O que pode um voto nos tempos de sua desmoralização?

O que pode um voto nos tempos de sua desmoralização?

As eleições municipais estão aí. Votaremos novamente em poucos dias em pessoas que podem se tornar vereadoras e prefeitas e, ao ocupar esses cargos, decidirão sobre o destino dos cidadãos que habitam as cidades.

O golpe (midiático, legislativo, corporativo, judiciário) vivido há pouco pelos brasileiros, nos coloca a questão do voto de um modo absolutamente novo. Votar depois da Ditadura Militar foi algo bem diferente do que é votar hoje depois do golpe de 2016.

A pergunta que se coloca diz respeito ao significado do ato de votar para os cargos eletivos nesse momento, se mais de 100 milhões de votos foram desconsiderados há pouco tempo, na recente eleição de 2014, pelo processo do golpe.

Mais de 54 milhões de cidadãos votaram em Dilma Rousseff. Considerando o restante dos votos dados ao candidato perdedor Aécio Neves temos um total de mais de 105 milhões de votos. A quantidade de nulos e brancos não é inexpressiva, pouco mais de 6 % dos votos, e as abstenções, cerca de 21%, chegam a preocupar. Prova de que muitos não veem sentido em participar do processo do qual o voto é o cerne? Certamente. Distantes dos grupos e comunidades que constituem a política, muitos não veem sentido em escolher, decidir, em tomar partido.

A desmoralização do voto por certas pessoas tem relação com a desmoralização do voto pelo golpe vivido. Nenhuma novidade, os poderosos nunca gostaram do voto, esse gesto excessivamente democrático. E muito menos quando não o tem.

Prova prática de cidadania

O voto é fundamental como ato político no contexto das democracias representativas. Ele é uma prova prática de cidadania, daquele nexo entre o ser singular que somos e o ser social que o sistema econômico convida a esquecer.

Por isso mesmo é que não podemos pensar que a desmoralização do voto que vemos na atualidade seja um acaso, um ato inocente. O modo como desprezamos a vida política ou que tentamos humilhá-la dizendo “o poder corrompe” resulta em desprezo por nós mesmos, é a nossa própria humilhação. O mesmo vale para o atual desprezo que damos ao voto.

As pessoas são diariamente ensinadas a acreditar que o poder não lhes pertence. As elites dominantes tentam convencer a todos, por sedução ou à força, que o poder pertence a ela mesma, por sua natureza ou sua classe. Nesse contexto, o descaso com o voto não é obra do acaso, ele é orquestrado. Por que votar sem muito pensar, votar em branco, anular o voto ou esquecer de votar tem uma resposta evidente. É como se o voto não valesse nada. E, de fato, se a cada vez que votarmos, nosso voto for desconsiderado porque as elites – que se consideram donas dos votos do povo – não gostaram do resultado, então, falar de democracia daqui para a frente será puro cinismo. (Sabemos que a melhor maneira de ocultar a verdade, não é a mentira, mas o cinismo. Então, precisamos entender o círculo cínico no qual estamos envolvidos.)

É sob as condições do golpe escamoteado pelos meios da mídia hegemônica que devemos pensar no que faremos com nosso voto daqui para a frente. Digo isso confiando na inteligência do povo brasileiro. Mas se podemos confiar em nós mesmos, pois somos o povo, ou seja, gente diversa, simples e comum, não podemos confiar, no entanto, nos donos do poder, nos oligarcas que ocultam seus jogos de poder enquanto nos usam esperando de nós que deixemos de lado, que abdiquemos de nossa cidadania. Nesse momento, se trata de realizar sua prova prática.

Heri Dono, Born and Freedom, 2004

Votar pela aparência

Política tornou-se uma questão de publicidade. E, de fato, a política perde seu espaço para a publicidade diariamente. Há uma transformação da esfera política em pura propaganda, do mesmo modo que políticos em pessoa deixam de lado o conteúdo necessário para que alguém possa ser político e se tornam bonecos do grande ventríloquo que é o poder que se expressa e realiza pelo poder.

Em resumo, muitos fazem política como publicidade. Assim, vota-se pela aparência, ou, pior ainda, pelo estereótipo esteticamente dominante.

Nessa linha, o “homem branco europeu” vendeu-se publicitariamente como aquele que entende de política. Ele é o dono do poder, mas sua máscara é a de quem entende de política. Tanto que, de gravata e com um corte de cabelo novo, qualquer um posa de cidadão votável.

Os tempos de eleição estão cheios dessa propaganda barata, de uma aparência caricatural. Votar hoje é estar atento às cenas, ao que elas querem vender e optar por projetos e propostas que estejam na contramão do mais do mesmo.

O que pode um voto?

Podemos pensar que um voto não vale nada. Mas o voto é uma verdadeira arma democrática. Com ele se combate de modo civilizado e elegante a lógica do capital, a injustiça, a falta de direitos. Pelo voto criamos representação, entramos na política com uma força descomunal, a da lucidez política, que o programa econômico e político tenta destruir.

Quando eu voto, afirmo uma vontade, um desejo e um direito. Tudo ao mesmo tempo.

O voto é a parte inalienável de uma pessoa que se torna expressão de sua dignidade. Quem vende um voto, vende a alma. Vende a si mesmo. Quem o compra, compra um vazio, e ganha um poder vazio.

Enquanto não compreendermos a importância de nossa escolha pessoal no processo, não poderemos falar em democracia. E se o voto não estiver presente, estaremos mortos como cidadãos.

Nesse momento em que o voto é desmoralizado pelo golpe, precisamos saber o que fazer com ele. Todos sabemos que se as eleições para presidente da República de 2015 tivessem um resultado positivo para a máfia política que nos governa, não estaríamos vivendo o trauma político do golpe perpetrado por aqueles que não tiveram votos suficientes para implantar seu projeto. Venceu a maioria, mas depois a maioria perdeu para quem perdeu a eleição.

Um golpe não seria necessário se o voto do povo fosse outro. Se o voto do povo fosse contra o povo, fosse para um projeto antipopular que não foi escolhido pelo povo e que hoje é imposto à força aos brasileiros, não teríamos problema, o povo teria abdicado de si mesmo e, por mais que isso fosse uma contradição, ainda teria algo de democrático. Foi o voto que atrapalhou os planos das elites políticas e que despertou a raiva patriarcal dos coronéis – jecas e vampirescos – da vetusta política brasileira que hoje nos governam.

Todos sabemos que o voto é poder. O poder de expressar-se politicamente, de dizer, de declarar, de fazer acontecer. O voto é um ato fundamental, aquele ato soberano do povo que, neste momento, deve vir como resposta municipal aos gestos autoritários nacionais.

Votar em feministas, em defensores de uma democracia radical, em representantes genuínos do povo, militantes trabalhadores, militantes negros e indígenas, é o gesto que pode desenhar uma nova constelação política nas cidades de nosso Brasil.

Nesse momento, desejo que o voto seja uma estrela lançada na direção da escuridão política de nossos dias.

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