Qualquer mínimo acontecimento

Qualquer mínimo acontecimento
Um pouco como a pessoa apaixonada que, durante o sono do amante, olha hipnoticamente o corpo como a querer compreender o fascínio que provoca. O leitor de poesia, sendo ele também esse jogador apaixonado que arrisca, durante o sono da poesia, perder o amor para desvendar-lhe o fascínio, parece fazê-lo apenas para vê-la acordar e, no dia seguinte, desfazer as verdades ou ficções que a madrugada insone de estudo havia produzido. Assim é que ele, o leitor de poesia, pode saber que a pausa para estudo e as conclusões a que chega são precárias e esperam apenas o dia seguinte para serem eclipsadas pelos poemas que vêm. Mais do que isso, fica sabendo ele que uma de suas tarefas é impossível por ser adivinhatória – como acordará o amor? – e resta-lhe então a dúvida entre a função mântica da leitura e a consciência do desvendamento impossível do corpo amado enquanto ele dorme. Alguns poetas hoje vêm, como sempre a poesia fez, compondo sob o signo do amor, e neles é possível ler o amor e a resistência do amor – o seu acontecimento – quando nasce de si, do outro, contra o Estado, da poesia mesma. O poema, marcado por essas forças, assume muitas vezes por exemplo – e aqui passearão exemplos – a forma narrativa, preservando os versos como uma forma própria do poema, mas estranha à história que vai sendo contada em bloco. É o caso de Leonardo Gandolfi. No último livro que publicou, Escala Richter (2015), um dos poemas parece realizar especialmente uma poética que, desde A morte de Tonny Bennett (2010), se afirma. Trata-se de uma homena

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