É ainda militância ou guerra de fãs?

É ainda militância ou guerra de fãs?

 

 

Estamos tão acostumados à brutalidade da militância bolsonarista, particularmente em meios e ambientes digitais, que frequentemente deixamos passar a agressividade e os comportamentos antissociais dos ativistas de esquerda. Porém, a verdade é que à medida que o tempo passa, as pessoas muito envolvidas com política vêm se tornando cada vez mais ferozes, não importa a que segmento ideológico, político ou moral pertençam.

 

Distraído, o jornalismo político tem equivocadamente chamado de “polarização” esse clima de antagonismo radical, de conflito permanente e onipresente, de fúria e ódio generalizados. Polarização não é exatamente isso, embora este seja um dos seus sintomas, mas é óbvio para todo mundo que as pessoas mais envolvidas em política agem cada vez com mais raiva, adotam comportamentos sempre mais antissociais e procuram propositalmente fazer e enfrentar inimigos.

 

A coisa chegou a tal pondo que até no interior do mesmo espectro ideológico e alheios a qualquer lógica de natureza política, os grupos estão se atacando com frequência e intensidade espantosas. Vimos na semana passada, por exemplo, uma youtuber e militante da esquerda radical confessar numa live que, por ter recomendado que não se votasse em Lula no primeiro turno, recebeu de fonte lulista nada menos que uma ameaça de estupro. Ameaças de morte e de estupro estão entre os comportamentos limites de ódio político, mas estamos assim agora mesmo nos segmentos políticos que se consideram mais civilizados.

 

Neste sentido, é desconcertante o conflito aberto entre lulistas e ciristas, mobilizando os seguidores dos dois mais proeminentes candidatos de direita. Ao olhar desatento, pareceria que estamos às vésperas do 2º turno, e lulistas e ciristas disputam cada palmo de chão na corrida presidencial. Na verdade, estamos apenas em maio, há uma enorme diferença nas intenções de votos entre os dois candidatos e o cenário mais provável é que necessariamente um vá precisar do outro para vencer Bolsonaro em outubro. Sem mencionar que o PT e o PDT vão precisar estar do mesmo lado a partir de 2023, não importa o resultado da eleição presidencial, para manter alguma relevância política para a esquerda na próxima Legislatura que promete ser dominada pela direita e pelos partidos fisiológicos.

 

Até é compreensível que os ciristas, um poço até aqui de mágoas das tantas que Lula e o PT aprontaram no passado, pudessem dizer “dane-se!” ante o acintoso e precipitado apelo dos petistas ao voto útil em seu candidato, a cinco meses da eleição. Mas, e os lulistas que a este ponto deveria cortejá-los, por que têm despendido mais energia procurando briga com os ciristas do que com bolsonaristas e moristas, num crescente de assédio que ficou muito feio esta semana? E por que há tantos dedicados com tanto afinco a alimentar o ódio recíproco entre as duas militâncias?

 

Sim, a campanha de Ciro atiça a briga, imune a qualquer pedido dos que não acreditam que tenha chance de se tornar uma opção eleitoral para os antipetistas. Esta atitude funciona para distanciar Ciro de Lula para o eleitor cansado de Bolsonaro, mas que não votará novamente no petista. Contudo toda essa beligerância não tem se materializado em intenções de voto e, por outro lado, vem acirrando os ânimos com os apoiadores de Lula. E é verdade que não é de Lula que vêm os duros e acintosos ataques a Ciro, esse trabalho de campanha negativa foi terceirizado para influenciadores e membros da base petista. Mas se a atitude de Ciro causasse o comportamento da parte mais agressiva dos seus seguidores, o que causaria o comportamento de assédio e ameaças que se tornou uma das marcas características da militância lulista digital?

Não vamos nos enganar, a militância faz muito mais do que seguir o seu líder. Lula e Ciro são certamente pessoas mais racionais e tolerantes do que uma parte, cada vez mais proeminente, das hordas que os defendem online. Ou que atacam em nome deles. Chegamos ao ponto de uma total perda de proporção, pois nunca se viu tanto ódio entre dois grupos do mesmo lado do espectro ideológico a esse ponto de uma campanha presidencial.

