Neoliberalismo: o capitalismo como terrorismo

Neoliberalismo: o capitalismo como terrorismo
Buenos Aires, 2004 (Foto: José Ribeiro Junior)

 

As tentativas de compreender e explicar o capitalismo servem ao processo de superá-lo. Está provado que o capitalismo não é justo para a maior parte das pessoas que habitam o mundo porque o acúmulo do capital nas mãos de poucos seres humanos, alguns indivíduos e suas famílias, em detrimento da imensa maioria da população mundial, uma grande parte em estado de inanição, implica processos de exploração do trabalho humano e de apropriação indébita do patrimônio universal, incluso o imaterial, marcados por processos de injustiças sociais e políticas até o extremo da violência.

De fato, o termo “terrorismo” é complexo. Trata-se de um termo impreciso e até mesmo não recomendável segundo alguns teóricos, pois seu uso implica aspectos emocionais e uma espécie de compulsória acusação ao opositor. Assim, é como se o termo fosse pouco objetivo para tratar de certos fenômenos. Deste modo, o discurso de vários Estados muitas vezes denominarão como “terroristas” os grupos e os atos dos seus opositores, tratarão a esses opositores como inimigos enquanto, ao mesmo tempo, serão capazes de praticar atos que serão definidos como “terrorismo de Estado”, colocando o próprio Estado acusador em uma posição de evidente contradição.

De qualquer modo, podemos usar uma definição muito básica para seguir com essa exposição. Tomemos por terrorismo a promessa da violência, a ameaça de sua irrupção a qualquer momento, de uma maneira que não poderá ser prevista e nem controlada. O terror é fundamentalmente o domínio do medo gerador de violência em um contexto político. A violência que se realiza a partir dessa promessa, ela mesma geradora de um clima mental e intersubjetivo, é o que podemos denominar terrorismo.

Em um clima de terrorismo, as pessoas se sentem sob ameaça. Na ameaça, elas sentem medo e, ao sentirem medo, sentem também ódio do objeto que seria o “motivador” do medo. O ódio contra o “diferente”, sejam os estrangeiros, os pobres, os “negros”, os “muçulmanos”, os “judeus”, “os comunistas”, os “esquerdistas”, as pessoas fora dos padrões da heterossexualidade compulsória, e até mesmo fora dos padrões da plasticidade corporal (todos os que estiverem fora do paradigma da estética burguesa aplicado ao corpo e às vestimentas) se torna inevitável nesse processo.

Em outras palavras, o ódio é o efeito esperado no clima de medo promovido e administrado pelo sistema que necessita do medo e que impinge o terror para produzir medo. O círculo vicioso é visível. Natural que se promova nesse processo o terror contra as pessoas que se opõem ao sistema que produz a opressão. O terror é a tática de acuamento que tende a funcionar para os fins do poder.

Assim, quem for crítico do sistema do terror já é alvo de ameaças. Em nossa época, há muitos agentes do que podemos chamar de terrorismo voluntário, pessoas que trabalham gratuitamente para a máquina do terrorismo digital da internet, por exemplo. Pessoas que operam tentando fazer com que os críticos desistam de permanecer no fórum digital. A intolerância deve ser uma regra desse terrorismo digital praticado por milícias pagas, bots, voluntários etc. O terrorismo, nesse caso, é aplicado a todos os que pensam. Contra professores, intelectuais e todas pessoas que possam contrapor-se por atos de linguagem ao poder-violência do terrorismo. Há quem esteja com medo de pensar porque pensar reflexivamente se transformou em uma ameaça.

O terror sempre foi uma metodologia política muito eficaz para o controle dos insurgentes e das populações como um todo que costumam, na condição de massa, dar respostas muito fáceis aos seus manipuladores. Também foi utilizado para o controle das “elites”. O exemplo mais conhecido na história é o período do terror na Revolução Francesa no final do século 18, quando a guilhotina se tornou o mecanismo que impunha o medo. O terror foi usado pelos revolucionários, mas logo foi praticado pelos conservadores que governaram depois da queda de Robespierre.

