Quando a mentira é serva da homofobia

Quando a mentira é serva da homofobia
Jean Wyllys: Homofobia é denominador comum de uma nação assentada sobre preconceitos (Foto: Diego Bresani/Revista Cult)

 

Sinto muito por haver tanta dor nessa análise-testemunho. Desculpem-me por escrever esse documento informal em fragmentos, como um corpo no meio do fogo cruzado ou despedaçado à força das ameaças de morte e das fake news que tiveram e têm por objetivo não só desonrar meu nome e difamar a agenda política que represento (os diretos humanos de uma maneira geral, e, em especial, os direitos humanos de minorias sexuais, étnicas e religiosas), mas, sobretudo, me tirar do parlamento.

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Uma leitura apenas superficial das campanhas dos candidatos e candidatas de direita e de extrema-direita, que se elegeram muito bem votadas para a Câmara Federal ou para as assembleias legislativas, já nos permite notar que eles e elas usaram fake news e mentiras me envolvendo e se colocaram como contrapontos a quem chamavam e chamam de “pai da ideologia de gênero” e “pai do kit gay”. Sobretudo essas duas últimas mentiras, propagadas à exaustão sob um financiamento subterrâneo ainda a ser explicado pela nossa Justiça Eleitoral, transformaram-me em pária para a maioria dos eleitores e, consequentemente, em motivo de voto para candidatos em todo Brasil que deliberadamente me atacavam. Escroques da pior espécie – estelionatários, ladrões, charlatães, exploradores da fé alheia e cúmplices do crime organizado – chegarão à Câmara Federal e às assembleias legislativas com votações expressivas graças às fake news.

Percebi, então, numa primeira leitura dos resultados, que o trampolim dessa virada é a homofobia ou a homolesbotransfobia (muito mais que o racismo, sem querer fazer aqui hierarquias de opressões, até porque estas quando se articulam são piores). Nós, LGBTs, é que estamos em quase todas as fake news que as campanhas de Jair Bolsonaro, de seus filhos e de outros candidatos e candidatas de extrema-direita produziram subterraneamente – e sob o olhar atônito, para não dizer complacente, da imprensa e das justiças Eleitoral e Criminal – contra pessoas de esquerda que se dedicaram minimamente à comunidade LGBT (Erika Kokay, Maria do Rosário, Manuela D’ávila e eu. Nesse sentido, as fake news contra Haddad, candidato à presidência pelo PT, envolviam-nos de alguma forma, a mim em especial).

A homofobia combinada com o antipetismo (cujo elixir é menos a improbidade administrativa ou os esquemas de corrupção material dos quais o PT é acusado, e muito mais a “corrupção moral” que este partido teria promovido em seus governos ao dialogar  com a comunidade sexo-diversa e defender as liberdades sexuais) fizeram o pêndulo eleitoral ir para a direita e para a extrema-direita.

Não apenas brancos ricos e de classe média – com filhos LGBTs ou não – votaram na extrema-direita preocupados com a “ideologia de gênero” e a dissolução dos valores heteronormativos: também negros e trabalhadores pobres, semi-alfabetizados ou não, moradores de favelas e de periferias, votaram em massa em candidatos e candidatas que têm a homofobia como bandeira política explícita ou mesmo quando alertados de que estas figuras ajudaram ou ajudarão a derrubar seus direitos sociais e trabalhistas. Não só trabalhadoras e trabalhadores brancos, mas também pretos e pardos vítimas do racismo sistêmico não se importaram de ter menos serviços de saúde nem 13° salário na esperança de que a “ameaça da baderna gay” seja contida por esses em quem votaram maciçamente, apavorados com as fake news que receberam por WhatsApp, nas quais acreditaram ou fingiram acreditar.

Não se tratou e não se trata de uma luta de classes, ainda que os benefícios petistas à classe trabalhadora tenham feito alguma diferença no resultado das eleições no Nordeste. Trata-se mais de um ataque às minorias sexuais, objeto do ressentimento e da inveja dos que acham que gozam menos do que nós, LGBTs.

Essa é uma leitura ou interpretação da conjuntura que deveria parecer óbvia aos partidos de esquerda porque os elementos estão aí, mas que não é feita por outros do “nosso campo” porque a esquerda e a centro-esquerda também estão cheias desses valores homofóbicos. A homofobia é ubíqua e é um denominador comum da ampla maioria de uma nação assentada sobre preconceitos e valores morais que o progresso material conseguiu no máximo encobrir. O que aconteceu comigo nessa eleição é sintomático disso. Vítima de um milhão de fake news (um milhão mesmo), enquanto figuras do “nosso campo” sabotavam minha campanha dissuadindo eleitores ou me insultando na internet e propondo notas contra mim, e eleitores desse campo justificavam sua mudança de voto com o argumento de que eu “já estava eleito”.

Parte da comunidade LGBT do Rio de Janeiro, beneficiada com minha atuação na Câmara (da conquista, de fato, do casamento igualitário à defesa da política de tratamento da AIDS), mas alienada da luta que garantiu seus poucos direitos, cheia de homofobia internalizada, de vergonha de si, não só não defendeu simbolicamente nosso mandato como se engajou nas fake news e no ódio à política de identidade, como se pudesse haver direitos sem política.

