1968, quarenta anos depois

1968, quarenta anos depois
Protesto estudantil em Paris, 1968 (Philippe Gras)

 

A propósito dos quarenta anos do maio de 1968 em Paris, abundaram ao longo do mês passado as reportagens, os textos de opinião e as publicações mais diversas. Toda essa excitação no momento em que se completam quatro décadas após aqueles acontecimentos encerra, porém, um aspecto paradoxal. Porque, ao mesmo tempo que tanta gente continua a debater e a invocar o maio de 1968, a maioria dos analistas e até alguns dos seus antigos ativistas e dirigentes não se cansaram de repetir que o maio de 1968 morreu. Discordo. Desde logo, o próprio fato de continuarmos a debatê-lo e a refletir sobre o seu significado na atualidade é prova de que continua vivo. Depois, em múltiplos contextos revolucionários ou de contestação vividos depois dele, em diferentes momentos e continentes, é possível identificar traços, processos e vivências onde estudantes aliados a outros setores sociais conduziram lutas progressistas de forte efeito social e político que, entre muitas outras ações rebeldes e de desobediência, incluíram ocupação de espaços públicos como as universidades ou a rua. Aliás, muitas outras experiências desse tipo já haviam ocorrido muito antes de 1968, na Europa e noutros continentes.

Se o maio de 1968 se mantém como um fenômeno extraordinário não é apenas pela importância política e histórica do momento em si, mas antes porque ele representa o culminar de todo um conjunto de ações, lutas, protestos e movimentos culturais ao longo da década de 1960. Para o compreender é necessário ter presente os antecedentes e o contexto cultural que então se vivia no mundo ocidental. O período de grande crescimento econômico desde o pós-guerra, a consolidação do Estado providência, a expansão do sistema de ensino etc., tiveram como conseqüência um aumento significativo do poder de compra e do peso estatístico das classes médias urbanas. Deu-se uma profunda mudança nos costumes e hábitos de vida da juventude. Foram sobretudo os filhos das classes médias (e altas) que, saturados do materialismo consumista “burguês”, da hipocrisia das instituições e do moralismo conservador, que alimentaram a onda de movimentos sociais dos anos sessenta.

Eles surgiram em ruptura contra o establishment e as convenções da época. Manifestaram-se através da música, da literatura, da poesia, da moda, dos cabelos compridos e barbas, do consumo de drogas, propondo novos estilos de vida de uma geração – na verdade a “juventude” escolarizada que, pela primeira vez, se afirmou como sujeito histórico – em oposição à mentalidade dominante, questionando os limites das instituições políticas e sociais, designadamente a família. Tanto na América do Norte como na Europa, as formas de rebelião e de contracultura juvenil vinham já da década anterior, estimuladas por todo um conjunto de fatores de natureza sociocultural. O contexto de guerra fria, a corrida aos armamentos, a guerra do Vietnã, a invasão da Tchecoslováquia pelos tanques soviéticos, apareciam aos olhos dessa geração como provas evidentes de que nem as instituições e partidos tradicionais da democracia representativa (do Ocidente), nem o velho movimento comunista, com os PCs pró-soviéticos à cabeça, eram capazes de mudar a sociedade num sentido progressista e emancipatório.

Socialismo ao alcance da mão

Contra a guerra, contra o consumismo, contra a moral sexista e castradora da liberdade individual, contra a família convencional, e todo um mar de valores asfixiantes para quem queria a liberdade, para quem exigia ser feliz, para quem se assumia como protagonista do seu próprio futuro. O móbil da ação não era tanto um objetivo político. Era o resultado da vivência coletiva, da partilha de sentimentos de revolta e solidariedade, que desenhava novas identidades e dinâmicas de participação. Diversos protestos e movimentos tinham explodido um pouco por todo o lado. Pacifistas, feministas, ecologistas, libertários, anti-racistas etc., ganhavam peso e visibilidade na medida em que eram atacados, por vezes com violência, pela polícia e pelas forças da ordem dos regimes democráticos. Porque respondiam com ousadia e imaginação. Em Paris a cidade parou e o movimento sindical aliou-se por momentos ao movimento estudantil. Todas as esperanças emancipatórias pareciam confluir para uma revolução irreversível. O socialismo ao alcance da mão. Mas essa esperança pontual rapidamente se desfez, em troca de uns quantos direitos, férias e final de semana reduzido. Os sindicatos à mesa do poder traíram as esperanças e o idealismo dos estudantes da Sorbonne e de Nanterre, seguindo-se-lhes as infindáveis discussões ideológicas e terminando o sonho com a vitória do nacionalismo gaullista em junho de 1968. No ocidente e na América Latina (em especial no Brasil) o ano de 1968 foi, sem dúvida, um ano de ruptura e de viragem a diversos títulos.

