O retorno de Lula, o mercado e a polarização

O retorno de Lula, o mercado e a polarização
Lula extremista é um espantalho na imaginação de quem busca preocupar a opinião pública e atacar a imagem do petista (Foto: Ricardo Stuckert)

 

Semana política intensa, meus amigos. Um conjunto de terremotos políticos que deixaria emocionante pelo menos um semestre das nossas vidas cismou de acontecer em sucessão durante três dias. E foi tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que os vexames da inexplicável comitiva governamental que foi fazer um estranho rolê em Israel, o notável fato de termos vergonhosamente ultrapassado seguidamente a barreira de duas mil mortes por dia, a inexplicável posse das deputadas bolsonaristas Bia Kicis na CCJ e Carla Zambelli na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, e até mesmo o impressionante Efeito Lula que levou o governo Bolsonaro a agora negar o seu negacionismo com relação à vacina, todas essas notícias de deixar qualquer um de cabelo em pé tiveram que entrar na fila da atenção pública. 

Entretanto, o centro político da semana, inegavelmente, teve a ver com Lula. Na segunda-feira, deu-se a decisão do ministro Fachin, que anulou todas as condenações impostas a Lula pela Justiça Federal do Paraná, declarando que aquele não era o juízo a quem caberia o julgamento que foi feito. Na terça-feira, ocorreu a retomada do julgamento da alegação de suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, com os devastadores votos dos ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski em que a declaração de que houve “vício insanável da parcialidade” foi a coisa mais neutra e gentil proferida pelos dois juízes sobre o ex-herói da Lava Jato.

E na quarta Lula falou pela primeira vez com os seus direitos políticos reestabelecidos. E para muita gente foi Natal e Carnaval, tudo junto e combinado, para outros tantos foi pelo menos a sensação de que alguém ainda consegue se conectar com o imaginário e as angústias da massa nestes país, enquanto para outros ainda foi Quaresma e Sexta-Feira da Paixão, momento de dor e aflição. Indiferente ninguém ficou. 

Teremos oportunidade de falar sobre o enorme significado do retorno de Lula à cena política, mas hoje quero comentar algumas teses que foram postas em circulação pelos jornalistas e comentaristas de política sobre eventos desta semana associados ao ex-presidente.

E por que me ocupo disso? Primeiro porque eu tenho certeza de que essas teses que o jornalismo impõe costumam ter muito efeito na compreensão dos fatos políticos, seja porque muitos espontaneamente as adotam como se fossem indiscutíveis, seja porque adversários políticos as exploram à exaustão como arma retórica.

Aconteceu, por exemplo, com o dogma Globo News de que “O PT inventou a contraposição nós contra eles”, quando a gente na escola fundamental já tinha sacado a eficiência desse artifício. Segundo porque eu acho que há uma história tensa de parcialidades e mágoas entre editorialistas e comentaristas de política do jornalismo de referência, de um lado, e Lula e o PT, de outro, que precisa avançar para um patamar superior.

 

Principalmente se for
confirmada a recuperação
dos direitos políticos do
petista, inegavelmente e,
para o bem ou para o mal,
o maior líder político bra-
sileiro, este pobre país não
merece que voltemos ao
mesmo patamar de satani-
zação e de agressividade
de 2016. A verdade merece
uma chance.

 

 

Há vários enredos e enquadramentos sobre o retorno de Lula propostos ou reciclados no jornalismo político nestes dias. Temos a tese do “efeito Lula” sobre a bolsa de valores e o mercado financeiro, a ideia de que a volta de Lula implicaria no aumento da polarização política, o argumento de que Lua seria o “adversário ideal para Bolsonaro” – o que, naturalmente, seria péssimo para o país -, a tese da insegurança jurídica gerada pela decisão, e enfim, o argumento de que a anulação das condenações de Lula produziria uma impunidade generalizada. Ora, pode-se pensar o que se queira de Lula, mas ele, como todo mundo, merece pelo menos quadros interpretativos justos e honestos para a sua situação. E estes certamente não o são. 

Por razão de espaço, vou considerar hoje apenas as duas primeiras teses que estão tentando impingir aos fatos. 

Peguemos a história de que o retorno de Lula à cena pública derruba a bolsa e é ruim para o humor do mercado financeiro. É uma das histórias mais trapaceiras que se trafica para a política com a clara intenção de provocar medo e apreensão. Ora, bolsas caem pelas razões mais aleatórias do mundo. E, como caem, sobem. Usar a “queda da bolsa” como chicote para tanger a política e a Justiça na direção que convém a rentistas e especuladores é, na minha opinião, um péssimo jornalismo e um ainda pior argumento político.