Eu me reelegi porque resisti. Porque muita gente bacana resistiu junto comigo ao meu lado contra as mentiras, as ameaças e a escrotidão. Porque sou resistência desde menino, quando, além da miséria material em que vivia, precisei enfrentar os insultos e o bullying homofóbicos vindos dos que conviviam comigo na mesma situação de pobreza extrema. Porque somos resistência. E resistência seremos!

Novas fake news virão nesse sentido. Vou me limitar a desmenti-las e identificar seus autores para agir contra eles. O que virá para cima de nós é tenebroso. Da “cura gay” à proibição do casamento igualitário, passando pelo banimento do tema da diversidade de gênero nas escolas. Seremos sacrificados, junto com a agenda da legalização do aborto. Oxalá os colegas que foram eleitos para a Câmara Federal ajudem na resistência da manutenção desses direitos e temas. Oxalá tomara!

E, mais uma vez, haverá em “nosso campo” quem vá revirar os olhos diante dessa análise, não comentar e fingir que se trata de outra coisa.

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A campanha de Bolsonaro foi feita na base da mentira e da difamação, e muita gente só está começando a perceber isso agora. Não porque tenha concluído que “mamadeiras-pênis” jamais seriam distribuídas em creches num governo petista ou que o “kit gay” não passa de um delírio homofóbico, já que a homossexualidade não é fruto de proselitismo. Muita gente está se dando conta de que sua vitória se deve a fake news por conta de bravatas perpetradas pelo presidente eleito em outras áreas, como a das relações internacionais, por exemplo.

Em determinada fase da campanha , o Tribunal Superior Eleitoral proibiu ao então candidato continuar espalhando a mentira que ele batizou de  “kit gay” e ordenou ao Facebook e a outras mídias sociais que deletassem uma série de postagens com essa farsa. A decisão foi correta, mas chegou com mais de sete anos de atraso! Isso mesmo: Bolsonaro inventou o “kit gay” em 2011 (associando-me de imediato a essa mentira porque, para ele, a minha simples presença no parlamento era um acinte; sua homofobia e inveja não admitiam ver um gay assumido, orgulhoso de sua homossexualidade e com repertório cultural vasto dividindo o mesmo espaço e posição de poder que homens héteros brancos) e, desde então, nada foi feito pelo Judiciário nem pela imprensa, que, convenientemente, não desfez a mentira porque esta impactava negativamente sobre o governo de Dilma Rousseff – e era do interesse dos barões da comunicação de massa no Brasil a queda do terceiro governo petista. Graças à mentira chamada “kit gay”, e por associá-la a mim, pessoa nacionalmente conhecida devido a um programa de TV popular, Bolsonaro deixou de ser apenas um deputado medíocre do baixo clero e passou a ter alguma relevância no cenário político. Se alguma providência tivesse sido tomada à época, se não houvesse no Brasil uma secular homofobia institucional que endossa – e serve de terreno fértil para as múltiplas violências contra as pessoas LGBTs, Bolsonaro não teria chegado à presidência da República.

Sete anos depois, o Judiciário finalmente tentou acabar com a mentira chamada “kit gay”, depois de todo o mal que ela causou às pessoas, a mim em particular. Milhões de pessoas acreditaram e ainda acreditam nessa mentira e em muitas outras que o presidente eleito criou. E as reputações destruídas a partir dessa mentira que já dura sete anos? Quem vai reparar o dano?

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Eu disse muitas vezes: ninguém consegue fazer com que tantas mentiras, calúnias, deturpações, notícias falsas e insultos cheguem a tanta gente via WhatsApp sem a força da grana suja; sem agir como uma organização criminosa.

Bolsonaro nunca agiu com honestidade em relação a seus adversários. Eu que o diga, que sou alvo de crimes contra a honra perpetrados por ele há oito anos. Toda a imprensa sempre soube disso. Das adulterações criminosas de documentos em vídeo da Câmara Federal até a distribuição de panfletos apócrifos difamatórios nos corredores das comissões, passando pela construção da mentira que ele batizou de “kit gay”, Bolsonaro sempre deu fartas provas e indícios de que é um sociopata perigoso.

Avarentos, oportunistas e egoístas empresários, com o intuito de se apropriarem mais facilmente dos cofres públicos no governo desse facínora, e, ao mesmo tempo, e de imporem ao conjunto da população sua moral homofóbica e racista, decidiram se organizar criminosamente para financiar a campanha suja de Bolsonaro. A reportagem da Folha de S.Paulo deixou isso claro. Mas a denúncia dessa fraude não chegou sequer a abalar as estruturas homofóbicas do palanque sobre o qual Bolsonaro se ergueu e se fez notável.

