Quartos de despejo da história

Quartos de despejo da história
Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus (Foto: Bluma Wainer/Acervo Paulo Gurgel Valente)

 

Durante o período em que eu morei em Nova York, um dos meus momentos mais felizes era quando participava dos cultos das igrejas do Harlem. Era ali, geralmente, que eu escutava alguma fala mais politizada. Eu sabia que os/as reverendos/as teriam uma palavra de conforto para minha alma ateia, cansada de assistir ao exuberante espetáculo do individualismo nova-iorquino. No dia do Thanksgiving (Dia de Ação de Graças), o reverendo lembrou a biografia de sua família. Compartilhou a história do seu bisavô, escravo nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos. E, nesse mergulho em sua memória, alertava: não estamos sozinhos, temos uma história, temos um passado. Precisamos contá-lo. É dele que devemos tirar nossas forças para lutar contra todas as formas de preconceito e exclusão.

A memória testemunhada tem uma força enorme de transformação. Qual a história que merece ser contada? Como contar uma história? Pouco conhecemos as histórias de vida de pessoas sem importância para a história oficial. Conforme aponta Mia Couto, temos um passado, que nos foi dado. Um passado que é uma construção, uma ficção autorizada e que conta uma história única daqueles que estavam no poder e que apagaram outras versões.

Nesse trabalho de visibilizar o esquecido, deveríamos agir como um arqueólogo. O que faz uma arqueóloga? Junta caquinhos, os limpa, cola-os, tenta conferir coerência aos fragmentos. Às vezes, a reconstrução do artefato é completa; outras, no entanto, fica a cargo de nossa imaginação completar o vaso sem alça e a estátua sem braço. Daí a importância do projeto de Foucault em habilitar histórias das pessoas infames esquecidas nos arquivos. Lançar luzes em áreas obscurecidas. Tentar conferir sentidos às descontinuidades é o desafio que temos diante de histórias como Herculine Barbin, Pierre Rivière e outros “anormais” narrados por Foucault.

Nesse projeto de reescrita da história e reinvenção de genealogias, os escritos produzidos pela “ralé” (sexual, gênero, racial, classe) são fundamentais. O termo “ralé” foi lançado à categoria sociológica por Jessé Souza e, aqui, ouso dilatá-lo da dimensão exclusivamente de classe social para outras esferas da vida social. São muitos corpos que compõem o corpo da “ralé nacional”, os corpos que não importam, que não contam para a história. São as bichas, as sapas, as travestis e as pessoas trans, as pessoas negras e os miseráveis. Quando algum membro dessa ralé ousa usar a arma dos donos da história, a escrita, para contar sua história, um fogo de artifício é lançado e seus efeitos são inesperados. Carolina Maria de Jesus produziu um potente fogo de artifício com seu livro Quarto de despejo: diário de uma favelada (QD).

Sabemos que livro bom é aquele que oferece pistas e múltiplas possibilidades interpretativas. E aqui eu gostaria de oferecer uma interpretação desse livro-diário. Quarto de despejo foi um dos textos feministas mais potentes que já li, embora a autora não reivindicasse tal identidade política para si. Entre os anos de 1955 e 1960, a catadora de lixo Carolina de Jesus, negra, mãe solteira de três filhos, relata sua vida de moradora da favela Canindé, zona norte de São Paulo. O fio condutor da obra é, sem dúvida, a batalha pela sobrevivência. E, nessa luta, ela nos abre a possibilidade de conhecer o cotidiano da favela, as disputas dos vizinhos, as relações de gênero, a importância da fofoca como mecanismo de controle social. Gênero, classe social, região, raça/etnia, sexualidade são acionados e cruzados a cada página do seu diário e, com essa metodologia de escrita, a autora nos possibilita conhecer o contexto mais amplo onde sua história acontece.

Ela dirá que tem pavor das mulheres da favela, pois tudo querem saber. E as “línguas delas é como os pés de galinha. Tudo espalha”. Até o aumento de peso de Dona Binidita, uma moradora da favela de 82 anos, foi tido como uma gravidez. Embora não poupe de crítica a vida de escravas que essas mesmas mulheres levam, dizia que “Enquanto os esposos quebram as tábuas do barracão, eu e meus filhos dormimos sossegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas”.

Não há romantismo ou qualquer visão “cor de rosa” (para lembrar a favela idílica das músicas de Cartola) na descrição do ambiente. Ali, é cada um por si. As disputas acontecem nas mínimas coisas. O lugar na fila da torneira para conseguir água, a cobiça por um pedaço de carne do porco que o vizinho está matando são pequenos exemplos que desenham o ambiente belicoso da favela. As disputas narradas faziam minha imaginação viajar para as cenas descritas por Primo Levi (É isto um homem?). A posição que se ocupava na fila para obtenção da sopa no campo de concentração nazista era estratégica. Os primeiros recebiam sopa rala. Os últimos arriscavam-se a não receber nada (assim como os últimos na fila da água em Canindé certamente não iriam conseguir encher seus latões). Portanto, o melhor era estar entre os últimos; assim, nos conta Primo Levi, haveria a certeza de receber uma quantidade mais generosa dos vegetais que repousavam no fundo dos panelões.

Em É isto um homem? e Quarto de despejo descobrimos que a medida da solidariedade humana é proporcional à fome. Nesses dois cenários marcados pela miserabilidade, os seres esfomeados jogam suas poucas energias vitais para obtenção de um pedaço de pão a fim de assegurar mais algumas horas de vida. Com fome, ninguém é solidário.

Carolina não era casada, mas não abria mão de ter seus namorados. Ela decidia quando queria a visita do namorado e a hora em que ele deveria partir. Enfrentava com altivez os preconceitos. Em determinado momento, aparece na favela um charmoso cigano que a perturba, “Mas eu vou dominar esta simpatia. […] Parece que este cigano quer hospedar-se no meu coração”. Carolina de Jesus era assim, dominava sua vida.

No dia 13 de maio de 1958, a negra Carolina olhou pela janela do seu barraco e viu que a chuva anunciava mais um dia de fome.

“Continua chovendo. E eu tenho só feijão e sal. A chuva está forte. Catar lixo chovendo? Impossível. No dia da libertação dos escravos eu lutava contra a escravatura atual – a fome! […]. Atualmente, somos escravos do custo de vida. A tontura da fome é pior do que a do álcool.”

A autora também anuncia os dilemas da sua condição feminina. Revela que desejou mudar de gênero quando criança. Sonhou em se tornar homem, não porque quisesse mudar o corpo, mas por saber que sua condição feminina lhe interditava a realização de um sonho: entrar para o exército para defender a Pátria. Pergunta à mãe:

“– Porque a senhora não faz eu virar homem?”

A mãe respondia:

“– Se você passar por debaixo do arco-íris você vira homem.”

[…] “O arco-íris foge de mim”.

Se ela nutriu desejos por mudar de gênero, o mesmo não acontecia com a sua cor. Carolina antecipa o grito de Victoria Santa Cruz (“Me gritaram negra. Negra sou!”). Não tinha vergonha, mas orgulho de sua cor. “Eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico.” Mas ela sabia que “o mundo é como o branco quer”.

Assim como o reverendo do Harlem, Carolina Maria de Jesus ousou contar sua história. E este talvez seja o seu ato de maior rebeldia. Com seu texto, ela atuou, tomou sua vida em suas mãos e nos disse: “Minha vida importa”.


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