O maio de 1968 e os anos 1960, no seu conjunto, valem sobretudo pelo legado sociocultural e pelas marcas simbólicas que imprimiram na sociedade a partir de então. A agenda social e política sofreu alterações profundas sob a sua influência, que ainda hoje estão em curso. O que alguns designaram como “a crítica artística” ao sistema capitalista (Boltanski e Chiapello), deriva justamente desse impacto sociocultural. É claro que as sociedades democráticas conseguiram apropriar-se e incorporar boa parte dos resultados dessas ações e, com isso, a economia capitalista tem vindo a reforçar-se nas últimas décadas, no contexto da globalização neoliberal. Mas a sociedade mudou profundamente em muitos aspectos. As modalidades de intervenção política se reinventaram radicalmente desde então. Mesmo que muitos dos antigos ativistas sejam atualmente figuras respeitáveis do sistema (e menosprezem as suas experiências da juventude), os motivos, as formas de ação e o discurso desse período continuam a merecer reflexão, tanto mais que em muitas outras experiências do movimento estudantil internacional é recorrente estabelecer-se algum tipo de ligação ou comparação com o maio de 1968.

Podem apontar-se exemplos de lutas importantes dinamizadas pelo movimento estudantil em aliança com trabalhadores, estruturas sindicais, associações e partidos políticos, com características semelhantes ou que de algum modo assimilaram e adaptaram o espírito que animou essas lutas. Em Portugal, o movimento estudantil, que vinha  crescendo desde início da década de 1960, primeiro em Lisboa e mais tarde em Coimbra, durante a chamada “crise acadêmica de 69” (abril de 1969) enfrentou abertamente o regime salazarista e contribuiu para promover a consciência democrática no país. No contexto da “Revolução dos Cravos” (25 de abril de 1974), inúmeros movimentos populares e estudantis trouxeram de novo para a ordem do dia as utopias e a contracultura rebelde daquele período. Também no Brasil, a célebre ocupação da Faculdade de Filosofia e Letras da USP, quer o conflito da rua Maria Antônia, em outubro de 1968, entre estudantes anticomunistas e estudantes de esquerda, quer de um modo geral todo esse ano marcado pela emergência das lutas contra a ditadura e em que o movimento estudantil (e a UNE) teve um papel importante.

Movimento estudantil hoje

Há cerca de um ano (maio de 2007), a ocupação de 51 dias do edifício da reitoria da USP mostrou uma vez mais como a ação estudantil pode arrastar outros setores laborais e adquirir um alcance político profundo. A ocupação da USP mostrou ainda a importância central da atividade cultural no ativismo político e associativo, como se viu pelo vasto conjunto de iniciativas e eventos acadêmicos, artísticos e científicos, a que imaginativamente os estudantes chamaram “culturas de greve”. Embora não haja, como nunca houve, um total mimetismo que transporte o passado para o presente, o espírito de crítica contra-hegemônica ao sistema que em geral acompanha os movimentos estudantis, a solidariedade, a revolta e o desejo de mudança, mas também a capacidade criativa, festiva e colorida que neles estão presentes obrigam recorrentemente à invocação do maio de 1968 francês. Há quatro décadas o mundo era sem dúvida bem diferente do que é hoje. Mas tanto a exigência de mudanças progressistas como a nostalgia conservadora funcionam sempre com base na reconstrução do passado a partir do presente. Porque sem identidade e sem narrativa nem a nação nem os movimentos podem ter futuro.

E hoje, numa altura em que, em muitos aspectos, as democracias revelam novamente toda a sua fragilidade, importa que assumamos a lição do maio de 1968 e as potencialidades dos movimentos rebeldes que buscam novos caminhos para um mundo mais justo, fraterno e equilibrado. Não porque seja expectável a sua repetição, mas porque emergiram nas últimas décadas novas perversões no sistema social que reforçaram as injustiças e acentuaram as desigualdades, numa altura em que mesmo as democracias mais consolidadas do ocidente se debatem com contradições insanáveis e o crescente afastamento dos cidadãos da vida pública exige novas respostas e reformas radicais e inovadoras. O que só será possível construindo novas utopias, que só podem crescer através da emergência de novos sujeitos e formas de ação transformadora. Porque está provado que os atores e instituições atuais são, por si sós,  incapazes de as empreender. Porque a democracia representativa só pode aperfeiçoar-se e expandir-se com o contributo de mais e melhores mecanismos de democracia participativa. 1968 não morreu. Persiste na nossa memória coletiva como lição inspiradora para futuros em aberto que precisam ser construídos.


Elísio Estanque é sociólogo do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e autor de Do activismo à indiferença – Movimentos estudantis em Coimbra (Editora ICS, 2007)

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