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Parte da imprensa preferiu omitir o escândalo denunciado pela Folha de S.Paulo. O jornal teve acesso a informações claras sobre a atuação de grandes empresários no financiamento ilegal da estratégia de campanha de Bolsonaro em mídias sociais. A Folha teve acesso a dados que apontam quem pagou, quem recebeu e de que forma foram entregues os chamados pacotes de mensagens mentirosas e fake news distribuídas principalmente por WhatsApp e perfis falsos no Facebook. O jornal estimou que os pacotes teriam custado até 12 milhões de reais cada, valor muito superior ao montante declarado pela campanha de Bolsonaro, o que configura prática de caixa dois, crime ignorado solenemente pelo juiz Sérgio Moro, que, após levar Lula à prisão num processo no mínimo suspeito porque sem provas contra o réu, aceitou ser ministro da Justiça. A quase totalidade dessas fake news subterraneamente financiadas por empresários se referiam às questões de gênero e sexualidade, ou seja, interpelavam a homofobia social.

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Eu sou pisciano com ascendência em aquário e lua em libra. Os mistérios me amarram (não o dinheiro!). E como creio nos mistérios, penso que, para além de qualquer explicação material para esse pesadelo, qualquer análise da ciência política e da economia, para além desses motivos objetivos e reais, há uma razão outra: nós não merecemos, mas precisamos passar por esse pesadelo; ele já começou a pôr fim e vai aprofundar ainda mais a morte do “Brasil cordial” e da “democracia racial”, essas duas mentiras que serviram, nesses anos todos, para encobrir a fenda que é esse país, para citar a expressão de Vladimir Safatle, e as mortes dos oprimidos.

Os brasileiros – inclusive os que são vítimas dessas duas mentiras – vão se dar conta por meio da dor. Então, apesar de mais vidas serem sacrificadas para isso – e quero estar errado em meus prognósticos! – restará essa coisa boa: acabaremos de vez com essas duas mentiras e o país se verá doravante como o que é. Então, poderemos enfrentar esses males com mais clareza e consciência: o machismo, o racismo e principalmente a homofobia.

É como se o inimigo tivesse perdido o manto da invisibilidade que lhe deu e lhe dava vantagem historicamente, inclusive a de estar entre nós (e, em alguns casos, dentro de quem sempre tratamos como parceiro). É o que resta de bom desse momento trágico. E não podemos desperdiçar essa ajuda que as forças espirituais e superiores nos deram.

Não podemos mais tratar os fascistas com condescendência. Como disse Haddad em seu pronunciamento após a derrota, não podemos aceitar as provocações. Mas também não podemos passar pano. Não podemos dar, aos males, a vantagem que as forças boas espirituais tiraram deles.

Choremos, lamentemos, temamos até… mas estejamos certos de que essa situação nos deu a oportunidade de um recomeço, sabendo que não há cordialidade nem democracia racial. E sabendo quem são os fascistas.


JEAN WYLLYS é jornalista, escritor, deputado federal pelo PSOL-RJ, autor de Tempo bom, tempo ruim: Identidades, políticas e afetos (Companhia das Letras, 2014)


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(10) Comentários

  1. Sou muito triste por essa decisão do Jean Wyllys mas ao mesmo tempo entendo muito bem os motivos que trazeram ele a uma escolha tão difícil. Sou italiano, gay e moro em Roma. Mas isso não impede que eu sinto muita preocupação e dor pela situação do Brasil e dos lgbt no Brasil. O futuro será muito difícil e a recuperação depois da presidência Bolsonaro também. Precisamos de resiliência e não de mártires. Obrigado Jean, você fez e está fazendo um trabalho extraordinário. Espero que todo o mundo lgbt seja consciente disso.

  2. Jean, só agradeço tudo que fez no seu mandato e sei que seguirá fazendo onde quer que você estiver. Obrigada! Me sinto menos só sabendo que existem pessoas como você. Fique bem! Tem gente que mesmo de longe te admira e segue nas lutas do dia-a-dia contra todos esses aí atravancando nosso caminho. Beijos.

  3. A civilização ainda tem muito o que avançar, no momento a escolha foi pelo retrocesso, pela barbárie e é preciso continuar de cabeça e braços fortes erguidos.

  4. Bravo Jean! Mesmo que nao concorde totalmente mas admiro aseu pensamento,sua
    etica!voce sempre me representou! !!

  5. Confesso que seu discurso no empeachment me impressionou, mas quanto ao ódio , não foram os fakes ou candidatos, ele sempre existiu e nunca pode ser expressado como agora …..não fariam isso comigo. Grandes amigos se revelaram do mal , aqueles que sempre confiei ser do bem. Hoje estou com medo do cidadão do bem. Estamos num caminho sem volta, e depois do cais, quem sabe, talvez, possamos começar de novo, só que dessa vez com amor ❤

  6. Sou de esquerda e sempre votei no PT. Não voto mais não por uma questão “moralista”, mas pela corrupção extrema. Acorde deputado. Você é fraquinho. Só se elegeu por coeficiente partidário

  7. Excelente análise!!! Muito bom ler um texto que vem ao encontro do que penso. Me faz sentir menos só. Parabéns Jean Wyllis..

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