DOS DISCURSOS AOS NÓS BORROMEANOS: VIOLÊNCIA, SEGREGAÇÃO E DISPOSITIVOS DE PODER NO LAÇO SOCIAL
Senhoras e senhores,
“Odiaivos uns aos outros”
Oscar Cesarotto
A provocação que tomo de empréstimo como epígrafe indica algo que a psicanálise nos ensina desde seus primórdios: o ódio ao semelhante não é um acidente da história, mas uma possibilidade estrutural da vida em comum.
Se tomamos a violência, a segregação e a discriminação como fenômenos contemporâneos alarmantes, a psicanálise nos obriga a um deslocamento: eles não são meros acidentes históricos ou desvios morais. São efeitos estruturais do laço social.
Em O mal-estar na civilização, Freud afirma que a cultura exige renúncia pulsional. A agressividade não desaparece; ela é recalcada, deslocada, retornando sob a forma de hostilidade contra o semelhante. Já em Além do princípio do prazer, ele introduz a hipótese da pulsão de morte, indicando que há no sujeito uma tendência à repetição e à destruição que excede o princípio do prazer.
Portanto, a violência possui uma raiz pulsional. A cultura não a elimina; ela apenas organiza uma parte dessa força. Mas o que a psicanálise acrescenta é que essa agressividade encontra sempre um modo de inscrição no campo da linguagem.
Com Jacques Lacan, a questão se radicaliza.
O simbólico opera por diferença significante. Um significante só existe por se distinguir de outro. Essa operação institui um dentro e um fora. Não há universalização sem resto.
Em O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise, Lacan formaliza os discursos e afirma que a fraternidade se funda na segregação. Um grupo se constitui ao se identificar a um traço comum, um significante mestre – o S1. Mas todo traço comum implica aqueles que o partilham e aqueles que dele ficam excluídos.
A segregação, portanto, não é um acidente moral: é um efeito estrutural da operação significante.
Esse ponto torna-se ainda mais evidente quando observamos o funcionamento dos grandes discursos que organizam a modernidade: o discurso científico, o discurso religioso e o discurso psicanalítico.
Podemos dizer que o discurso da ciência e o discurso da religião mantêm entre si uma relação paradoxal. Embora frequentemente apresentados como opostos, eles estão profundamente acoplados.
O discurso da religião opera pela produção de sentido. Ele busca responder ao enigma do real por meio da significação.
Podemos dizer que, nessa lógica, ele realiza aquilo que poderíamos formular como RSI: a realização do simbólico imaginário. A religião realiza simbolicamente aquilo que é imaginado.
Um exemplo paradigmático é o ritual da eucaristia: através da palavra e do rito simbólico, realiza-se aquilo que é imaginado como presença divina.
Quando o saber falha – quando surge um ponto de não saber –, o discurso religioso intervém oferecendo sentido. Ele injeta significação exatamente no lugar onde há um vazio de saber.
Por isso, Lacan afirma, em O triunfo da religião, que a religião triunfará. Não porque possua mais verdade, mas porque possui uma extraordinária capacidade de absorver o real e recobri-lo com sentido.
Já o discurso da ciência opera de maneira diferente.
Se a religião produz sentido, a ciência produz real.
Podemos dizer que o discurso científico funciona segundo outra articulação dos registros: SIR – a simbolização do imaginário real.
A ciência procura simbolizar aquilo que aparece inicialmente como imagem ou fenômeno empírico do real.
Se pensarmos no desenvolvimento da informática e da inteligência artificial, veremos essa lógica em funcionamento. Os computadores, baseados na lógica formal e nos trabalhos de Alan Turing, simbolizam processos que antes pertenciam ao domínio da imaginação humana.
Curiosamente, Turing foi decisivo para o desenvolvimento da criptografia e para a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial. No entanto, devido ao sigilo militar e à perseguição moral ligada à sua orientação sexual, ele não foi reconhecido em vida e acabou perseguido pelo próprio sistema que ajudou a salvar.
Esse episódio mostra como o discurso científico, quando aliado ao discurso universitário e institucional, pode produzir efeitos paradoxais de segregação.
No discurso universitário, o saber ocupa o lugar de agente e produz sujeitos classificáveis, normatizados.
Mas todo sistema classificatório produz inevitavelmente um resto.
A ciência universaliza, mede, calcula e normatiza. Porém, aquilo que não se encaixa na norma aparece como excesso.
É nesse ponto que vemos emergir formas contemporâneas de segregação: racismo estrutural, discriminações técnicas, biopolíticas de controle dos corpos.
A ciência produz um real sem sentido. Ela o isola como dado. Mas o problema surge quando esse dado se transforma em critério de exclusão.
Além disso, o discurso científico tem a particularidade de produzir cada vez mais pedaços de real.
Vírus, bactérias, manipulações genéticas, tecnologias de guerra, sistemas digitais de controle e vigilância.
Essas produções podem escapar ao controle. A pandemia de Covid-19 mostrou como um elemento microscópico pode desorganizar completamente o funcionamento global das sociedades.
A tecnologia desenvolvida para a guerra – drones, algoritmos, inteligência artificial – retorna frequentemente no campo civil, reorganizando as formas de controle social.
Os próprios celulares que hoje fazem parte da vida cotidiana das crianças são derivados de tecnologias inicialmente desenvolvidas em contextos militares.
Assim, vemos que o discurso científico não elimina o real: ele o multiplica.
Entre esses dois discursos – o da religião, que produz sentido, e o da ciência, que produz real – situa-se o discurso psicanalítico.
