Quem é responsável pela tragédia do bolsonarismo?

Quem é responsável pela tragédia do bolsonarismo?
Nada há que Bolsonaro faça ou tenha feito que não pudesse ter sido previsto em outubro de 2018 (Foto: Agência Brasil)

 

Em um curso de filosofia é comum que nas primeiras aulas de Filosofia Moral se apresente uma questão, que não por acaso é introdutória para a discussão sobre a bondade ou a maldade dos atos humanos. Trata-se do chamado enigma da decisão moral e consiste basicamente em perguntar se uma ação pode ser julgada boa ou má quando quem a pratica não tem informações suficientes para avaliar as consequências futuras do seu ato. Da resposta a esta questão nascem as distinções entre moralidade e amoralidade, que são fundamentais para uma ética à altura do homem e uma Filosofia Moral baseada em atitudes e não em valores abstratos.

Na tradição aristotélica, a Filosofia Moral, ou Ética, compõe com a Filosofia Política um subconjunto chamado de Filosofia Prática. Isto porque é claro que as questões morais se transformam frequentemente em questões políticas e que ações políticas envolvem, não de raro, dilemas morais. Um destes dilemas é certamente o da avaliação moral do voto ou de qualquer outra forma de autorização para o exercício legítimo do Poder, e o modo como o enigma da decisão moral está implicado nisto. Para garantir que o voto fosse um ato livre e consciente, vez que liberdade e consciência são condições essenciais para a moralidade de uma ação, a democracia moderna fez o que pôde no seu desenho institucional para assegurar o sigilo eleitoral, por exemplo, que é a única forma de assegurar a liberdade de consciência do eleitor. E para certificar-se de que o eleitor tivesse todas as informações possíveis para uma decisão bem-informada, posto que o conhecimento é outra condição fundamental para a moralidade do voto, as instituições da democracia liberal salvaguardaram as liberdades de publicar, opinar, discutir, reunir-se e de organizar-se em partidos, e as estabeleceram como cláusulas fundamentais do pacto constitucional. 

Isto estabelecido, não há como negar a moralidade do voto. Isto quer dizer que o membro da comunidade política é doravante moralmente responsável pelo que elege e pelas consequências que daí resultam. É isto que os iluministas chamaram de “maioridade”, isto é, a posse das condições fundamentais para que alguém assuma a responsabilidade moral pelas próprias decisões. Ser um cidadão, quer dizer, um sujeito de direitos e de obrigações, implica, portanto, em ser responsabilizável, moralmente quando não também legalmente, pelas consequências das próprias escolhas. 

Claro, nem sempre quando tomo uma decisão eleitoral todas as consequências daquela minha escolha estão presentes no ato em que decido. O candidato pode me enganar no futuro e fazer tudo diferente do que me garantia fazer. Ou podem sobrevir fatos absolutamente imprevistos para fazer face aos quais o partido ou o candidato não eram as melhores escolhas. Ou seja, o enigma moral se repropõe sempre a cada um de nós, na política como na vida: um homem com um conhecimento finito sobre as consequências futuras da sua escolha, decide com base no que sabe, mas é moralmente responsável pelo universo dos resultados e decorrências da sua decisão.

Da Ética para a política nacional, o que me causa espanto é que os que votaram em Bolsonaro em 2018 e não são fanáticos ideológicos ou fascistas, porque estes estão fora do alcance dos nossos valores, continuam não se implicando nas consequências do seu voto. Deram um cheque em branco ao fascismo quando todos os que realmente se importavam com a democracia lhes dizia tratar-se de um pacto mefistofélico, mas não se incomodaram com isso, vez que tinham outras prioridades em mente. 

Neste momento, o Brasil conta os mortos que se empilham, médicos já têm que fazer escolhas de Sofia para decidir quem vive ou morre em decorrência da escassez de respiradores, a desigualdade (iniquidade) social mostra a sua face mais medonha na pandemia, com uma parte da população tendo que escolher entre morrer de fome ou de Covid-19. A este ponto é claro que o Estado é chefiado por um homem incapaz de liderar a nação, que trabalha diuturnamente para construir trincheiras e jogar uns contra os outros, que para além dos seus interesses tribais e familiares não é capaz de conceber um país. Enquanto isso, o presidente & filhos incitam a turba para atacar o STF, o Congresso e o jornalismo, as últimas instituições que podem lhes impor limites, pit bulls da direita cospem em enfermeiras e chutam jornalistas por estímulo do chefe do governo, mas ainda assim a maioria deles não se implica no que resultou da sua decisão eleitoral. E não o fazem simplesmente porque não querem se responsabilizar. 

