo na TV. Uma candidatura que trouxe para o seu campo gravitacional todas as forças mais disruptivas desde junho de 2013. Freixo no segundo turno já é a vitória das Jornadas de Junho, a volta no parafuso dos que olham para as manifestações de junho como “o ovo da serpente” do fascismo no Brasil.

O Bispo e o Cavalo

Mas o jardim dos caminhos que se bifurcam ainda está aberto. Marcelo Freixo chega ao segundo turno para disputar a prefeitura da cidade do Rio com Marcelo Crivella, um Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.  O Bispo e o Cavalo, uma força de representação institucional e hierárquica da igreja de um lado e um “médium”, um meio, para a expressão e posse dos muitos.

Não se trata de um duelo maniqueísta e nem simplista entre o Escravizador de Almas versus o Exército de Libertação, mas de um embate simbólico e pedagógico que nos ajuda a entender ciclos mais longos e processos emergentes.

O Rio é disputado palmo a palmo por regimes de soberania, disciplina e controle que se imiscuem na máquina do Estado. Disputado pelo tráfico de drogas, por uma política de segurança, as Unidades de Policia Pacificadora (UPPs) que funcionam como polícia de comportamento e guerra contra os pobres, pelas milícias (forças paramilitares que “vendem” segurança e serviços), pela especulação imobiliária, de olho na “remoção” dos moradores pobres dos pontos turísticos da cidade; por projetos assistencialistas como os da Igreja Universal do Reino de Deus, empresas de turismo, ONGs, OS, por uma miríade de sujeitos sociais e políticos.

Crivella, Bispo licenciado da Igreja Universal, sobrinho do controverso Edir Macedo e sua religião de resultados, vocaliza uma das novas forças sociais e políticas mais poderosas do Brasil pós-redemocratização, a Igreja Evangélica, que multiplicou templos, pastores, bens, rebanhos, multiplicou “serviços”, em um processo de acumulação capitalista/fundamentalista selvagem, operando mudanças cotidianas na vida dos fiéis ali onde a vida coletiva, o pertencimento, o Estado falharam. Ajudando a sair do alcoolismo, encontrar trabalho, resolver conflitos entre casais, numa eficiente corrente de autoajuda espiritual.

 

“Freixo no segundo turno já é a vitória das Jornadas de Junho, a volta no parafuso dos que olham para as manifestações de junho como “o ovo da serpente” do fascismo no Brasil”

 

Licitações? Burocracia? CPMF? Lei Rouanet? Editais? Para quê? “Seja patrocinador da obra de Deus” com dízimos, doações, sessões de descarrego, compra de água benta e salvação. Tudo pode ser monetizado em uma pedagogia para as massas em total consonância com o espírito do capitalismo. E o mais terrível, a demonização do outro, a perseguição das religiões de matriz-africana e outras formas de religiosidade.

A exploração da fé só faz sentido quando muitas outras formas de cultura solidária, coletiva, redes de proteção, políticas públicas, atendimento cidadão, foram destruídas. Eis o drama da nossa frágil democracia e onde explodem os discursos de fascistização e preconceito, de ódio ao outro. Um fundamentalismo religioso (nem todas as correntes das Igrejas Evangélicas seguem a cartilha do ódio de Edir Macedo) que viria coroar séculos de escravização e higienização da diversidade cultural brasileira, uma força de diferenciação ingovernável.

Esse Estado enfraquecido, o discurso privatizante e liberal, o fundamentalismo religioso, se travestem em um assistencialismo piedoso e cuidador e dá-lhe “cimento social”, “zona franca social”, “UPPs sociais” nas palavras do Bispo deputado Crivella que olha para as favelas cariocas e só vê seu rebanho ocupando ordenadamente subempregos.

Mas é quase surreal imaginar a cidade libertária do Rio de Janeiro submetida a um fundamentalismo qualquer. O Rio de Janeiro passou por profundas intervenções nos últimos anos, uma cidade-laboratório global, com Copa do Mundo, Olímpiadas, e uma casta de empresas e empresários que enxergaram o Rio como cenário de seus negócios. Disputada por todos os tipos de corporações e corporativismos, nacionais e transnacionais, das milícias a máfia dos transportes, das empreiteiras as OS, que administram de bibliotecas a museus ao lixo da cidade. Um governo da Igreja Universal do Reino de Deus seria uma espécie de choque cultural nesta disputa do sensível.

