O grito preso de Otto

O grito preso de Otto
Otto em seu apartamento, na região central de São Paulo (Foto: Marcus Steinmayer)

 

Otto mudou de ares. Para ficar mais próximo da filha, Betina, de 12 anos, saiu do Vidigal, no Rio de Janeiro, e passou a viver em São Paulo, onde leva uma rotina “tranquila e serena”. É na capital que o músico finaliza seu sexto disco de estúdio, Ottomatopeia, produzido por Pupillo, da Nação Zumbi, com previsão de lançamento para maio. “É como se um filho fosse nascer e eu não sei o sexo, mas o amor é grande”, diz o músico à reportagem da CULT. “Trabalho todo dia e não paro nunca. É na crise que sobrevivem os fortes e eu nunca parei para lamentar”.

Ottomatopeia vem depois dos elogiados Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, de 2009, e The moon 1111, de 2012. Um disco “humano”, diz Otto, que reflete sobre o lugar de cada um em meio ao turbilhão político de nossos tempos “torturantes”. Mas faz isso enquanto fala de amor, que é de onde o músico nascido e criado no agreste pernambucano, em um mundo macho e duro, decifra as coisas com mais facilidade.

É verdade que o disco novo é mais rock’n roll?

Tem mais guitarra, está mais psicodélico. Mas tem música brasileira antiga, jazz, eletropop, anos 80. É bem contemporâneo, situado nesse momento dentro e fora do Brasil, mas fala muito de amor, que é por onde eu entendo melhor a realidade. É um disco humano, quase que um caminho desses tempos torturantes de agora, em que o ser humano vive essa impotência diante do mercado e da política. Vem bem carregado desse grito preso, do lado marginal do ser humano, os direitos perdidos, os novos códigos, o trans, o hétero. Tento conceituar por aí. Acho que chegamos num período em que conquistamos coisas, o mundo deu uma andada para frente, mas agora está em marcha a ré. As coisas estão regredindo, e o medo, a insegurança e a tortura estão dentro disso aí.

Otto em seu apartamento, na região central de São Paulo (Foto: Marcus Steinmayer)

Como sente o país hoje?

O Brasil deteriorou-se. Afundou, está experimentando o gosto podre dos seus atos irresponsáveis, difamatórios, do seu alto poder corruptivo e das mazelas do tempo, da miséria histórica. Realmente a fratura democrática deste golpe foi profunda. A sensação é que, para existir esse escárnio político, estamos vivendo uma tortura incomensurável, sem precedentes. Tenho a impressão de que uma quadrilha tomou o poder. E a possibilidade de que a justiça seja feita transforma esses aventureiros em criminosos de alta periculosidade. Fora a imprensa que constrange de tão vulgar.

 Mas ao mesmo tempo que trata desses temas, o disco fala de amor.

Nesse turbilhão precisamos ver com amor, enxergar as coisas com mais humanidade.

A mudança para São Paulo impactou de alguma maneira a produção do Ottomatopeia?

Profissionalmente, sim. Pupillo [produtor do disco] está aqui, meu empresário está aqui. São Paulo tem um vigor de trabalho que acelerou mais esse processo. Eu estava no Vidigal, mas estava muito só, com a minha filha Betina longe, vivendo aqui. E o Vidigal é meio isolado, com aquele marzão, o que é muito bom, mas São Paulo me deu um ‘vai à luta’.

Como está sendo esse contato com a Betina?

Estamos começando a nos entender, ela está começando a aceitar a casa. Está melhorando. Ela tem 12 anos e parece uma garota de 16 do meu tempo. Ela tem muita informação. E acho que as próximas décadas vão ser mais rápidas ainda. Daqui a pouco ela tem 18 e já está me alcançando.

Você se preocupa em dar uma educação, digamos, feminista a ela?

Feminista acho que ela já é. Betina já é muito indomada, é dura comigo, é dura com qualquer um. Mas essa coisa do feminismo ela vai adquirir com o tempo, com as amigas e com as próprias experiências. Eu não sou um pai careta – isso eu não poderia ser –, não sou um pai proibitivo e acho que vejo muito mais pelo lado do filho do que dos pais. O mais importante é estar ao lado dela. Por exemplo, ela já não tem essa coisa de gênero, namorada ou namorado, ela não enxerga mais isso. Qualquer coisa ela já diz: “isso é bullying” ou “isso é racismo”. Ela poderia ouvir e ficar calada, mas fala. A mãe dela [a atriz Alessandra Negrini] também tem um lado muito forte – e não é nem feminista, não sei nem julgar –, mas dentro desse tempo eu acho a Betina bem situada, bem rígida. Elas já estão vindo assim.