 

Alguns gostam de lembrar o que a propaganda de Lula fez com Marina em 2014 como exemplo de campanha de ataque. Mas há uma diferença fundamental: ali era propaganda política, conduzida pelos profissionais da comunicação estratégica do candidato, não era o ataque cotidiano, que não responde a qualquer estratégia eleitoral e é realizada por pessoas avulsas que, em sua maioria, o fazem por conta própria, sem controle das candidaturas e sem se preocupar com as consequências dos seus atos.

 

A minha hipótese é que os militantes digitais hoje (e quase todo mundo militante é hoje digital) não seguem mais a lógica e a racionalidade da política, mas a dos fandoms, isto é, das comunidades de fãs geralmente modeladas no mundo do entretenimento e das celebridades da cultura pop. A minha tese é que que, não são mais militâncias, mas comunidades de fãs.

 

Pois a lógica política e o cálculo eleitoral mandariam que os petistas se esforçassem para construir pontes com os ciristas, não que os caçassem na rede para procurar briga. E que os ciristas priorizassem demitir Bolsonaro a entrar em escaramuças com aloprados lulistas. Mas a lógica do fandom não obedece à racionalidade política nem ao cálculo eleitoral.

 

Fandom é um termo da cultura popular para indicar os grupamentos, principalmente juvenis, ao redor de um objeto cultural, um estilo de vida ou um astro ou celebridade. Os fãs, mesmo sem uma afiliação formal ou sem vínculos formais uns com os outros, sentem-se parte de uma comunidade ao redor do objeto do seu engajamento. O “nós contra eles”, por exemplo, é parte essencial da cultura do fã. Além disso, os fãs se identificam com o seu objeto ou causa, assumindo que o vínculo a X de algum modo define quem ele é. Por fim, os fãs sempre defenderão o objeto do seu engajamento de qualquer ameaça identificada (mesmo que não seja uma ameaça real) e reagem como se tivessem sido atacados pessoalmente.

 

Pouca gente tem reparado nisso, mas há algum tempo a cultura dos fãs e fandoms colonizou a militância política. No começo parecia ótimo o enorme engajamento digital voluntário das bases de fãs, promovendo e defendo massivamente causas, candidatos e valores. Mas agora os fandoms tóxicos – ou a parte tóxica dos fandoms – se tornam cada vez mais vistosos, e assustadores.

 

Todo fã é também um pouco “hater”, que destila ódio dos rivais do seu ídolo, dos que o criticam e até do ídolo, se ele pisar na bola. Mas alguns fandoms têm mais haters que outros. Há alguns anos, o jornalismo cultural passou a designar como “fandoms tóxicos” esses grupamentos ou parte deles quando adotam comportamentos negativos, que vão desde a intimidação e importunação (bullying), passando pelo cancelamento e pelo linchamento, até chegar a comportamentos antissociais como ameaça de morte e de estupro ou a publicação de informações privada (doxing) para expor a pessoa a quem se quer punir.

 

Nem todos os fãs são tóxicos, mas muitos os são e em número crescente. Os fandoms tóxicos não apenas são uma formidável força de ataque aos críticos, rivais e inimigos, mas frequentemente se sentem donos do seu objeto (o que explica os cancelamentos), trate-se de um produto cultural ou de uma celebridade, exigindo ter controle sobre ele. Sem contar que se sentem superiores aos outros fãs, que consideram passivos ou isentões.

 

O fandom tóxico é a parte abusiva e minoritária de um fandom. No entanto, em ambientes digitais os agentes maliciosos são em geral os que gritam mais alto e chamam mais atenção. A denúncia do mau comportamento, por outro lado, gera cobertura e a cobertura amplifica a visibilidade do mau comportamento. O resto do fandom, assim como a celebridade política que é objeto do seu engajamento, não tem controle sobre o fandom tóxico e vai fazer de tudo para negar que seja parte da mesma comunidade, o que se revela impossível.

 

Quem quiser conhecer o nível de perversidade dos fãs tóxicos de Lula e Ciro, não devem indagar aos ciristas e lulistas, mas àqueles que conheceram a violência dos seus ataques. E hoje eles atacam uns aos outros, com volume, intensidade, diligência e passionalidade de fã, não de uma militância com cálculo político.

 

As escaramuças entre lulistas e ciristas é briga de comunidades de fãs, com uma enorme proporção de fãs tóxicos. É estúpido, não é política, é contraproducente para fins eleitorais e, por fim, não está sendo bonito de ver.

 

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Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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