A psicanálise se encontra numa posição estreita, circulando entre esses dois campos.
Ela não promete a verdade revelada da religião, nem a objetividade totalizante da ciência.
O discurso psicanalítico opera de outra forma.
Poderíamos dizer que ele se organiza segundo uma terceira articulação dos registros: IRS – o imaginário do real simbolizado.
O analista, ao escutar o sujeito, tenta imaginar aquilo que do real pode ser simbolizado.
Não se trata do “eu imagino” consciente – o je m’imagine –, mas de algo que emerge do inconsciente do próprio analista na escuta.
É um j’imagine sustentado pelo simbólico: imaginar aquilo que do real pode encontrar uma inscrição na linguagem.
Essa posição coloca o discurso psicanalítico numa relação singular com os demais discursos.
Enquanto a religião oferece sentido e a ciência produz saber, a psicanálise sustenta o ponto onde o saber falha.
Ela opera a partir do resto.
Nesse sentido, podemos lembrar uma frase célebre de François Rabelais:
“Ciência sem consciência não é senão ruína da alma”.
Lacan retoma essa frase em O seminário 21 – Os não-tolos erram para indicar algo fundamental: o saber, quando separado da responsabilidade subjetiva, pode tornar-se instrumento de destruição.
Esse ponto torna-se particularmente importante quando analisamos as formas contemporâneas de segregação.
Em O seminário, livro 19: …ou pior, Lacan apresenta as fórmulas da sexuação. Do lado masculino, encontramos a lógica do todo: um conjunto universal sustentado por uma exceção.
Essa lógica estrutura muitos universalismos identitários:
uma comunidade homogênea,
uma norma comum,
um ideal compartilhado,
e a exclusão daquilo que não se enquadra.
A discriminação emerge precisamente quando o resto é percebido como ameaça ao gozo ou à identidade do grupo.
Do lado feminino, Lacan introduz a lógica do não-todo.
Essa lógica impede o fechamento completo do universal. Ela introduz uma abertura estrutural que impede a totalização.
É nesse ponto que encontramos uma possível via ética contra os totalitarismos.
Mas a segregação não opera apenas na ordem simbólica.
Ela se sustenta também em mecanismos pulsionais.
Em O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan formaliza o olhar como objeto da pulsão escópica.
O racismo e muitas formas de discriminação operam frequentemente por essa via.
O olhar fixa o outro em um traço visível.
Transforma a diferença em estigma.
Reduz o sujeito à imagem.
O diferente torna-se visível demais.
A pulsão escópica sustenta essa captura imaginária. O outro é reduzido a corpo portador de um gozo suposto excessivo.
A violência pode então surgir como tentativa de eliminar esse gozo atribuído.
Mas há também a pulsão invocante: a voz.
A voz convoca, chama, interpela.
Discursos religiosos e ideológicos operam fortemente por essa via. Eles não apenas mostram o inimigo; eles o nomeiam e convocam à ação.
A voz cria comunidade.
Mas pode criar comunidade contra alguém.
Se o olhar fixa o inimigo, a voz organiza a massa.
A escuta analítica, ao contrário, não convoca à identificação coletiva. Ela sustenta o intervalo, a singularidade da fala.
Nos últimos seminários, especialmente em RSI, Lacan formaliza o nó borromeano entre real, simbólico e imaginário.
A violência pode então ser pensada como efeito de falhas ou hipertrofias nesse anelamento.
Quando o imaginário domina, surgem rivalidades especulares e ódio.
Quando o simbólico se absolutiza, vemos burocratização e exclusão normativa.
Quando o real irrompe sem mediação, ocorre a passagem ao ato.
A segregação aparece muitas vezes como tentativa de restaurar artificialmente uma separação rígida entre dentro e fora.
Mas sabemos, pela própria topologia lacaniana, que interior e exterior não são tão separáveis, mesmo na superfície do toro. Como numa banda de Möbius, extraída do toro, eles se implicam mutuamente.
É nesse ponto de torção ética que o discurso psicanalítico introduz o sujeito do inconsciente e o resto, como objeto “a”, causa do desejo.
Ao colocar o objeto “a” no lugar de agente, ele inverte a lógica do universal.
Ele opera a partir do resto.
A psicanálise não promete reconciliação coletiva, não oferece sentido redentor, não produz normas universais de felicidade.
Ela sustenta o ponto onde o universal falha.
Se o discurso religioso apazigua pelo sentido,
se o discurso científico administra pelo saber,
o discurso psicanalítico sustenta a falta e produz o furo através do percurso circular do significante no toro.
Freud já nos advertia em O mal-estar na civilização que todo processo civilizatório exige uma renúncia ao gozo.
Mas essa renúncia nunca elimina completamente a agressividade.
Sempre permanece um resto.
Esse resto é estrutural.
Conclusão.
Violência, segregação e discriminação não são meros desvios morais. São efeitos estruturais da linguagem e da economia do gozo.
O olhar pode capturar e estigmatizar.
A voz pode convocar e incitar.
O saber pode classificar e excluir.
O sentido pode justificar e moralizar.
A psicanálise não elimina a segregação estrutural – pois ela é inerente ao simbólico.
Mas ela impede que o resto seja convertido em dejeto humano.
Se há uma ética possível frente aos discursos de ódio, ela não reside na produção de novos universais totalizantes.
Ela reside na sustentação do não-todo, na escuta da singularidade e na recusa de transformar o diferente em inimigo.
Muito obrigado.