A bolsa caiu e o dólar subiu na segunda, na quarta Lula falou e já tudo tinha voltado ao normal. Além disso, o que importa é o argumento de princípio: a bolsa caiu? Pois o mercado que pegue uma senha e entre na fila, pois a democracia, a Justiça, o interesse nacional, as políticas públicas de longo alcance pediram antes a palavra e têm prerrogativa. Naturalmente, se isto aqui ainda for um país e não uma corretora.

Por fim, esta carta já foi jogada à exaustão em 2015 e 2016, inclusive com a apresentação diária das avaliações das agências de ranking (que curiosamente desapareceram do cenário) para jogar a opinião pública com o governo Dilma Rousseff. Não é possível que jornalistas e comentaristas políticos não tenham vergonha de usá-la de novo para assombrar os incautos. 

O argumento da polarização, por outro lado, é novo. Com Lula em cena, aumentaria a polarização entre petistas e bolsonaristas, argumentou-se, coisa que ninguém mais aguenta e que, definitivamente, não é construtiva. Como nós não gostamos de polarização, melhor não ter a volta de Lula. 

Recomendo muito cuidado com esse conceito de polarização. Polarização significa na verdade a radicalização das posições por parte de um ou mais dos polos políticos, e o abandono das posições intermediárias por parte de pelo menos uma fração importante dos participantes do debate público e do eleitorado. Posições intermediárias querem dizer as posições mais moderadas e mais propensas a estabelecer compromissos entre as partes.

Ora, Lula ocupou por mais de uma década a posição de centro-esquerda no espectro político nacional. Manteve-se, portanto, bem longe da radicalização. Não há radicalização à vista: o PT não vai se tornar um partido de extrema-esquerda, que nunca foi do seu feitio, nem Lula vai se transformar num radical populista e autoritário ao estilo Trump e Bolsonaro. De onde agora surgiu a ideia de que faria um contraponto simétrico com a extrema-direita, tornando-se um patético Bolsonaro vermelho? 

Por outro lado, enquanto houver bolsonarismo, vai haver polarização. Não é preciso que os outros polos estejam radicalizados para haver polarização, basta que um deles atraia o centro e os moderados para um dos extremos. Bolsonaro e o bolsonarismo, por sua própria natureza, é que tem uma posição permanentemente radical, que precisam necessariamente criar tensão, buscar posições extremas e distanciar-se conscientemente de qualquer tipo de moderação. O bolsonarismo é que atraiu o eleitor de centro e de direita para a extrema-direita, e esta é a polarização política brasileira.

 

Talvez esperar o perfil
“Lulinha Paz e Amor”
seja demais com tanto
ressentimento no ar,
mas um Lula extremis-
ta, entrincheirado em
um dos polos, é um
espantalho na imagina-
ção de quem procura não
fatos, mas uma razão
para preocupar a opinião
pública e atacar a imagem
do petista.

 

 

Por outro lado, desconfio que há muita gente aí que não sabe muito sobre o que é “polarização” e usa a expressão para quando há duas posições disputando a hegemonia política, e nem o eleitorado nem a opinião pública dão a mínima para terceiras vias. Mas, desculpem, polarização não é o monopólio do interesse público por duas forças, caso contrário a política estaria constantemente em polarização. O que não é verdade. Polarização existe, insisto, quando os que constroem pontes entre as partes desaparecem e todos se radicalizam em posições cada vez mais distantes uma da outra. Desconfio que parte da acusação de polarização é basicamente uma frustração por verem diminuídas as chances de uma terceira posição com chance de sucesso eleitoral. 

Está cansado de polarização? Construa pontes, convide as pessoas para as posições mais moderadas, estabeleça compromissos entre as posições à mesa que sejam legítimas e democráticas, reestabeleça a validade das regras do jogo. Tem gente de direita, esquerda, conservadora e progressista que gostaria de uma candidatura viável que não fosse nem Lula nem Bolsonaro, e isso é legítimo. O que não temos ainda é outro candidato eleitoralmente e politicamente viável. E por que não temos?

Porque não temos um projeto de país e uma perspectiva construtiva que possa conciliar as partes e dar a volta no “poço até aqui de mágoas” que somos desde aquele maldito impeachment e aquela condenação de Lula em um processo inteiramente viciado. Não falei que esta aventura iria rebentar a sociedade brasileira? Pois é, dilacerou. O nosso problema é que a política brasileira hoje é só mágoas, ressentimentos, retaliações, memórias de dor e traições. O país precisa de um divã mais do que de um candidato “de centro”. Mas isso não é um problema de Lula, sejamos honestos, o problema é nosso. Não é justo colocar mais essa bomba no colo dele.

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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