Uso esse exemplo para afirmar o seu caráter de metodologia política usada pelo poder. Mas há muitos outros. O que as mulheres viveram na passagem do século 15 para o 16 na Europa, a chamada “caça às bruxas”, também foi um metodologia de terror. A perseguição, as ameaças a indivíduos e, por fim, a ameaça generalizada a tudo e todos é a sua característica.

O terror nem sempre se escancara ou espetaculariza. Por exemplo, podemos dizer que os judeus na Alemanha nazista viviam em um regime de terror, que os críticos da ditadura militar nos países da América Latina viviam controlados pela ameaça, como vivemos hoje no Brasil. O terrorismo é também um clima na imprensa. Jornalistas que trabalham em empresas de comunicação que servem às ditaduras têm medo de ir contra seus patrões, não apenas pela ameaça da perda de emprego, mas muitas vezes por violências muito piores.

Ideologia e terror

Não é difícil compreender o terror como tecnologia política. O clima mental e concreto de medo, de ameaça de violência serve à manutenção da ideologia do poder vigente. A ideologia é a parte mais sutil do terror, que serve para controlar a sua aceitação em um nível mental e afetivo. Espera-se que as pessoas estejam alinhadas intelectual e emocionalmente à ideologia e, se não estiverem, o terror pode se fazer necessário, como no extremo, a prática real da violência e não apenas a sua ameaça.
Ora, o capitalismo é uma ideologia econômico-política. Para funcionar, ela precisa ser introjetada mentalmente, psiquicamente, também fisioteologicamente.

Introjetamos essa ideologia por diversos caminhos. Em primeiro lugar, somos seduzidos. Aprendemos a gostar desde crianças do estilo de vida do “consumo” que nos soa prazeroso. O consumismo conta com a eterna infantilização de pessoas que querem ter desejos realizados imediatamente e de maneira mágica. Passar para a crença fácil na “terra plana” e teorias similares é sinal de infantilização cognitiva que contenta muita gente nesse momento.

Mais tarde saberemos que há preços a pagar na ideologia da produção e da servidão aos donos dos meios de produção. É a fase em que se tem que trabalhar, colaborar, obedecer. Nessa fase entra em cena o assédio. Quando nossos desejos não podem ser contemplados temos que aprender a aceitar. Somos então assediados diariamente pela publicidade, pela televisão, pelo dever de colaborar, de fazer, de comprar, de lucrar e de gastar. O grande assédio é praticado na base da razão publicitária. Não vemos o processo de assédio porque a presença da propaganda em nossas vidas foi naturalizada. Em todos os lugares somos condenados a ela.

Antes de seguir, gostaria de deixar claro que não estou falando pura e simplesmente contra a propaganda, nem contra a publicidade como área de trabalho, no sentido de sustentar sua eliminação. Também é preciso deixar claro que é possível que pessoas adultas e prevenidas possam até controlar os níveis de presença da publicidade em suas vida. Não podemos esquecer no entanto que nem todos são adultos e muito menos precavidos.

Há um nível que vai além do assédio, é o da intimidação. Quando o gerente do banco liga pedindo que se compre um seguro e sentimos medo de não comprar, medo de perdermos alguma vantagem ou o respeito e a possível ajuda do referido gerente, já estamos avançando na esfera do assédio rumo à intimidação. Bom lembrar também que assédio não é apenas algo sexual. Assédio é toda forma de pressão que não nos deixar outra alternativa senão ceder ou sofrer com as consequências.

