Monumento às claras

Monumento às claras

Erico Verissimo declarou, diversas vezes, que escrevia para fazer amigos, leitores; trata-se do mais legível de nossos clássicos

Erico Verissimo não tinha um grande segredo. Eis seu maior charme. Muitos artistas, por trás da obra que produzem, trazem um inferno silencioso com o qual criam uma espécie de segunda personagem, para além do próprio artista que foram, artista consumido sem sobressaltos. Ou com os sobressaltos, naturalmente, que a obra – se for boa – trará. Mas sempre há revelações que acabam, muitas vezes, involuntariamente, jogando um charme que a obra não tem, ou retirando dela, tanto quanto possível (não esqueçamos que entre vida e obra há um limite a ser respeitado), a legitimidade em que todos apostavam até o dia de o tal segredo vir à tona.

Erico livra-nos dessa maldição, e sua glória é ter sido um homem franco e de fácil convivível sob todos os aspectos (familiares e entre seus pares literários). Daí que não nos surpreenda o conjunto de sua ficção abrir-se com o primaveril Clarissa, num registro que soa intencionalmente de um realismo muito direto perante a inocência e os limites (e falta deles, às vezes) de uma adolescente interiorana convivendo com a fauna humana da pensão da tia na capital. Se algumas observações podem sugerir algum tipo de ingenuidade, vem ela toda da própria Clarissa. Erico jamais cometeria o crime ficcional de interferir na consciência de suas personagens.

Seu primeiro livro de fato é Fantoches, publicado um ano antes de Clarissa, mas aí se trata de um livro de experiências, no qual narrativas breves, algumas em forma de drama, como esquetes para teatro, apresentam todas as influências do autor ainda em formação. Ibsen, Pirandello, Anatole France… Influências, aliás, que bem dizem da época.

A desigualdade do livro, praticamente não apontando para nenhuma direção, não combina com um espírito tão severo consigo mesmo quando se trata de Erico, um artista de certa forma programático, que cumpriu sem reservas alguns ciclos facilmente identificáveis e homogêneos, ainda que no conjunto que os marca haja – impossível que assim não fosse – obras maiores e menores.

A partir de Clarissa, na primeira fase da carreira do escritor, identificamos o ciclo urbano de Porto Alegre, que inclui ainda Caminhos cruzados, Um lugar ao sol, Olhai os lírios do campo,
O resto é silêncio e o temporão (por muitos subestimado) Noite. De um ciclo à parte, de revisão histórica sulina, é O tempo e o vento, segunda fase de Erico e sua maturidade literária, embora Incidente em Antares, seu último romance publicado (1971), possa ser incluído na mesma vertente. E há, em sua ficção, o ciclo político, em que O Senhor Embaixador e O prisioneiro pontificam, aos quais o próprio Incidente… poderia se somar, fazendo esse, assim, parte de dois ciclos.

Na primeira fase, dois livros – Música ao longe, no qual Clarissa retorna à cidadezinha interiorana de Jacarecanga, terra natal da menina, e Saga, em que Vasco Bruno, antifranquista, vai lutar na guerra civil espanhola pela Brigada Internacional – são obras que fogem um pouco a essa classificação mais rigorosa. Entretanto, mesmo neles há elementos que conduzem ora para um ciclo, ora para outro. Erico realizava nesses romances, quem sabe involuntariamente, a passagem de um mundo a outro, mundos que fixaria com vasta riqueza de nuances anos mais tarde.

A segunda fase na obra de Erico coincide com suas primeiras (e logo constantes) idas aos Estados Unidos. Em 1941, vai, por três meses, a convite do Departamento de Estado americano, realizar conferências em várias regiões do país. Dois anos mais tarde, retorna, dessa vez para fixar residência. O mesmo Departamento convida-o para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde passa a morar. Em 1944, leciona Literatura e História do Brasil no Mills College, em Oakland, Califórnia. Publica, nesse ano, seu primeiro livro escrito diretamente em inglês, Brazilian Literature: An outline, “Breve história da literatura brasileira”, que sairia em português postumamente, 50 anos mais tarde, em tradução de Maria da Glória Bordini. Quinze anos depois da primeira viagem aos EUA, a filha, Clarissa, casa-se com um físico norte-americano.

Dessas constantes viagens, resultam – além de três netos norte-americanos – livros, sem favor algum, situados entre o que melhor produziu a memorialística de viagem em língua portuguesa saída da pena de nossos ficcionistas: Gato preto em campo de neve, A volta do gato preto e México (este, com vinhetas do próprio autor, que gostava de desenhar e várias vezes declarou-se um desenhista frustrado).

É a mesma época em que começa a sair O tempo e o vento, a princípio planejado para ser “só” um “romanção” de 800 páginas, com o título provisório de Caravana, e ao qual o escritor pretendia dedicar três anos. A obra toma o vulto que hoje se conhece e consome 14 anos de trabalho de Erico. Em 1961, quando já está escrevendo o último tomo da terceira parte, O Arquipélago (em três volumes), sofre o primeiro infarto do miocárdio, o que adia para o ano seguinte o final da trilogia.

Saúde abalada, passa a dedicar-se a caminhadas diárias – até o último e fulminante infarto – no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Lá adquirira, em 1941, a casa da Rua Felipe de Oliveira, onde parte da família Verissimo mora até hoje (o filho Luis Fernando Verissimo, a nora e os netos brasileiros).

