A nossa irrealidade cotidiana

A nossa irrealidade cotidiana
(Foto: Sebastian Gil Miranda)

 

Começamos esta semana com a revelação de uma conversa entre o presidente da República e o senador Jorge Kajuru, de Goiás, em que os dois planejam ações para neutralizar a CPI da Pandemia. CPI, aliás, cuja instalação só se deu por determinação do STF. Além disso, trataram do pedido de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, uma das obsessões de Bolsonaro e do bolsonarismo, que, se pudessem já teriam demitidos e encarcerados todos – com exceção de Kassio Nunes Marques, que lhes parece estar servindo bem aos propósitos e expectativas. Por fim, o chefe de Estado também xinga e ameaça agredir outro senador, Randolfe Rodrigues, do Amapá, autor do pedido de criação da CPI. 

Tivemos, então, no mesmo ato: um presidente em conluio para manipular uma prerrogativa republicana do Legislativo, que é a supervisão do Executivo; um chefe de Estado insultando e ameaçando um membro do Senado Federal, um chefe de governo conspirando contra a cúpula do Poder Judiciário nacional. Como se nada fosse. Em qualquer lugar do mundo com costumes republicanos, isso dava para liquidar qualquer governo. No Brasil de 2021, é só mais um dia normal do bolsonarismo no poder. 

Quando a semana principia a encerrar, chega a notícia da substituição do delegado da Polícia Federal, Alexandre Saraiva, responsável pela superintendência do Amazonas, que na semana passada havia apresentado uma notícia-crime ao STF, denunciando que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se havia aliado a madeireiros para atrapalhar apurações de crimes ambientais. 

Como se sabe, a notícia-crime é um instrumento usado para alertar uma autoridade — a polícia ou o Ministério Público — da ocorrência de um ilícito. Ao que me resulta, em uma sociedade governada por leis, tendo conhecimento de um crime em curso, é obrigação de todo cidadão denunciá-lo, inda mais se quem o comete for uma alta autoridade da nação. Pois Salles, cuja reputação de adversário mortal do meio ambiente alcançou o mundo inteiro, continua firme, mas o delegado dançou. Como antes dele, havia dançado, o fiscal Morelli, lembram? O funcionário do Ibama que em 2012 multara o então deputado Bolsonaro por pesca ilegal na Estação Ecológica de Tamoios, no Rio. O protocolo é este: pune-se o denunciante e agente da lei, protege-se o criminoso. Em qualquer lugar do mundo com uma agenda ambiental (e não há lugar civilizado no mundo sem uma consistente agenda ambiental), isso bastaria para gerar um escândalo sem tamanho. No Brasil de 2021, é só mais uma marquinha na lista da nossa irrealidade cotidiana. 

Não faz muito tempo, me deparei com uma foto de Sebastian Gil Miranda, fantástica em todos os sentidos, que me parece cair como uma luva para uma alegoria do Brasil de 2021 e a convicção disseminada de que, no turno de guarda de Bolsonaro, nada mais é demais. As duas moças, uma delas grávida, em um desses bairros pobres de periferia, estão recostadas em um muro, batendo um desses papos displicentes de fim de tarde, enquanto três policiais, com armamento pesado, já fazendo mira, estão prontos para entrar em combate. Tranquilas estavam, tranquilas ficaram, em uma paz surrealista. 

No Brasil de 2021, somos todos essas moças que observam, ligeiramente entediadas, a guerra que, como soe acontecer toda tarde, passa pontualmente na frente delas. É uma mistura de enfado e resignação. O tédio de quem já “normalizou” o absurdo, e já não se espanta com o inverossímil que cotidianamente nos visita. A resignação de quem, calejado pela vida, sabe que o sobressalto, o desespero e a revolta são, a este ponto, um puro desperdício de afetos e energia, uma vez que o fato que se desenrola diante dos nossos olhos, considerado espantoso em outras circunstâncias, nada tem de singular quando visto à luz do mosaico de horrores de que ele é, tão somente, mais um fragmento. Há tanta imoralidade no bolsonarismo que os nossos sentimentos ficam entorpecidos.

Até quando, Brasil?

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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