Otto em seu apartamento, na região central de São Paulo (Foto: Marcus Steinmayer)

Fui à manifestação do dia 8 de Março na Avenida Paulista [em São Paulo] e vi muitas meninas da idade dela ali, de rosto pintado, segurando cartazes. Você percebe as meninas da geração dela mais atentas a esses temas?

Com a informação que elas têm hoje, vai ser um processo natural essa busca por igualdade. É bonito ver. Passei muito tempo da minha vida – sou de 1968 – num mundo machista, e hoje eu vivo aprendendo a conter esses sentimentos. Tento ser um homem mais dócil.

Você foi criado para ser ‘cabra macho’?

Eu vi meu pai agredir minha mãe e isso mexeu muito comigo. Talvez a minha sensibilidade venha dessas questões. Eu fui criado num mundo macho, pernambucano, duro, mas eu sempre tive uma boa relação, por escolha, com as mulheres. No Recife tinha muito aquelas festas em que ficavam homens de um lado e mulheres de outro, e eu sempre ficava do lado delas. Acho a escolha da mulher mais sensata do que a irresponsabilidade do homem. Tive uma mãe muito parceira, que me mostrou como ela tinha mais força do que a gente, como tinha mais força do que meu pai. Confio muito mais numa mulher política, administradora, do que em um homem. Mas acho que ser homem é uma coisa muito valorosa também. Conheço muitos pais e amantes valorosos – lá mesmo no Nordeste conheci pais de família geniais. Isso também me formou muito. Não foi um exemplo da minha casa, foi o exemplo que vi na vida. E há um valor aí que temos que buscar como homens. Tem coisas das quais me afastei, não consigo ficar numa mesa de bar falando de futebol e de mulher.

Você já disse em algumas entrevistas que às vezes se sente uma persona non grata nesses “clubes do Bolinha” masculinos. Ainda sente isso?

Claro, eu sou isolado [risos]. Eu tive que me afirmar na música, nos lugares, e qualquer coisa neguinho já vinha pra cima de mim. Tive a oportunidade, mesmo não tendo uma família de músicos, de cantar e de tocar, mas eu sempre tive que mostrar muito. Quando fiz meu primeiro disco [Samba pra burro, de 1999], senti que ele veio com uma luminosidade, mas que por não ser muito comercial eu tinha que trazer algo melhor, e aí já comecei a levar lapada. Tem aquela coisa de que primeiro você mata a cobra e depois mostra o pau. Eu mostrei o pau e neguinho fez “olha, sem a cobra não dá”. Fui lá matei a cobra, trouxe a cobra morta. Neguinho disse “Otto, essa cobra podia estar morta”. Agora eu chego matando a cobra na frente de todo mundo, esganando [risos]. Eu tenho que ter essa entrega. Eu canto, danço o show todo, tiro a roupa, jogo água na cabeça. Eu saio morto. Tenho 49 anos e não faço tantos exercícios, é uma luta, mas essa essência muito intensa talvez eu esteja parando. Eu tinha uma gana de virar cantor e de construir um público, eu não era aquele carinha que já era músico desde pequeno, mas agora estou começando a entender que posso ter mais calma porque esses discos já mostraram algumas coisas bem fortes. Eu sou de uma nação, tenho uma música, uma cultura, um público. Existem todas essas mazelas do nosso país, da nossa vida e eu estou aqui para… [pausa]. Eu defendo, eu canto, eu junto gente, eu tenho opinião, o que é até meio arriscado.

Você deixa bem claros os seus posicionamentos políticos.

Mas muito, eu me posiciono, eu sofro pra caramba. Principalmente com a inverdade, a forma como a nossa democracia e o voto foram usurpados. Tivemos um blogueiro sendo conduzido coercitivamente até a Polícia Federal, já começaram a pegar jornalistas. Esse meu disco tem um lado maravilhoso de luz, e outro que eu remeto a 1964, por exemplo, porque se a gente não falar de tortura, de censura, a coisa vai acochar mais. Que a gente fique atento a esse Estado conservador, culpado, covarde, que ataca as minorias. O que mais me pega é que os ricos vão continuar ricos e protegidos, cada vez mais. Mas para isso existe um povo que vai continuar desprotegido e pobre.

É otimista em relação ao futuro?

A arte, mesmo no naufrágio e na tragédia iminentes, é otimista. Somos restauradores do universo e acredito que o mundo se transformará em breve. Esse mundo anda precisando de paz e consciência. O Brasil vai virar essa página triste. Esses caras são as faces conservadoras de um mundo que já mudou, são os últimos canalhas do gênero. Mas virá um mundo novo cheio de esperança e paz.  

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