A quaestificação do debate público
Em meados de maio de 2026, a cerca de cinco meses da eleição presidencial, irrompe o escândalo Dark horse. Áudios entre Flávio Bolsonaro, o escolhido pela família para a sucessão presidencial, e Daniel Vorcaro, banqueiro à frente do Banco Master, expõem transações milionárias em torno do financiamento do filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Dark horse é subsidiário do escândalo do Banco Master, que envolve também Ciro Nogueira, Tarcísio de Freitas e Mario Frias. Ao atingir candidatura até então bem posicionada na corrida presidencial, o episódio é mais um degrau na desconstrução do discurso bolsonarista de pureza moral contra a “velha política”.
Antes mesmo que os repórteres terminassem de mapear os personagens da trama, a pergunta nos estúdios, editoriais e podcasts não foi sobre a porosidade entre capital financeiro e extrema direita, sobre a regulação bancária ou sobre o tamanho do rombo. A pergunta de um milhão de dólares do momento é: qual o destino da candidatura Flávio Bolsonaro? Antes de respondê-la, vale investigar o contexto em que ela é formulada. Desde a posse de Lula em janeiro de 2023, a imprensa traduz o noticiário em ganhos ou, quase sempre, perdas de popularidade, mensurados em termos de pontos de aprovação, pontos de rejeição, comparações mensais, projeções sobre “reservas eleitorais”. Em 2025 a transmutação se concluiu, com a inclusão reiterada nas análises jornalísticas de cenários de primeiro e segundo turno, simulações com adversários hipotéticos etc. A pergunta sobre quem ganha em 2026 ocupa o centro do debate público há pelo menos um ano e meio.
Mesmo que seja natural que a poucos meses da eleição nos preocupemos com tal coisa, não devemos nos esquecer de que o escândalo, como defende John B. Thompson em sua obra clássica sobre o tema, é antes de tudo uma construção narrativa. O cidadão comum raramente tem contato direto com subornos, áudios privados, fluxos financeiros entre empresas, bancos e gabinetes. O que ele conhece da corrupção lhe chegou de modo inteiramente mediado. Tomemos o exemplo da Lava Jato. Personagens, moralidade da trama, tom indignado ou condescendente da cobertura, diagramas e infográficos, o background visual dos canos de óleo jorrando dinheiro etc., tudo isso é produto de trabalho editorial. E a atuação da grande imprensa brasileira, ao longo das últimas três décadas, foi marcadamente de oposição à esquerda e, particularmente, ao PT.
A literatura acadêmica sobre mídia e eleições no Brasil, acumulada desde 1989, converge num diagnóstico empírico robusto. As coberturas jornalísticas produzidas por Folha, Estadão, O Globo e suas extensões televisivas operaram, por mais de trinta anos, com viés antipetista estatisticamente significativo. O marco canônico é a edição do debate Collor-Lula no “JN” em 1989; o padrão se reitera em todos os pleitos seguintes, atingindo sua forma mais aberta em 2014 e 2018. O site Manchetômetro e Pedro Mundim confirmam o caráter estrutural do desequilíbrio. Fernando Azevedo, Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli caracterizam a grande imprensa como ator político próprio, com base social nas elites paulistana e carioca e preferências programáticas muito alinhadas com a agenda do liberalismo econômico de diminuição do Estado e privatizações. Foi essa cobertura cumulativa que abriu o espaço em que o antipetismo se consolidou como matriz da nova direita e, depois, do bolsonarismo. O bolsonarista convicto é um tipo paradoxal: odeia a Rede Globo e a mídia tradicional, mas carrega convicções sobre a associação entre PT e corrupção implantadas pela cobertura da Lava Jato em Globo, Folha, Estadão e Veja. A questão nunca foi se a “mídia decide eleições”, tese simplista que a literatura há muito superou, mas como ela tem operado ao longo da Nova República não como cão de guarda do interesse público, não como quarto poder, mas como instituição política ativa. A “quaestificação” é apenas o capítulo mais recente dessa operação política.
O termo alude ao instituto Quaest, protagonista paradigmático mas não exclusivo. A operação articula movimentos que formam um circuito. Começa pela prematuridade, que se expressa na captura do debate pela pergunta eleitoral muito antes do calendário formal de campanha. Ou seja, resultados de pesquisas financiadas por bancos de investimento são amplificados pela cobertura jornalística dos grandes conglomerados e acabam por ecoar por toda a esfera pública. O resultado eleitoral antecipado vira, simultaneamente, pauta abundante para a imprensa e instrumento de influência para o setor financeiro. Junta-se a isso o engodo da pretensão de legitimidade científica sem, ao mesmo tempo, respeito às regras científicas. Os institutos mobilizam vocabulário técnico sofisticado (regressão multinível, pós-estratificação, cruzamento com microdados da PNAD) para conferir autoridade acadêmica aos resultados, mas microdados e questionários completos não são sistematicamente divulgados para conferência de terceiros. Deveria haver uma lei contra essa prática.
