Nossa literatura jamais será vermelha

Nossa literatura jamais será vermelha
O escritor André de Leones (Roseli Vaz/Wikimedia Commons)
  Com ambientação flutuante – ora na década de 1990, ora nos anos Bolsonaro –, Meu passado nazista, de André de Leones, publicado pela Record, é um romance cáustico, difícil e maravilhoso. Nessa ordem. Cáustico porque há nele um descompromisso estético do autor com as ordens narrativas vigentes. Aqui o realismo sofre as erosões que a linguagem inventiva fatalmente impõe. E a cada instante o narrador desmonta aquilo que passou parágrafos a construir. Sem dúvida, trata-se de um experimento sobre os poderes da linguagem que, como tal, revela um quase insuportável índice de impotência em tudo aquilo que escrevemos, falamos ou dizemos. Leandro é um narrador errático, ingênuo, confuso, que mistura histórias em que, por vezes, o fundo é a figura, e a figura acaba por perder-se no fascínio que ele tem pela possibilidade de inventar as coisas que vê à medida que inventa sua própria história. Órfão de pai, filho de uma mãe ausente e neto de um nazista, ele busca fazer do horror do que diz algum tipo de constrangimento aos outros – porque, para pessoas como ele, o constrangimento social se confunde com a sensação de empoderamento. O Terceiro Reich reaparece aqui como um pesadelo diluído em tudo, que desapareceu como forma histórica, mas que se multiplicou como uma metástase semiótica. Duplas sertanejas? Nazismo. Era Collor? Nazismo. Assédio sexual? Nazismo. Capacidade de realizar leituras sociológicas? Nazismo. Pesquisas no Google? Nazismo. Agronegócio? Nazismo. Balança comercial favorável? Nazismo. Capacidade de empreender? Triun

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