Multidão

Multidão

Sabendo que o Facebook bloqueou a minha página, gostaria de protestar pela liberdade de pensar e dizer sem a qual não existe democracia. O post abaixo surge em nome do  desejo de diálogo que está na base de todo desejo de democracia.

Multidão

A perplexidade das pessoas diante dos acontecimentos em nosso país tornou-se um sentimento comum, no entanto não parece ser o afeto que unifica a multiplicidade de forças que estão em jogo. A perplexidade de quem nunca viu coisa parecida é menor do que o desejo geral de democracia que, no entanto,  parece estabelecer um curioso estado de sítio no cotidiano atual. Alguns se mostram assustados, outros cansados, outros animados, mas ninguém pensa que é preciso recuar. Um outro poder foi descoberto e ele, que para muitos é alegre e convidativo, aguerrido e corajogo, para outros causa medo e estranheza.

Talvez que este medo venha do fato de que estejamos sitiados por nós mesmos, por um desejo de mudança que se faz, de repente, urgente agora, para aos poucos voltar-se ao que é essencial e que requer mais trabalho, outros diálogos (afinal diálogos), uma reconstrução da sociedade brasileira em novos termos políticos e econômicos. É preciso pensar no que há de vir, pois a irrupção deste desejo democrático não nos fará os mesmos por mais que, ao fim e ao cabo, seja possível que tudo fique mais calmo.

Quem tinha lido o belo livro de Micheal Hardt e Antonio Negri chamado “Multidão” (publicado em 2005 pela Record) quando os protestos começaram não deve ter estranhado tanto. O livro de Hardt e Negri fala dessa nova formação política e democrática que não é a simples massa, nem o mero povo, figuras mais conhecidas da velha teoria política acostumada a explicar o mundo em termos de soberania (ou seja, de quem detém o poder). O que o livro vem explicar é a existência da “singulalidade” no contexto da multiplicidade, como se todo mundo e cada um fosse soberano em si mesmo. Na multidão cada um continua sendo “singular” e ao mesmo tempo “partilha” algo de comum. Os laços democráticos implicam a construção do “comum”. Quem inventou as redes sociais (e até o facebook que se mostra tantas vezes fascistóide) não podia imaginar que ele poderia ser usado contra os jogos de poder que só funcionam sob violência simbólica e submissão. Acabou a submissão e a violência apareceu como sintoma de uma sociedade de violência muito mais profunda.

Penso que nestes últimos dias a face morta do poder político mostrou a sua cara na queda da máscara do cinismo que até agora nos governou. Um círculo cínico foi rompido por aqueles que, na qualidade de otários, cansaram de um papel que não elegeram para si. A polícia foi e é o retrato da falência do poder, assim com qualquer violência que se antepõe a qualquer diálogo. A imprensa, depois de muitas cirurgias plásticas  tenta adequar-se com cuidado ao novo corpo social para não sair perdendo de vez o seu assegurado lugar no círculo cínico da ordem dominante. Renovar a máscara será difícil na era das redes abertas e da democracia sem limites.

Alguns anos atrás, mais precisamente em 2008, escrevi um livrinho chamado “Filosofia em Comum”. O conceito de comum que eu visava dizia respeito ao que está “entre nós” e que só pode ser construído pelo diálogo.

O diálogo é a grande contribuição da filosofia para nosso tempo.

E eu espero que criemos espaço para o diálogo, pois o diálogo é o que nos recria, nos torna lúcidos, abertos, humanos, comunitários. O diálogo está para o comum, como o desejo de democracia está para a multidão.

Eu, que apesar de todos os pesares, me emociono e me estarreço com o que vejo, sabendo que estamos mergulhados no mar dos afetos, espero que façamos da nossa razão o mais potente dos afetos.

O diálogo é o meio livre de violência para o qual precisamos criar espaço se quisermos um outro mundo melhor do que esse que conhecemos até aqui.

 * Num mundo melhor a imbecilidade de uma ideia como a da cura gay se curará com um beijo:

Banksy

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