Reproduzo o diálogo como um amigo eleitor não-fascista de Bolsonaro esta semana. O tema era a responsabilização moral pela tragédia do governo bolsonarista e a pergunta era se ele se sentia de alguma forma responsável pelo abismo em que fomos lançados.

“Não! De jeito nenhum. Eu fui forçado a votar em Bolsonaro. A culpa da eleição de Bolsonaro é de Lula e do PT. Eles é que deveriam fazer a autocrítica”, respondeu. 

“Ah, entendi. Quer dizer que a culpa do nazismo na Alemanha foi dos banqueiros judeus, que provocaram o ódio que Hitler manipulou para galvanizar o fascismo? ”, pergunto.

“Não sei disso. Sei que não tive escolha. Queria que eu votasse na quadrilha do PT? ”

-“Ou talvez Hitler seja culpa do Tratado de Versalhes, cuja mão excessivamente pesada contra a Alemanha produziu a miséria e a revolta para a qual o Partido Nazista ofereceu explicação e solução? ”

– “Não estou dizendo nada disso”.

Não estava, mas a analogia se sustenta. O que os eleitores não-fascistas de Bolsonaro estão dizendo é que todas as circunstâncias sociais e políticas são determinantes para Bolsonaro ter chegado ao poder, menos a principal, que consistiu na decisão, consciente e esclarecida, dos cidadãos que o escolheram diante das demais alternativas eleitorais e apesar de saberem tudo o que era necessário saber sobre ele para prever todas as consequências que se estão verificando. 

Nada há que Bolsonaro faça ou tenha feito que não pudesse ter sido previsto em outubro de 2018. Portanto, o que os eleitores não fascistas de Bolsonaro, mas também os que lavaram as mãos não votando ou votando em branco, estão tentando fazer é não se implicar nas consequências do seu voto. Estão tentando uma operação psicológica de autoindulgência, autoabsolvição da responsabilização moral por uma decisão trágica que, entretanto, foi tomada de olhos bem abertos, atribuindo tudo ao contexto e às circunstâncias. É culpa do gato, da bola ou da lei da gravidade, não minha. 

Mas não, sistema e circunstâncias importam, mas só geram consequências políticas através de votos e do apoio popular. Aos votos e ao apoio, portanto, cabem a responsabilização direta por suas consequências. Os culpados pelo nazismo, de um ponto de vista moral, foram a sociedade nazista e os indivíduos nazistas e não simplesmente as estruturas e circunstâncias. Do mesmo modo, no final das contas, em um universo moral, cada um dos eleitores de Bolsonaro é indesculpavelmente responsável pelas consequências do bolsonarismo. Mesmo que assuma isto apenas ante o tribunal da própria consciência moral, na esperança de que tenham uma.

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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(2) Comentários

  1. Parabéns! É claro que boa parte dos que votaram em Bolsonaro tem culpa pelo caos, porque votaram sabendo muito bem o que poderia acontecer. Aliás, até votaram por interesses muito particulares e nefastos

  2. Muito bom texto. Não acredito que os Bolsonaristas de então (2018) mudaram de opinião, salvo uma pequena minoria. A meu ver, existem uma certa inflexibilidade de alteração da opinião dos eleitores de Bolsonaro, isso devido à convicção inconsciente de que mudar de opinião agora seria assumir a responsabilidade moral pelo voto em 2018 e seus desastres decorrentes (bem como assumir todos estes desastres, que negam).
    Dessa forma, a responsabilidade moral é recalcada pelos eleitores, mantida em sigilo, até mesmo mantida nos porões do inscosciente, e diante do absurdo que julgam ser o ‘mudar de idéia’ (que levaria-os a assumir a responsabilidade de seu voto), eles insistem ainda mais fortemente em suas opiniões, ora até mesmo rejeitando lições da ciência e evidências do direito.
    Adicionalmente, discordo da expressão “bolsonarismo”. O bolsonarismo não existe, nunca existiu e nunca existirá. Conferir o título de seita ao que esta quadrilha familiar tem feito é ao mesmo tempo acreditar que são capazes intelectualmente de desenvolver um movimento organizado (que não são) e de angariar seguidores (eles não os têm, como bem explicado o texto, pois Bolsonaro e sua quadrilha são figuras idealizadas no imaginário popular, sem forma e conteúdo sólidos – e daí a facilidade com que permeiam as diferentes camadas sociais).

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