O museu, o arquivo e o tempo

O museu, o arquivo e o tempo
Museu Nacional: incêndio destruiu 90% do acervo de instituição de 200 anos (Foto Tania Rego/Agência Brasil)


Por Alessandro Francisco

O que é um arquivo? Despontam, imediatamente, duas respostas possíveis a esta pergunta, uma de âmbito geral e outra filosófica. A concepção comum de arquivo remete a um conjunto de documentos e de objetos. Na esfera da filosofia, para Michel Foucault, por exemplo, arquivo é aquilo que torna possível, numa cultura, um dado discurso e não outro, tomando discurso, aqui, ainda de modo reduzido, como expressão do pensamento naquilo que é dito e escrito numa dada época.

É pelo arquivo (acepção geral) de uma era particular que se pode acessar o “arquivo” (sentido que Foucault dá ao termo) desta mesma era. O arquivo torna possível o contato com práticas – concebidas aqui, também segundo Foucault, como “modos de agir e de pensar” – de outras épocas e culturas. A perda de um arquivo é a destruição das chaves de acesso a estas práticas.

Este modo de conceber o arquivo é inspirado, até certo ponto, naquele de um pensador cuja relevância para Michel Foucault não é explícita e cujo interesse devo à pesquisadora brasileira e amiga Fernanda Waeny. Seu nome é Ignace Meyerson.

Em 1º de junho de 1953, por sugestão de seu amigo Louis Althusser e do então Professor Honorário do Collège de France Henri Wallon, Foucault escreve uma carta a Meyerson, na ocasião Diretor do Centro de Pesquisas de Psicologia Comparativa, fundado um ano antes por ele próprio. Não sabemos se a missiva foi respondida. Daniel Defert indica, na cronologia da vida de seu companheiro, Michel Foucault, que este frequentara Meyerson em 1951. Todavia, numa conversa que tivemos há aproximadamente dois anos, ocasião em que lhe entreguei uma cópia da referida carta, que desconhecia, revelou-me que pode haver imprecisões em seus registros, pois muito do que escreveu sobre a vida de Foucault antes de outubro de 1960, quando o conheceu, o fizera a partir de seus próprios relatos, tal como deles recordava.

Ao lado de Georges Politzer, Ignace Meyerson é um dos pensadores que desenvolve uma nova abordagem para os estudos dos fenômenos subjetivos, isto é, uma nova Psicologia. Na França, até 1947, esta era uma das disciplinas obrigatórias para obtenção do diploma de Filosofia, mesmo que se encontrasse duplicada, até certo ponto, nos experimentos realizados em laboratórios experimentais sob a batuta da Medicina. A Psicologia não constituía, até este momento, um domínio específico de formação de profissionais (os psicólogos), seguindo seu caminho bastante distanciada da Psicanálise. Foi somente pelo empenho de Daniel Lagache que ela se organiza num programa de formação, tornando-se, então, uma graduação.

Politzer desenvolve uma Psicologia Concreta; Ignace Meyerson, por seu turno, é o responsável pela proposição de uma Psicologia Histórica. Para ele o modo adequado de se estudar a subjetividade, mais precisamente as contribuições do que “vem de nós mesmos” para o que nos é “exterior”– aportes do “esforço do espírito”, portanto –, é aquele que analisa o que se produz: as instituições e obras dos homens.

Se, de um lado, Meyerson se encaminha para uma espécie de espiritualismo, de outro abre o campo para se pensar as relações entre subjetivo e objetivo – se se quiser, entre interior e exterior – de um modo novo, pois, segundo ele, o espírito se projeta naquilo que efetiva. É esta projeção realizada pelo esforço do espírito que, para ele, torna possível o estudo objetivo dos fenômenos ditos psíquicos.

Ora, o que é um museu senão o espaço que guarda – ou deveria guardar, ao menos – aquilo que produzimos – segundo Meyerson, as “obras”– em diversas eras e diferentes culturas? É o local que reúne e abriga aquilo que nos dá acesso, sempre por meio de um olhar etnológico, mesmo em relação à nossa própria cultura, a modos diversos de ser das coisas e de nós mesmos. É onde se pode contatar e estudar os arquivos – no duplo sentido do termo – de épocas e de povos vários.

Hoje, de modo geral, os museus são, em todo o mundo, instituições de pesquisa vivas. Por vezes, efervescentes. Visite, em Paris, o Centro Georges Pompidou, que reúne, dentre outras instituições, o Museu de Nacional de Arte Moderna: em cada sala haverá, certamente, uma professora, seus alunos e ocasionalmente alguns de seus pais e monitores. Idades diversas se misturam pelos corredores e tomam conta do espaço, de guris de cinco anos, por exemplo, a adolescentes. Isto sem mencionar os grupos de adultos que por lá perambulam.

