Paradoxos do vandalismo

Paradoxos do vandalismo
Le manifestant aux fleurs, 2005, Banksy

 

Por Charles Feitosa

Na coluna anterior eu parti da distinção entre niilismo ativo e passivo no Nietzsche, para levantar a questão se o corte progressivo de recursos para nossos museus, universidades e centros de pesquisa não poderia ser considerado um ato administrativo de vandalismo passivo por parte do estado. Agora queria lembrar que Nietzsche define o próprio niilismo ativo de muitas maneiras, sendo sua face mais óbvia a falta de sentido para as coisas, a falta de respostas para as perguntas mais fundamentais da existência, a descrença indiscriminada nos valores e nas verdades. Quando nada tem sentido, o nada mesmo é o sentido único. Mas existe outra forma de niilismo ativo, que Nietzsche denominava de niilismo completo, tendo como principal representante ele próprio, alguém capaz de levar às últimas consequências a crescente desvalorização dos valores absolutos de “bem”, de “verdade” e de “beleza”, e preparar o terreno para a criação de novos e diferentes valores. O niilismo completo se realiza através de uma filosofia destrutiva, à marteladas, dirigida contra os ídolos da cultura. Deveríamos concluir então que qualquer pensamento inspirado no gesto destrutivo de Nietzsche poderia ser criminalizado como vandalismo? De novo, o que é vandalismo, afinal?

O dicionário define vandalismo como a ação deliberada de destruição de bens públicos ou privados. A etimologia remete ao século 5 d. C. O nome supostamente deriva de um povo germânico, os vândalos, um das muitas etnias bárbaras cujas invasões e ataques ao Império Romano contribuíram para a queda deste. É interessante observar que os vândalos não apenas não eram mais violentos do que outros povos durante as invasões, como também recentes pesquisas historiográficas indicam que tinham uma cultura muito rica, tendo inclusive perpetuado o legado romano em diferentes regiões da Europa e partes do norte da África. Diversas associações positivas são constatáveis na literatura medieval, pois a criminalização histórica da tribo germânica só foi implementada na modernidade.

Um dos responsáveis teria sido o Abade Grégoire (1750-1831), da diocese francesa de Blois, que em 1798 inventou o termo “vandalismo” para denunciar a violência contra a arte, arquitetura e cultura, que estavam sendo devastadas em nome do  ódio ao passado feudal durante o Reino do Terror. O termo foi rapidamente adotado pelos jornalistas da época, logo depois incluído no Dicitionnaire de L’Academie Française e passou a ser compartilhado pela maioria das línguas europeias da atualidade, a despeito de protestos por parte de historiadores germânicos da época, que afirmavam, contra o Abade, que seus ancestrais eram nobres guerreiros e não meros saqueadores. Os protestos não surtiram efeito, pois o termo “vândalo” foi se firmando cada vez mais como sinônimo do invasor que não tem respeito pelos artefatos culturais e, mais recentemente, por propriedades em geral, mas especialmente carros ou vidraças.

Para tentar contornar as ambiguidades inerentes à história do termo, o pesquisador ítalo americano Dario Gamboni, no livro The destruction of art – Iconoclasm e vandalism since the French revolution (1997), sugere uma importante distinção entre vandalismo e iconoclasmo. Iconoclasmo ou iconoclastia é uma palavra erudita que se define como a destruição de símbolos, imagens ou monumentos por motivos políticos ou religiosos. Dento desse contexto, quando Moisés destruiu o bezerro de ouro em homenagem a Baal, ele não estava se comportando como um vândalo, mas como um iconoclasta, seguindo o mandamento de não fazer imagens ou ídolos de outros deuses (Cf. Exôdo, 32, 2-5). Quando Jesus expulsou a pontapés os cambistas e comerciantes do templo de Jerusalém, ele não estaria desrespeitando a propriedade alheia, mas performando um vigoroso protesto contra a mercantilização da fé (Cf. João, 2,13-16). Resumindo, o iconoclasta age com projeto, estético e/ou político, ao passo que o vândalo seria apenas movido pelo cego e sem sentido apetite de destruição.

