O chato do vinho

O chato do vinho
  Quem é que, nos cenários psicanalíticos mais diversos, nunca se deparou com o famigerado chato do vinho (château du vin, em tradução livre)? Para ele, cada seminário é uma garrafa da mais nobre cepa; e não apreciá-lo até a última gota, um verdadeiro pecado. Assim, os primeiros seminários harmonizam bem com o cotidiano, ao passo que os últimos... ah!, que amadeirado, que força, quanta elegância! Tal distinção requer anos de prática, narizes estrangeiros e, no mínimo, uma temporada em Paris – não sem, é claro, um requintado combo: um intensivo de sessões in loco com algum analistenólogo renomado. Após tanto tanino, sua língua roxa será o idioma do comboio, o próprio lacanês, essa forma singular e cronificada de glossolalia, que se revela, minimamente, como um fracasso da escuta e uma paródia de transmissão; ou, de fato, como uma transmissão em sentido mais venéreo: afinal, lacanês não se aprende, mas se contrai – como dívidas, doenças ou matrimônios. Em certo sentido, sempre em formação – pois pentelhar também é algo que se apura com o tempo –, o chato do vinho, no exercício da sua práxis parasitária, vive e se engrandece de apontar na comunicação dos colegas as imprecisões tão logo elas surgem: faz valer sua erudição nas referências, datas e citações de Freud/Lacan – a retificação da leitura desviante é a ração que o anima. Entretanto, para além da anedota, essa figura exerce uma função contraditória e reveladora no movimento psicanalítico: a censura seria apenas a sua face mais evidente, po

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