Piora o estado de saúde do governo

Piora o estado de saúde do governo
Será difícil, fora do bolsonarismo religioso, que alguém aceite as justificativas de Bolsonaro (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

 

Semana difícil para o Brasil. Há oficialmente quase 200 mil pessoas doentes de Covid-19 no país neste momento, embora o número real pode ser várias vezes maior do que este. Alcançamos a razão de 10 mil novos casos de infectados por dia, e 14 mil brasileiros já faleceram pela doença. O presidente não preside o Brasil consumido por uma doença infecciosa que certamente já alcançou mais de 1% da população e que ainda está longe de atingir o pico do contágio e das mortes. Os profissionais de saúde, sem equipamento e apoio, já são infectados e morrem em proporção maior do que nos países com os quais gostamos de nos comparar. Em menos de uma semana, estaremos contando os mortos do dia já na casa do milhar, enquanto nos faltam UTIs e respiradores, embora não nos falte o presidente incentivando as pessoas a voltarem ao trabalho e a se exporem à infecção de um vírus que mata muito e mata dolorosamente. 

Enquanto isso, o presidente da República acresce à crise sanitária, em parte aguçada e por certo não amenizada pelo seu papel, àquela que certamente é a mais grave das crises políticas do seu governo. 

De um lado, ainda estamos às voltas com a acusação resultante das declarações do ex-ministro Sergio Moro de que Bolsonaro manobrou para controlar politicamente a Polícia Federal, tendo ameaçado demiti-lo se não conseguisse o que queria. Moro indicou como elemento probatório das intenções de Bolsonaro, em primeiro lugar, uma mensagem que lhe foi enviada pelo presidente, em que consta: “Moro, você tem 27 superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”. 

Indicou também os atos da reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo, depois de uma longa novela, o ministro Celso de Mello determinou que fosse visto pelas partes e autoridades interessadas. Segundo o Jornal Nacional, “pessoas que assistiram ao vídeo afirmam que o presidente se exaltou na reunião, que usou um palavrão ao dizer que queria troca na PF porque não iria esperar que a família dele fosse prejudicada, e que se não houvesse essa mudança trocaria o diretor-geral da PF e o próprio ministro da Justiça”. Bolsonaro não queria apenas controlar politicamente a PF, mas controlá-las em razão de escusos interesses familiares.

Depois que isso veio a público, Bolsonaro passou lutar por versão que lhe seja conveniente. Insistiu que estava se referindo à segurança pessoal dos seus filhos no Rio e não à Polícia Federal, embora a versão pareça cada vez mais inverossímil, uma vez que se demonstrou que a PF não cuida de segurança pessoal dos filhos do presidente, atribuição do GSI. No momento em que faço esta crônica, Bolsonaro está pendurado na tentativa de fazer vingar esta explicação, cercado de ceticismo por todos os lados. 

Além do vídeo, temos também os depoimentos colhidos no inquérito aberto pelo ministro Celso de Mello a pedido do procurador-geral da República. Os ministros militares presentes na reunião ministerial, três, confirmaram a versão de Bolsonaro, embora com divergências. Mas fato é que oito outros depoimentos até agora confirmam a atuação de Bolsonaro para controlar a Polícia Federal do Rio de Janeiro e para ganhar controle sobre a direção geral da PF. 

De um ponto de vista legal, não deve ser fácil provar que a obsessão de Bolsonaro pelo controle dos relatórios técnicos de operação da PF estivesse diretamente correlacionada à necessidade de proteger o ninho, mas a política não precisa de provas, apenas de fortes indícios e de elementos corroborem a interpretação. Será difícil, fora do bolsonarismo religioso, que alguém aceite justificativa de Bolsonaro, que segundo as suas próprias palavras consiste nisso: “Eu tenho que todo dia ter um relatório do que aconteceu, em especial nas últimas 24 horas, para poder bem decidir o futuro dessa nação”. Ora, o futuro da família dele talvez dependa disso, o futuro da nação depende de uma polícia independente, e não amarrada operacionalmente aos desejos políticos de quem governa. A não ser que Bolsonaro queira uma polícia política, aos modos nazistas, o objetivo há de ter sido determinar que a sua família e os seus amigos não podem ser tocados pela Polícia e pela Justiça. Em todo caso, duas hipóteses altamente antidemocráticas e não republicanas.  

Por outro lado, os dissidentes do bolsonarismo partiram para o confronto. Agora que os ex-bolsonaristas têm um nome representativo para votar para presidente, Moro, e já não se importam de fortalecer a esquerda ao queimar Bolsonaro, estão cada vez mais ativos. Nesta quinta-feira, uma das alas da direita não bolsonarista, lideradas pelo VemPraRua, promoveu um tuitaço (essas manifestações organizadas na plataforma do Twittter) chamada de #BolsonaroMarmitadoCentrão. Nela se atacava duramente a coligação que Bolsonaro está construindo com o centrão fisiológico no Congresso à medida em que aumenta a erosão popular e parlamentar do apoio ao governo. Os holofotes miraram a distribuição de cargos à Santíssima Trindade do fisiologismo nacional, Valdemar da Costa Neto, Roberto Jefferson – ambos condenados no processo do Mensalão – e Ciro Nogueira, denunciado em processo de corrupção. Jefferson apareceu esta semana empunhando uma metralhadora e ameaçando o Supremo com uma, pasmem, guerra civil em defesa de Bolsonaro.

O projeto da dissidência do bolsonarismo parece claro: agitar e manter à tona a enorme insatisfação popular com Bolsonaro com coisas tais como o não pagamento da segunda parcela do auxílio emergencial, a sabotagem das medidas contra a pandemia, a insistência com a manutenção da data do Enem quando os garotos mais pobres não estão conseguindo se preparar, e, enfim, a troca da garantia dada ao governo por Moro pelo apoio do centrão patrimonialista e corrupto. A ideia de que é incompetente, incoerente e que abandonou a luta pela corrupção e pela nova política será a nova pedra no caminho de Bolsonaro, que agora luta em dois fronts ao mesmo tempo e dificilmente conseguirá produzir uma narrativa que seja suficiente para neutralizar as duas frentes de ataque. 

Enquanto isso, a morte começa a chegar mais perto de todos nós. E, quando as pessoas têm medo, muita coisa pode acontecer na política. 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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