Sobre esse arranjo tripartite repousa um pressuposto que nenhum relatório de pesquisa testa, mas todos repetem: o eleitorado brasileiro é presa de uma polarização afetiva intensa, estável e simétrica entre dois extremos. O pressuposto não é apenas premissa, é produto, pois ao diagnosticar obsessivamente a polarização, a “quaestificação” acaba por promovê-la, ainda que seu sucesso nessa tarefa não seja total.
O primeiro problema dessa tese é supor que a polarização brasileira seria simétrica, pressuposto que não resiste a exame empírico. Os trabalhos de Mario Fuks e Pedro Henrique Marques (com base em ESEB e LAPOP) e os achados do Monitor do Debate Público do LEMEP convergem no diagnóstico inequívoco de que a polarização brasileira é estruturalmente assimétrica. À direita, crescimento e radicalização; à esquerda, o que André Singer batizou de moderação lulista. O efeito eleitoral é específico. O núcleo bolsonarista, em torno de 20 a 25% do eleitorado, fecha questão em torno de candidato consolidado; os bolsonaristas moderados, fortemente antipetistas, não migram para Lula. À esquerda, o eleitorado é mais crítico, inclusive do governo Lula, e o voto que declara é raramente produto de adesão identitária pronta, mas sim da avaliação de gestão, sensível à conjuntura. O resultado disso é que, fora do período eleitoral, mais eleitores de direita declaram apoio antecipado a Bolsonaro do que eleitores de esquerda declaram apoio a Lula, não porque a sociedade seja mais bolsonarista, mas porque o eleitor lulista forma sua preferência mais tarde. A “corrida de cavalos” antecipada que domina a cobertura midiática projeta sobre essa estrutura uma simetria que não existe e infla, com isso, as preferências da direita.
O segundo problema é a funcionalidade desse discurso pseudocientífico para uma agenda mais antiga da grande imprensa. Ao tratar “os dois extremos” como forças equivalentes, a “quaestificação” repete, agora com vocabulário tecnocrático, o lamento que o editorial do Estadão de outubro de 2018 sintetizou no famoso “Uma escolha difícil”. Naquele texto, o jornal recusava endossar tanto Bolsonaro quanto Haddad no segundo turno, dando atestado público de que a imprensa havia perdido seu candidato preferido. O PSDB, apoiado pelos grandes diários paulistas desde meados dos anos 1990, quando fora criado, deixava de ser competitivo no plano nacional. Contudo, agora, passadas algumas eleições, a grande imprensa parece ter se cansado de esperar o PSDB renascer das cinzas e começou a flertar com figuras do bolsonarismo que cultivam imagem de certa moderação. Tarcísio de Freitas ocupa esse lugar com particular conforto editorial, pois sua persona midiática é construída como contraimagem tecnocrática do Bolsonaro pai. Flávio Bolsonaro, até há pouco personagem secundário do clã, foi reembalado pelos jornalões como o singelo “Flávio”, num movimento editorial pequeno, mas significativo, voltado a borrar, para públicos seletos, a associação de sua figura ao comportamento grotesco e disruptivo do pai. O Dark horse interrompe essa operação no meio do caminho, ao ameaçar a sobrevivência da candidatura “Flávio”.
É justamente por isso que o caso coloca a “quaestificação” em xeque. Se Lula consolidar liderança inquestionável nas pesquisas, a dramaticidade da cobertura se esvai e os institutos perdem espaço, ainda que, com a aproximação do pleito, o formato corrida de cavalos passe a adquirir alguma legitimidade própria, ausente nos 21 meses anteriores. Duas possibilidades se abrem, ambas já testadas. A primeira é embarcar em outra candidatura. Os critérios mínimos são adesão à agenda privatista e ortodoxia em política econômica. Diferentemente do bolsonarismo, a grande imprensa não professa conservadorismo de valores, exceto em questões relacionadas à inclusão de pessoas negras em espaços de poder e prestígio. Como mostrei acima, não é preciso que seja propriamente uma terceira via. Basta um bolsonarista “moderado” ou um outsider que assuma o compromisso mínimo. Observemos nas próximas semanas como Tarcísio, Caiado e Zema aparecem na cobertura.
