O primado dos afetos

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O primado dos afetos
A escritora Elvia Bezerra, autora de ‘A trinca do Curvelo’ (Divulgação)
  “Só se é capturado no afeto.” Botho Strauss Em 1968, o ano da morte do poeta Manuel Bandeira, a psiquiatra junguiana Nise da Silveira tinha 63 anos. Cinco anos antes, o embaixador e poeta Rui Ribeiro Couto, um dos mais cordiais intelectuais de sua geração, falecera. Muitos laços intelectuais e biográficos ligam esses três importantes nomes da cultura carioca do século 20. Extrapolando essas filiações, a ensaista cearense Elvia Bezerra, sábia e delicada, se fixou, contudo, no mais simples – e, por isso mesmo, no mais profundo – dos laços de afeto. Foi pelo caminho sutil das afinidades íntimas que ela escreveu A trinca do Curvelo: Os afetos de Manuel Bandeira, agora publicado pela editora Todavia (em edição revista e ampliada). Em vez de partir de ideias e afinidades intelectuais, Elvia privilegiou o caminho do cotidiano e da intimidade. Seu livro parte dos pequenos, mas decisivos, elos do coração – encontrando seu eixo na simplicidade da vida diária e na passagem dos três amigos pela rua do Curvelo, hoje Dias Ferreira, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro. Foi Manuel Bandeira quem lhe descortinou esse caminho, quando afirmou que sua poesia não resultava de nenhuma intenção modernista, “mas, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo”. Das cercanias do morro, e não dos laços abstratos de uma genealogia, surgiu o poderoso parentesco entre os três. Hoje, quando tanto se fala da importância da família e do sangue, é inspirador descobrir que, menos do que dos laços de parentesco, os grandes vínculos se formam

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