Quando publica o primeiro volume (1973) de suas memórias, Solo de clarineta (poucas obras autobiográficas constituirão um roteiro de vida tão honesto e pontual, poucas serão tão isentas e até injustas, às vezes, na avaliação dos atos do personagem principal: Erico, de fato, não se admirava, como disse certa vez, embora se amasse), trabalha no projeto de um romance, A hora do sétimo anjo, no qual não chega a ir adiante.

Dois anos após esse primeiro volume, à noite, em 28 de novembro de 1975, vem a falecer, vitimado pela doença cardíaca que não lhe dá a mínima chance de socorro. No ano seguinte, Flávio Loureiro Chaves, professor de literatura, crítico e amigo do autor, organiza os originais bastante adiantados do segundo volume de Solo de clarineta e o livro é publicado.

Em seu tempo, décadas de 1930, 40, 50, 60 e 70, Erico foi muito lido. Durante 50 anos, dividiu com Jorge Amado o cetro da popularidade nacional. Nas décadas de 60 e 70, além dele e Amado, José Mauro de Vasconcelos (quem, na faixa dos 50 anos, não lembra de Meu pé de laranja-lima?) formava o trio de os únicos autores brasileiros a viverem de direitos autorais. Seu primeiro sucesso de vendas foi Olhai os lírios do campo (1938) – seis anos apenas após a estréia com Fantoches (500 exemplares vendidos) –, que o tornou um autor com características profissionais, o que era uma raridade no Brasil. Seu primeiro reconhecimento crítico, embora discreto, foi Caminhos cruzados. Na primeira fase, o conjunto de sua obra foi que o impôs. Na abertura da segunda fase, com a publicação, aos 44 anos de idade, de O Continente, Erico explodia na direção de todos os gostos, dos mais modestos aos mais refinados.

A crítica, que até então o via com olhos enviesados, imaginando residir ali um ficcionista dedicado apenas a melodramas com dignidade, se bem que escritos com um rigor atenuado pela leveza trabalhada e numa elegância que acabava por fingir uma facilidade só aparente, curvava-se aos poucos à importância dessa obra já mais que numerosa. Significativa mesmo.

Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982, confessou, mais de uma vez, em livro e pessoalmente ao roteirista Doc Comparato, que em O Continente, mais especificamente o episódio O sobrado, uma das partes que atravessa, em seis capítulos, o primeiro livro da trilogia O tempo e o vento, encontrou (além de igualmente ter-se inspirado na Bíblia e em As mil e uma noites) a atmosfera para Cem anos de solidão. Aliás, o primeiro título da obra-prima de García Márquez seria “A casa”. A Academia Sueca atrasou-se (O Continente saiu em 1949) em 33 anos.

Paulo Bentancur
escritor e crítico literário. Autor de Instruções para iludir relógios (1994) e Frio (2001), contos, e da coleção infanto-juvenil Brincando de pensar (Artes e Ofícios, 2001). Atualmente, escreve uma biografia de Erico Verissimo

Bibliografia Básica

OBRAS INFANTIS E JUVENIS
A vida de Joana d’Arc, 1935
As aventuras do avião vermelho, 1936
Os três porquinhos pobres, 1936
Rosa Maria no castelo encantado, 1936
As aventuras de Tibicuera, 1937
O urso com música na barriga, 1938
A vida do elefante Basílio, 1939
Aventuras no mundo da higiene, 1939

Outra vez os três porquinhos, 1939
Viagem à aurora do mundo, 1939

ROMANCES URBANOS
Clarissa, 1933
Caminhos cruzados, 1935
Música ao longe, 1935
Um lugar ao sol, 1936
Olhai os lírios do campo, 1938
Saga, 1940
O resto é silêncio, 1942
Noite, 1954

ROMANCE HISTÓRICO
O tempo e o vento
O Continente, 1949
O Retrato, 1951
O Arquipélago, 1961/2
ROMANCES POLÍTICOS
O Senhor Embaixador, 1965
O Prisioneiro, 1967
Incidente em Antares, 1971

CONTOS
Fantoches, 1932
As mãos de meu filho, 1942
O Ataque, 1959
Galeria fosca, 1987

NARRATIVAS DE VIAGEM
Gato preto em campo de neve, 1941
A volta do gato preto, 1946
México, 1957
Israel em abril, 1969

ENSAIOS
Brazilian Literature: an Outline, 1945
Breve história da Literatura Brasileira, 1995

BIOGRAFIAS E MEMÓRIAS
O escritor diante do espelho, 1966
Um certo Henrique Bertaso, 1972
Solo de clarineta I, 1973
Solo de clarineta II, 1976

Obras Sobre Erico Verissimo

• Chaves, Flávio Loureiro (Org.). O contador de histórias: 40 anos de vida literária de Erico Verissimo. Porto Alegre: Globo, 1981

• Chaves, Flávio Loureiro. Erico Verissimo: o escritor e seu tempo. Porto Alegre: Ufrgs, 2001

• Gonçalves, Robson Pereira (Org.). O tempo e o vento – 50 Anos. Santa Maria, Edusc & Editora Ufsm, 2000

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