O autocrata não se explica, insulta

O autocrata não se explica, insulta
Não há mais qualquer limite no que um presidente pode ou não dizer em público (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

 

Tudo começou esta semana com um levantamento feito, a partir de dados públicos, pelo núcleo de jornalismo de dados do portal Metrópoles, que apurou que em 2020 o Poder Executivo aumentou o gasto em alimentos em 20% com relação ao ano anterior, apesar da pandemia. Notou também que a lista de compras do ano continha algumas extravagâncias, como R$ 2,2 milhões de despesas em chicletes e 15 milhões em leite condensado. 

Apesar do número impressionante das comprinhas, R$ 1,8 bilhão, trata-se da despesa de todos os órgãos do Executivo durante um ano. Era possível explicar com bom senso e transparência, coisas que, infelizmente, não existem em abundância no estoque deste governo. 

E foi aí que o pudim começou a desandar.

Repetindo uma máxima que ensino aos meus alunos de Comunicação e Política todo primeiro dia de aula, percepções ou imagens são muito mais importantes do que a realidade, uma vez que os fatos ficam lá, na deles, enquanto as percepções, as impressões que formamos, nós as passamos adiante. Impressões viajam mais facilmente e viajam com rapidez, e uma vez que partiram não tem como pegá-las de volta. 

Assim, não importando as verdadeiras razões da lista de compras, possivelmente justificáveis, o fato é que ela pegou muito mal nas circunstâncias em que nos encontramos. Quando aos brasileiros falta quase tudo, uma lista de fazer corar Maria Antonieta causa uma péssima impressão. “Se não tem pão, por que não comem brioche” teria pronunciado a rainha consorte da França, para quem a miséria dos cidadãos às vésperas da Revolução Francesa parecia incompreensível. Ante bombons e creme de leite, da listinha do governo, ouve-se o fantasma da rainha a indagar: “eles não têm oxigênio? Que masquem chicletes! Estão sem auxílio emergencial? Por que não tomam leite condensado?”. E isso lateja na mente do cristão sem auxílio emergencial: R$113 milhões em água de coco, bombons, chantilly, doces, frutas cristalizadas, pizza, vinhos e leite condensado, e ele à beira do desespero. 

Até aí, contudo, ainda havia espaço para esclarecimentos e narrativas, que de narrativas vive este governo. Tudo indica, porém, que a história do leite condensado não caiu bem no bolsonarismo, tal o estado de fúria da tropa de choque. Afinal, acerta justamente onde mais dói neste governo, o populismo. Como o rei da simplicidade, do despojamento, do leite condensado com pão branco como café da manhã, do sanduíche “podrão” comido na rua, o homem ordinário por excelência, pode ser flagrado torrando uma fortuna em chantilly e vinhos? 

Por se dar conta de que como isso se descombina do seu populismo básico é que o presidente foi perdendo a linha que já não tinha, e numa churrascaria (onde mais?) com artistas-fãs e ministros, em vez de esclarecimentos, passou ao ataque. Uma carga de cavalaria, claro, pois esclarecimento e prestação pública de contas é para fracos líderes democratas. Um autocrata por convicção, um autoritário que se respeite, presidente de um país que ainda é democrata, mas a contragosto, não se explica ao público, não presta contas aos cidadãos, simplesmente passa por cima de quem tem esse atrevimento de demandar explicações. O soneto, gravado em vídeo, saiu mais ou menos nesses termos: “vai para a puta que o pariu, porra”. E prosseguiu: “dá para encher o rabo de vocês todos, digo de vocês da imprensa, com essas latas de leite condensado todas aí”. 

No vídeo, vê-se ainda como gargalha sobranceiro o chanceler Ernesto Araújo, este que nos arrumou confusões sem fim com a China e com a Índia, que retaliaram pesadamente na semana passada. Da mesma forma que se consegue ver como a malta de artistas que o segue exulta aos gritos de “mito! mito!”, a ponto de deixá-lo encabulado, assim que a proposta de enfiar R$15 milhões em latas de leite condensado no rabo dos profissionais da “imprensa de merda” é mencionada. 

Pensam vocês que ficou o presidente constrangido quando a opinião pública tomou conhecimento das declarações grotescas do dia anterior? Claro que não. Nesta quinta (28), circulou um novo vídeo em que alguém lhe pergunta sobre o caso do leite condensado, e a resposta veio de um presidente radiante de confiança e com o texto na ponta da língua: “rapaz, eu quero enfiar no rabo de jornalista”. Pronto. Não há mais qualquer limite no que um presidente pode ou não dizer em público. A vulgaridade obscena assentou-se ao Poder. 

Claro, faz tempo que o insulto de baixo calão se vulgarizou na política nacional. Tudo começou, eu acho, no dia em que se considerou aceitável, e um gesto de compreensível de revolta política, quando parte da torcida de um estádio mandou a quase septuagenária presidente da República tomar naquele lugar. Daí em diante foi só ladeira abaixo, até chegar ao ponto em que se resolveu dar a Presidência ao mais vil e vulgar boca-suja da política brasileira.

Incoerente Bolsonaro não foi. Afinal, o seu ídolo confesso era famoso por introduzir ratos e cassetetes nas vaginas de torturadas na ditadura, fios elétricos no ânus de prisioneiros políticos. De forma que as latas que ele quer enfiar no rabo dos jornalistas estão em perfeita sintonia com o que ele é e deseja. Mas, afinal, o que se poderia mesmo esperar do país em que as duas expressões-chaves da política nos últimos dias foram “leite condensado” e “enfiar no rabo dos jornalistas”? 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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