Recordo-me de, certa vez, ter seguido uma turma de pequeninos guiados por sua professora e pelo violoncelo que trazia consigo. Aula inspiradora, assisti-a na íntegra. A professora, em pé, colocou-se diante do segundo quadro do tríptico Azul, de Joan Miró. Os pequeninos, sentados no chão. Partindo de uma nota qualquer, começou a cantar o quadro como se fosse partitura: as menores esferas pretas, lançadas na imensidão azul da tela, representavam sons breves; as mais densas, sons mais longos; a pincelada vermelha correspondia a um ruído sem qualquer altura, tal como o chiado de um gato. Em seguida, fazia a petizada acompanhá-la no canto. Quando timbrado o coro, ela improvisava uma melodia no violoncelo. E, então, sobre o coral de pequenos acompanhado de celo, fazia eclodir uma nova invenção sonora com sua própria voz. Do Azul de Miró despontara uma autêntica sinfonia. Ao cabo, prosseguiam sua peregrinação pelas diversas salas do Pompidou a fazer soar as músicas virtuais presentes em cada peça.

O museu é, igualmente, uma instituição em que se desenvolvem técnicas de recuperação do arquivo (documentos, artefatos e obras de arte). Lembro-me das experiências contadas, no Café RUC, em companhia do amigo que nos apresentou, o pianista Giancarlo Staffetti, pela restauradora brasileira Regina Costa Pinto Moreira, integrante, há muitos anos, da equipe do Museu do Louvre. Narrou-me diversas delas: extensos períodos que passava, em instituições de todo o mundo, ao lado de telas danificadas, a pensar como recuperá-las. Dentre suas aventuras, mencionou uma mais habitual e, por vezes, divertida: aquela em que algo se revela após o tratamento da pintura. Trazida pelo MASP, em 2009, para recuperar o quadro Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, de Nicolas Poussin, descobre um pênis ereto na representação da estátua de Príapo, deus grego da fertilidade, antes encoberto por camadas de tinta e verniz provavelmente aplicadas na corte espanhola, onde a tela permaneceu até aproximadamente 1811.

Há também instituições que originalmente desempenham função diversa daquela de um museu propriamente dito, mas cujas edificações e o conjunto constituído pelos arquivos que conservam fazem delas museus. A Universidade de Pádua, por exemplo, estabelecimento em que a primeira mulher recebe um diploma superior no ocidente – a filósofa e musicista veneziana Elena Lucrezia Cornaro Piscopia –, preserva a cátedra de Galileu Galilei. Visitando o Pallazzo del Bo, nome do edifício histórico onde está sediada a universidade, a palavra “cátedra” toma corpo: espécie de púlpito de madeira com escada, de onde falava o doctor, o douto, em suas lectiones.

Ademais, na visita a um museu, por meio da relação com as práticas de eras e culturas variadas, se faz ainda a experiência do tempo. Não aquele dito cronológico e compreendido como sucessão de eventos, de que o cinema poderia fornecer uma ilustração adequada. Trata-se do tempo compreendido como o contínuo multidimensional onde passado, presente e futuro se transformam de maneira sempiterna. A cada instante se tem um novo passado, um presente inédito e um futuro renovado. Todas estas instâncias do tempo estão em perene metamorfose, bem como nós mesmos, porque ligados a elas.

Uma vez que nossa relação com as coisas e com os outros – com tudo aquilo que não somos nós – se encontra lançada no tempo, também nossa memória sofre transmutação. Aquilo que chamamos de memória não é o registro inerte e imutável de experiências, não é uma massa de informações armazenadas. Sempre que uma dada lembrança é recuperada, ela o é de um modo inteiramente novo, pois nós já não somos os mesmos, modificados de um momento a outro de nossa própria história. A memória é, assim, atualizada permanentemente: ela se atualiza e nós somos, por esta atualização, modificados.

Num excerto de vídeo registrado pelo fotógrafo, documentarista e artista plástico Paulo Cesar Soares, disponível no YouTube, o psicanalista Roberto Gambini nos faz lembrar da empobrecida noção de tempo a que nos referimos habitualmente: pensamos sempre “para frente” e “para cima”, diz ele. Tomamos o tempo como um curso ou um fluxo que sempre avança, como se este prosseguir se dirigisse para frente e/ou para o alto e como se nos conduzisse invariavelmente a um aprimoramento.

Não curiosamente, a reflexão de Gambini emergiu em visita ao sítio arqueológico da Serra da Capivara. Assim, destaco, aqui, não apenas a reflexão que ele nos oferece. Mais que isso, deve-se sublinhar que seu exercício do pensamento sobre o tempo se deu por meio do contato com um espaço histórico, com artefatos arqueológicos, com “coisas” de outra era e de outra cultura.