A segunda possibilidade, complementar à primeira, é o cultivo de escândalos contra a esquerda. Aqui a grande mídia brasileira já deu mostras, ao longo de duas décadas, de extremo empreendedorismo. Para além dos exemplos óbvios da Lava Jato e do Mensalão, vale relembrar a sequência de “denúncias” cronometradas para o período eleitoral, como o “dossiêgate” em 2006 (a operação contra Aécio que terminou jogada sobre o PT), a quebra de sigilo fiscal de Verônica Serra e o caso Erenice Guerra na reta final da eleição de 2010, a Bolinha de Papel da capa de Veja na sexta-feira anterior ao segundo turno de 2014. Os trabalhos do Manchetômetro têm demonstrado, ao longo dos anos, o quão alinhados são Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo quando se trata de cobertura política em períodos eleitorais.
Esse caminho conhecido, no entanto, enfrenta agora um obstáculo concreto. O escândalo do Banco Master vai adquirindo dimensões que tornam difícil deslocá-lo da pauta. E a fonte dos vazamentos é o Intercept Brasil, a mesma mídia que deu início ao desmonte da Lava Jato, ao divulgar os áudios obtidos pelo hacker de Araraquara. O Intercept não pode ser considerado um veículo alinhado à grande imprensa, e, por isso, sua atuação tem o potencial de prejudicar a coordenação de enquadramentos entre os grandes diários, constituindo um exemplo vivo, ainda que muito acanhado, de como o pluralismo midiático é caro ao bom funcionamento da democracia.
A posição normativa que anima este artigo não é a adesão a uma concepção idealizada de esfera pública. O próprio Jürgen Habermas, que havia dado pouca atenção ao papel real da imprensa na esfera pública ao longo de quase toda a sua carreira, em ensaio de 2022 introduziu a tese da refeudalização da esfera pública contemporânea, que ocorre quando ela é capturada por poderes privados que assumem função quase pública. O caso brasileiro acrescenta uma camada, por não se tratar propriamente de uma captura. Os próprios conglomerados de mídia, que deveriam mediar, são atores políticos com agenda programática própria. O efeito é o que Colin Crouch chamou de pós-democracia, quando as formas democráticas persistem, mas a deliberação substantiva é esvaziada.
Em suma, o maior problema, do qual a “quaestificação” é o capítulo mais recente, é a deterioração do debate sobre os destinos do país no momento que deveria ser o mais propício a essa conversa coletiva: a antessala da eleição presidencial. Uma das causas dessa deterioração, anterior à “quaestificação”, é a redução do tempo de campanha oficial imposta pela reforma de 2015, de 90 para 45 dias. Isto é, temos um pouco mais de um mês para discutir, em escala nacional, propostas concretas para cargos majoritários e proporcionais. Há, hoje, financiamento público vultoso para as campanhas, o que é algo positivo, mas pouquíssimo tempo para que esses recursos sejam investidos na comunicação entre candidatos e eleitores. A “quaestificação” contribui para essa deterioração ao achatar o debate sobre políticas públicas e questões ideológicas e morais ao perfil topográfico de um placar.
Seu efeito mais corrosivo, porém, é outro. A insistência em só ver polarização funciona como atestado prévio de que não há possibilidade de entendimento e acordo entre as partes, de que as posições já estariam “calcificadas” desde a partida. Esse atestado é falacioso, pois a maior parte da população se mostra, pesquisa após pesquisa, moderada, ambivalente, não radicalizada. Mas ele serve muito bem a interesses econômicos que são historicamente reincidentes em dar mostras de desprezo pela democracia em nosso país. Enquanto estivermos vidrados na corrida de cavalos, deixamos de discutir educação, saúde, habitação, transporte público, segurança. O Dark horse pode interromper o circuito por algumas semanas, pode até afundar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Mas só uma reconstrução da esfera pública brasileira, passando pelos arranjos editoriais que sustentam o debate público e pela revalorização da campanha eleitoral, abriria espaço para que a eleição cumprisse sua função mais elementar, que é a de ser o momento em que a sociedade reflita seriamente sobre suas próprias escolhas e destino.
João Feres Júnior é professor titular de Ciência Política no IESP-UERJ e doutor em Ciência Política pela City University of New York. Coordena o Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), o Grupo de Estudos da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB). Atualmente, dedica-se ao estudo da extrema direita, do bolsonarismo, da polarização política, das redes sociais e das transformações contemporâneas da esfera pública.