O preço da visão

Aqui vou citar o exemplo do cinema: se hoje vamos ao cinema, compramos um ingresso para ver um filme e, antes do filme, somos obrigados a ver propagandas. Somos obrigados a ver, mesmo que não tenhamos pago para ver. No entanto, ela não é de graça como finge ser. Ela cobra o nosso tempo de visualização. No mundo da mídia, o tempo da visualização tem preço. Na televisão a audiência define patamares de investimentos publicitários em programas e horários financializados justamente em função da visualização. Em plataformas como Youtube, a condição de visualização é óbvia para a presença de propaganda. Isso significa que se trata de uma indústria e de um mercado em que a produção e o consumo, bem como o lucro são produzidos por quem parece estar apenas se divertindo. Mas se trata também do fato, nunca divulgado, de que nosso olhar tem preço. De que as horas dedicadas diante de telas envolvem capital. O olho das pessoas está sendo assaltado a todo momento.

O direito de não ser invadido, de não ser assediado pela propaganda é o que está em jogo em nossa época.

Esses mundo da produção visual em seu esquema de apropriação indébita de nossa visão e de nossos corpos nos serve para pensar o todo da produção. Seja a produção digital, dos escravos digitais de nossa época, aqueles que voluntariamente foram “capturados” na grande máquina da internet e das redes (além dos que ganham dinheiro com isso, se aproveitando da máquina), seja a produção analógica, todos estão submetidos aos donos dos meios de produção do capital.

Onde está o terrorismo? No caráter inescapável que lhe configura também como um totalitarismo. No âmbito da vida digital o terrorismo está na ameaça de que seremos apagados, eliminados da vida se não estivermos integrados na internet, no Facebook ou nas redes sociais. No âmbito da vida analógica, o terrorismo está na proibição peremptória de estar em desacordo, de criticar ou de imaginar um outro mundo possível. Usar, portanto, clichês como “comunismo”, “marxismo”, “esquerdismo”, “feminismo”, “ideologia de gênero”, “pedofilia” e outros clichês com conteúdo negativo, como ameaças, como fatores produtores de medo é parte do terrorismo difuso do capitalismo.

A produção de mentiras, de campanhas de difamação por fake news geram uma clima de pavor e de insegurança em pessoas ingênuas – aquelas que acreditam, por exemplo, que comunistas estão prontos para “comer criancinhas” ou outros clichês bizarros – antes de se chegar ao limite de assassinar líderes democráticos indesejáveis tais como indígenas, líderes comunitários ou, para citar o exemplo que emociona o mundo, uma liderança como Marielle Franco.

O terrorismo é parte do caráter totalitário e autoritário do capitalismo que, em sua forma neoliberal, não permite a diferença. Não permite a democracia e, ao mesmo tempo, precisa criar um clima de desnorteio para que ninguém mais seja capaz de se questionar sobre o estado injusto das relações econômicas. O capitalismo é terrorismo como psicopoder em estado puro.

A natureza

Por fim, é preciso dizer que a exploração destrutiva da natureza também é um aspecto que faz parte da história do capitalismo que devemos colocar no cômputo das ações atuais do neoliberalismo. O neoliberalismo é a forma histórica assumida pelo capitalismo atual como ideologia política de feição terrorista. A destruição da natureza, das florestas pelo desmatamento, dos rios e mares pela poluição, do subsolo pela exploração de metais, do solo pelo abuso de agrotóxicos e das espécies não-humanas por todos os fatores anteriores ameaçam de extinção também, em um efeito bumerangue, toda a espécie humana.

O capitalismo se revela como extremismo no momento em que permite a exploração sem limites e o vale tudo em todas as esferas da ação sob a máscara de um livre mercado. Nada lhe escapa. A natureza sempre foi explorada e a história do capitalismo se confunde com sua destruição. Mas a ameaça contra a natureza – no contexto de tantas catástrofes pontuais e da grande catástrofe climática por vir – é parte das práticas de terror que assolam o mundo hoje e que a todo custo é escondida pelos interessados no puro lucro e no puro capital.

Nessa perspectiva, se descarta a natureza diariamente como um fator fundamental de nossas vidas e, todos os governantes que não se responsabilizam por isso, sabem que participam da destruição do mundo.

Leia a coluna de Marcia Tiburi às quartas, quinzenalmente, no site da CULT

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