 Em todo esse processo emergiram forças de resistência, embates decisivos entre corporações, mídia, governos e organizações da sociedade civil, redes e movimentos sociais que passaram também a vocalizar “a cidade que queremos”, com uma política territorializada, um novo municipalismo que ganha a centralidade das lutas contemporâneas.

 Periferia Global

O que está em disputa no Rio de Janeiro é a passagem do Brasil fordista, nacional-desenvolvimentista para uma periferia global em que as bordas invadem o centro que se reinventa não pela falta e nem pelo negativo (violência, pobreza, crise da cidade), mas pela potência.

Com estratégias intuitivas e paradoxais se multiplicam experiências de transição vindas dos empreendedores periféricos, os informais, o precariado, os autônomos, os movimentos sociais e culturais, apontando para novas formas de inovação social que estão hackeando o discurso do social e do cultural das empresas, dos governos, da mídia, do empreendedorismo. Hackeando e sendo hackeadas pelas corporações, mas inventando, errando e acertando, criando condições de possibilidade para o surgimento de novos movimentos e atores.

 

“Um governo da Igreja Universal do Reino de Deus seria uma espécie de choque cultural nesta disputa do sensível”

 

São apenas o lado mais visível de uma mutação subjetiva que se espalha por centenas de coletivos, Pontos de Cultura, produtores culturais, redes, grupos de DJs, rappers, formadores livres, agitadores, empreendedores, escritores, redes feministas, outros sujeitos do discurso que tomam posse da cidade.

Esse é um gigantesco capital real e simbólico, a riqueza das cidades e especificamente do Rio, as reais commodities, o bem comum. Não mais os pobres assujeitados e excluídos de certo imaginário e discurso, mas uma periferia conectada, a riqueza da pobreza (disputada pela Nike, pela TV Globo, pelo Estado) que faz da cultura da cidade os laboratórios de produção subjetiva.

O Rio de Janeiro é um termômetro da difícil e paradoxal tarefa de calibrar nosso desejos: da euforia ao desencanto com a era pós-Lula, o presidente Macunaíma que turbinou a potência dos pobres e das periferias e ao mesmo tempo governou com os “feitores de gente”, os  gestores de subjetividade que revertem e monetizam, se apropriam, da potência e da cultura dos pobres para as corporações, bancos, os agenciadores da “economia criativa” e do consumo.

O Levante

Mas o que fazer? Junto com as mudanças materiais, dos transportes, da saúde, das escolas, teremos que reinventar a política, teremos que lidar com o clima de caça aos políticos e o nojo da política; sair da ressaca anti-petista e anti-esquerdista, do furor anticorrupção que acha que todo politico é igual;  mas também do discurso da pureza; parar de falar no abstrato e trazer propostas concretas e que mudam o cotidiano das pessoas;  dialogar com evangélicos, umbandistas, católicos, com empresários, professores, juristas, petistas, ex-petistas, comunistas, psolistas, anarquistas, artistas, urbanistas, camelôs, garis, desempregados, subempregados, garotada da periferia, da madame a Dona Maria; desmontar as pautas bombas mentirosas, fundadas no medo, e o domínio dos factóides e “pós-verdades” produzidos pela mídia, pelos fascismos; sair da nebulosa negativa em que pouco importa o que se fala e diz, pois ninguém quer ouvir; resgatar os desencantados, os que votam nulo, os que não foram votar e os que ligaram o dane-se; caminhar para a zona oeste, a baixada, zona norte, as periferias; achar intolerável os machistas, os fascistas, entender que direitos humanos não são para defender bandido e que, sim, a vida dos policiais é importante, da mesma forma que a vida dos jovens negros não pode ser sacrificada cotidianamente pelo racismo da polícia e da sociedade.

Descobrimos que mesmo sem grana das empreiteiras, sem máquina, é possivel disputar um projeto de cidade com os muitos que se juntaram num dos mais impressionantes movimentos de ação e imaginação das cidades brasileiras.

Olhei de novo pelo buraco da agulha e “vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem”, como relata Borges, se não estamos diante do infinito do universo, se ganharmos ou não ganharmos, o fato é que já estamos no meio de um extraordinário levante.

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