O maniqueísmo animista de Bolsonaro e a bronca em Pazuello

O maniqueísmo animista de Bolsonaro e a bronca em Pazuello
Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde Eduardo Pazuello (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

Amanhecemos no dia 21 de outubro de 2020 com os cabeçalhos anunciando o ataque de Bolsonaro ao ministro Eduardo Pazuello. O ministro, recém consentido ao posto e recém apresentado ao SUS, enquanto interino, gozava da vantagem de ignorar todos os assuntos em matéria de saúde pública e de não precisar tomar qualquer decisão, senão a de acatar às prescrições do chefe.

Um dia após o presidente dizer, por ocasião das polêmicas em torno da obrigatoriedade da futura vacina, que caberá ao ministro decidir a esse respeito e que lhe parecia o melhor caminho ir na direção de desabonar o brasileiro da incumbência vacinal, Pazuello cometeu a imprudência de, efetivamente, tomar uma decisão, anunciando a compra do antídoto desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceira com o laboratório chinês Sinovac.

Poucos turnos depois, já estava o presidente o desautorizando em sua página no Facebook: “Não compraremos a vacina da China”. A bola, então, voltou ao Ministério da Saúde que “esclareceu” ter havido apenas um “protocolo de intenções”, sem “caráter vinculante”, não existindo “qualquer compromisso” de aquisição das vacinas sino-paulistas.

Qual o problema com essa vacina? O fato de ser um produto resultante de uma parceria com chineses e em uma pesquisa cujo andamento o governador de São Paulo, João Doria, depositou publicamente grandes expectativas e apostas políticas. É como se as intenções por trás da confecção de um produto físico, de um objeto, representassem a totalidade dele, como se pudesse ser reduzido a elas.

Como se a mera hipótese de uma vacina nacional cuja criação sofreu algum protagonismo político de um adversário do presidente fosse uma concessão imperdoável a inimigos irrecuperáveis. A fúria do presidente contra Pazuello é um aviso de que Bolsonaro permanece com o radar atento às possíveis traições do próprio governo. E a sua lista de derrubados até aqui, desde o lavajatista-mor a generais companheiros de longa data, é demonstração de que ele o faz sem o menor apego aos seus auxiliares.

Bolsonaro toma decisões como se orientado por dois sistemas combinados de crença. Um é o que divide a realidade caricatamente em duas substâncias mutuamente incompatíveis: o bem e o mal. O outro é o que deposita em objetos tangíveis, selecionados por contingências conjunturais, sínteses de salvação ou de purgação.

 

 

As atitudes morais e políticas
do presidente parecem obedecer,
portanto, ao que eu gostaria de
chamar aqui de maniqueísmo animista.

 

 

 

O maniqueísmo a que faço alusão é apenas um repertório de ideias que prospera em contextos hostis a ambiguidades nos quais vigem fórmulas binárias de representar a realidade e de construir narrativas sobre as pessoas, a vida social e a história. O animismo, por sua vez, resulta da estreita e inultrapassável relação com a experiência imediata, com o que se vê e se toca, com os objetos e coisas ao nosso redor. Mas, nessa relação, o elemento animista é o que confere à matéria sensivelmente assimilada um patrimônio espiritual que pode abreviar o acesso ao bem, ou condenar o imprevidente ao domínio de forças malignas.

O elemento maniqueísta influencia Bolsonaro a distribuir pessoas, empresas, grupos e instituições em duas caixas: a dos itens dignos de confiança e parceria (não necessariamente de lealdade), e a dos itens dignos de ojeriza, ódio, desprezo, inimizade e aniquilamento. É comum que itens da primeira caixa sejam transferidos para a segunda, embora o contrário seja quase impossível. Todos aqueles com quem o presidente exibe, aos sorrisos, vínculos encantados por metáforas matrimoniais gozam do conforto da primeira caixa e são, portanto, beneficiários do bem. Os que são taxados com os ismos todos – de comunismo a jornalismo – estão alocados no tormento da segunda caixa, a vermelha.

O elemento animista do seu sistema de crenças e condutas influencia o presidente a apostar na coisa física da vez. É um fetichismo quase religioso. A performance não é nova. Primeiro, a salvação do país pelo nióbio e pelo grafeno. Depois, por reação a Macron, o repúdio à caneta Bic (a “caneta francesa”). Mais à frente, a mágica da cloroquina e da hidrocloroquina reveladas por Trump. Agora, o ódio à ainda fetal CoronaVac, “dos chineses”.

 

 

O maniqueísmo animista de
Bolsonaro faz que o país viva
como se estivesse em uma
Guerra Fria telúrica, na qual o
bem e o mal têm cores, texturas,
discursos e famílias.

 

 

As teorias de Olavo de Carvalho, as fofocas de Carlos Bolsonaro e a verborragia de Silas Malafaia e outros influenciadores, confirmam o soerguimento de uma Cortina de Ferro em nossa vida nacional.

O presidente é facilmente intoxicado por esse fetiche de antagonismo simplório a que já está propenso, e em razão do qual emite impropérios tanto contra inimigos políticos de seu governo, quanto contra possíveis aliados de nosso Estado nacional. Não há mais de um critério para Bolsonaro. Ou se está com ele, ou com o Foro de São Paulo, o PT, a China, Joe Biden, Cristina Kirchner, Nicolas Maduro, MBL, João Doria, João Amoedo e Karl Marx.

Não sabemos se Pazuello, como Mandetta e Moro, será nomeado ao seleto grupo. Não dá para prever se sua candidatura à traição é irrevogável, ou se o presidente manterá com ele uma “lua de mel” duradoura. Mas é pouco razoável supor que, a essa altura do campeonato, Bolsonaro esteja disposto a reformar o seu sistema de crenças de modo a não mais agir sob os impulsos do binarismo maniqueísta e do fetichismo animista combinados.

Apesar de não sabermos se o ministro será o próximo a figurar na caixa do mal, dá para imaginar que, nem a trompista cloroquina será o último ídolo da salvação, nem a sino-dorista CoronaVac, o último da purgação. Aguardemos os próximos episódios.

Tiago Medeiros é doutor em Filosofia pela UFBA. Professor do Instituto Federal da Bahia. Membro do Laboratório de Estudos Brasil Profundo (IFBA) e do GT Poética Pragmática (UFBA).


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