Obviamente a distinção é problemática e incorre em uma série de dificuldades, que chamarei aqui provisoriamente de “paradoxos do vandalismo”. Levada às últimas consequências pode-se dizer, por exemplo, que quando os norte-americanos bombardearam a cidade alemã de Freiburg im Breisgau, no sul da Alemanha, em 27 de novembro de 1944, matando cerca de 3000 pessoas, mas intencionalmente deixando intacta a sua catedral, uma das mais belas da cristandade,  no centro da cidade arrasada, eles não estariam sendo vândalos nem iconoclastas, mas apenas praticando guerra no seu sentido mais perfeito: destruição dos proprietários e não das propriedades. Por outro lado, quando um jovem inscreve uma frase de protesto em um muro usando spray, está agindo como vândalo ou como artista iconoclasta? Quando o performer italiano Pinoncelli arrebenta a marteladas o urinol de Duchamps, em 1990, no museu do Centre George Pompidou em Paris, estaria ele profanando uma renomada obra de arte avaliada em centenas de milhares de euros ou devolvendo a ela, através da destruição, sua aura instigante e insólita de ready-made? Quando um ativista dos direitos animais invade empresas de biotecnologia para libertar animais usados como cobaias, estarão cometendo atos de destruição sem sentido ou performando o nobre e urgente gesto de libertação dos nossos vizinhos viventes, costumeiramente explorados, escravizados e devorados por nós, humanos? Finalmente, quando um manifestante quebra uma vidraça, estará ele agindo por uma fúria cega ou movido pelo projeto estético/político de derrubar o capitalismo?

Parece que os vândalos são sempre os outros, nunca nós mesmos. A valência positiva ou negativa do termo varia conforme relação de cada um com a propriedade em questão, sejam monumentos, museus, muros ou vidraças. Diante desse quadro, será mesmo legítimo que governantes, banqueiros ou jornalistas reivindiquem para si a exclusividade da propriedade definitiva do significado do termo “vandalismo”? Vândalos para quem? O caso dos grafiteiros é emblemático. Considerados por muito tempo os vilões do mundo urbano, hoje suas obras são expostas em galerias e podem alcançar cifras astronômicas. Um dos responsáveis por essa mudança de sensibilidade foi o mundialmente famoso Banksy, meu vândalo favorito, que cunhou de forma polêmica o termo brandalism no seu livro Wall and piece (2006). Brandalism é um jogo de palavras com o termo vandalism, só que a partir da expressão inglesa brand, que quer dizer marca, registro ou patente. Trata-se de um manifesto de rebeldia contra o ataque visual dos gigantes da mídia e magnatas da publicidade, que ocupam todas as frestas de nossos espaços públicos com mensagens de propaganda. Segundo Banksy:

Eles publicam mensagens eloquentes nas laterais dos ônibus que denotam você não ser atraente o suficiente e que toda a diversão está acontecendo em outro lugar. Eles estão na TV fazendo sua namorada sentir-se inadequada. Eles têm acesso à tecnologia mais sofisticada que o mundo já viu e com ela intimidam você. Eles são os anunciantes e eles estão rindo de você. Entretanto, você está proibido de alcançá-los. Marcas registradas, direitos de propriedade intelectual e leis de direitos autorais significam que os anunciantes podem dizer o que bem entenderem, onde bem entenderem, impunemente. Danem-se. Qualquer anúncio em espaço público, que não lhe dá opção para você ver ou não, é seu. É seu para você reapropriar, rearranjar e reutilizar. Você pode fazer o que quiser com isso. Pedir permissão é o mesmo que perguntar se você pode guardar uma pedra que alguém jogou na sua cabeça. Você não deve nada às corporações. Você não lhes deve especialmente nenhuma reverência. Elas têm rearranjado o mundo para se interporem bem à sua frente. Elas nunca pediram sua permissão, nem pense em começar a pedir pela permissão delas (Banksy, Wall and Piece, p. 159)

A provocação de Bansksy é dupla, de um lado ele defende que o grafite, ao intervir criticamente nos signos de consumismo, dos valores culturais, da imagem corporal ideal ou das mensagens políticas específicas colocadas nos outdoors, está na verdade instituindo outras e melhores formas de organização da realidade, tal como toda obra de arte tradicional. Por outro lado, ele acusa os canais tradicionais de marketing de estarem cometendo um ato de violência contra os cidadãos, uma violência respaldada por todas as instituições, poderia até se dizer, parodiando a famosa gravação, “num grande acordo nacional com apoio do Supremo, com tudo”.

Metaforicamente pode-se dizer que de alguma maneira Banksy quebrou a vidraça da vitrine que protegia o conceito de vandalismo, invadiu e o ocupou o saguão dos discursos oficiais da mídia e entoou o grito de guerra:  O combate violento à cultura é considerado um crime, mas e se a cultura for ela mesmo criminosa?

Vila Isabel, Rio de Janeiro, equinócio da primavera de 2018.


Charles Feitosa é doutor em filosofia pela Universidade de Freiburg. i.B./ Alemanha


Até outubro, Alessandro Francisco e Charles Feitosa assumem a coluna de Marcia Tiburi

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