Retomemos as frases aludidas por ele, por seus contrários. Há outras tantas que indicam o oposto do bom e do desejável, que nos aguardaria “adiante”. Trata-se de expressões como “retrógrado”, “retrocesso”, “marcha ré”, “recuo”. Todas se contrapõem ao desenvolvimento e à evolução compreendidos como progresso. Como se “voltar”, “retroceder” fosse sempre pior que seguir. Grave equívoco que nos trouxe a noção de modernidade.

Não se confunda esta posição com a postura conservadora que temos combatido arduamente a cada dia, ou com a remissão a uma era de ouro qualquer habitante do passado. O que faço, aqui, é danificar os alicerces da universalidade conjurada pelo termo “sempre”: o que virá – o devir, o futuro – sempre será mais perfeito que o passado e que o presente; ou ainda, o passado sempre é melhor se comparado ao hoje e ao amanhã. Na primeira perspectiva, o futuro é desejável porque há aperfeiçoamento. Na segunda, o passado é romantizado e o desenrolar da história não nos conduziria senão à degradação. Nem melhoramento, nem deterioração: o curso do tempo não nos transporta senão em direção à diferença.

Um exemplo deste tipo de prejuízo é o modo como, por vezes, se evoca a chamada Idade Média, período que sequer existe como unidade. Costuma-se dizer “Voltamos à Idade Média!” perante uma situação bizarra. Esquece-se, contudo, que a era medieval foi período de um extraordinário refinamento. Evoquemos, por exemplo, suas tapeçarias e iluminuras. A sofisticação do medievo é notória também na música, de que se conhece especialmente a monodia ou canto gregoriano. Nesta esfera, menos afamadas, temos as esmeradas composições de Hildegard von Bingen, do século 12. Há ainda composições polifônicas, como aquelas do século 13 reunidas no Codex Montpellier. No âmbito do pensamento, dentre tantos outros, temos por testemunhos os discursos de Ibn Rushd (conhecido como Averróis), Alberto Magno – em cujo nome se inspira, em Paris, a Place Maubert (proveniente de “Maître Albert”, isto é, “Mestre Alberto”) –, seu discípulo Tomás de Aquino e Erasmo.

Tomemos um exemplo pontual desta mesma era no Ocidente: o surgimento da universidade (agrupamento de colégios, isto é, de comunidades de professores e estudantes). Naquele tempo, o seu Reitor (Rector, no latim “aquele que dirige”), era escolhido democraticamente pela comunidade, pelo grupo de estudiosos. Atualmente, algumas universidades mantêm a escolha democrática de seus dirigentes. Outras pretendem abolir a eleição do Reitor pela comunidade acadêmica, como no caso da PUC-SP, mais precisamente, conforme prevê uma proposta do Conselho Superior da Fundação São Paulo, sua mantenedora, recentemente encaminhada à comunidade acadêmica.

Damo-nos conta de que nem sempre o passado foi pior que o presente; nem sempre o presente é algo mais danoso que o passado, como se uma espécie de perfeição nos aguardasse no futuro ou residisse numa origem distante. Concebamos o tempo como o desenrolar de uma experiência multidimensional que se dá pela diversidade de um momento a outro, e não por meio da progressão, seja ela concebida como aprimoramento ou como deterioração.

Quando um museu é tomado pelo fogo (caso do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e do Instituto Butantã, em São Paulo) ou relegado ao ponto de seu próprio edifício denunciar a omissão dos “gestores”, clamando, em desmoronamento, por socorro (caso do Museu do Ipiranga, também em São Paulo), perde-se um arquivo e, com ele, o liame que nos conecta a mundos múltiplos: o acesso a outros modos de ser das coisas e de nós mesmos (diversos, sem demora, daquilo que fomos outrora).

Não se poderia, por exemplo, fazer soar as sinfonias pictóricas de Miró; o pênis de Príapo manter-se-ia invisível; “cátedra” seria apenas mais um vocábulo de nossa língua. Num museu em chamas, são práticas (modos de agir e de pensar) que ardem e se extinguem em cinzas, e com elas a oportunidade de fazer a experiência do próprio tempo.


Alessandro Francisco é doutor em Filosofia pela PUC-SP e pela Université Paris 8, é professor dos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu do UNIFAI e pesquisador associado à Université Paris 8 e à École Normale Supérieure de Paris, em nível de Pós-Doutorado


Até outubro, Alessandro Francisco e Charles Feitosa assumem a coluna de Marcia Tiburi

(3) Comentários

  1. Mais um excelente texto do amigo Alessandro, onde o refinamento do trabalho com as palavras o torna suave e denso. Parabéns

  2. Os artigos de Alessandro Francisco são sempre muito interessantes e sobretudo inteligentes. Faltou abordar o tempo e a política mas , para bom entendedor , meia palavra basta.

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