Meritocracia: uma meditação sobre o novo rico e a vergonha de ser pobre

Meritocracia: uma meditação sobre o novo rico e a vergonha de ser pobre
O poder do mérito desenvolveria uma sociedade de vencedores e vencidos, como defendem autores neoliberais (Reprodução)

 

Houve um tempo em que não se falava de classes sociais. Era preciso insistir que elas não existissem. De um lado para que a desigualdade não aparecesse, de outro para que não aparecesse algo ainda mais triste, a vergonha por ser objeto da opressão que atinge muita gente.

A vergonha surge e ela mesma é ocultada em uma sociedade na qual o reconhecimento não existe.

A chamada classe média baixa é a mais triste herdeira da miséria espiritual  que está no cerne das classes donas do capital. Por miséria espiritual entendemos um conjunto de afetos e posições políticas que vão da inveja à destrutividade, do analfabetismo político à prepotência, do complexo de inferioridade disfarçado de superioridade ao punitivismo jurídico ao qual se adere com facilidade para se parecer moralmente bem situado.

Quando falamos em capital, referimo-nos geralmente apenas ao capital econômico. Mas considerando que o capital é cada vez mais um problema também cultural, devemos falar de todo um contexto de “valores” que se tornam mais ou menos valiosos para as pessoas e que se encarnam nelas mesmas. Quero dizer que, por exemplo, no contexto da sociedade do espetáculo, a imagem também é capital, e o fato de “parecer” pode ser mais importante do que o fato de “ser”.

Surge nesse contexto uma questão: como é possível que pessoas marcadas por opressões de raça, classe, gênero e sexualidade possam se posicionar contra aquilo que as liberta e, em contradição consigo mesmas, favorecerem em suas posições aqueles que agem de maneira opressiva contra elas?

Certos exemplos podem nos ajudar a pensar nisso de maneira resumida: uma jovem negra que xinga feministas negras e apoia para presidente um candidato racista e machista, um cidadão homossexual que apoia um candidato homofóbico, um homem pobre que apoia um empresário que age contra direitos trabalhistas, e por aí vai.

A adesão dos oprimidos à ideologia do opressor continua sendo um mistério, mas podemos e devemos pensar no que realmente pode estar por trás disso.

Meritocracia

O que vem sendo chamado de meritocracia faz parte desses processos. O poder do mérito desenvolveria uma sociedade de vencedores e vencidos, como defendem autores neoliberais. Sorte de quem for vencedor, azar de quem for vencido. Mérito é um termo usado para falar dos ricos que já são ricos e podem se tornar ainda mais ricos, e dos pobres que conseguem se tornar cidadãos de classe média e que mudam de condição econômica. Foi a ascensão do que conhecemos como sendo o “novo rico”, aquele grupo que deu um salto econômico em termos de classe, que trouxe à moda a ideia de mérito.

O novo rico, um tipo de classe média, se constitui como uma classe amparada na imitação dos muito ricos, seus hábitos, usos e costumes. Toda classe média baixa sofre a influência dessa estética e hábitos. O novo rico aproveita do “aparecer” com o objetivo explícito de enganar menos os outros do que a si mesmo. Por isso, quando melhor remunerado, quando alcançou o capital, ele compra logo os signos da riqueza: o carro de marca, a casa em Miami, o restaurante da moda, o relógio, a bolsa, a viagem. Mas o novo rico é um modelo e cada classe é “nova rica” à sua maneira. Cada um compra o que pode. Se não der pra tudo isso, pode ser o óculos escuro do camelô no lugar do de marca, pode ser a camiseta da loja do shopping no lugar da casa em Miami ou um tênis no lugar do carro.

Há quem ria dessas pessoas com maldade. Mas não se deveria rir daqueles que, na verdade, escondem um profundo sofrimento no seu ensejo de parecer, no tempo presente, algo que não foram no passado. A ideologia da “resiliência” vai junto com a meritocracia e todos defendem a “superação”. Por trás disso, muita vergonha e o sofrimento que ela carrega devem ser recalcados.

A classe média baixa, aquela que tem acesso aos produtos de “qualidade” variável conforme seu poder de compra, inclusive aos produtos da indústria cultural de “qualidade”, é fruto do paradigma capitalista que oprime e seduz ao mesmo tempo. O medo de perder o que se conseguiu por meio de sacrifícios e esforços – mesmo que o que se tenha conseguido seja muito pouco comparado aos realmente ricos -, coloca muitas pessoas inconscientemente a serviço da ideologia meritocrática, ela mesma uma forma de autodefesa simbólica para quem tem poucas chances concretas de ascensão econômica ou social.

Vergonha

A vergonha de se ser pobre convoca a essa ideologia. Ela obriga muita gente a tentar parecer o que não é. Mas isso é compreensível. Um carro pode representar muita coisa na vida de quem não tem nada e, ao não ter, se sente também um “nada”. Do mesmo modo, com objetos até menos valiosos do que um carro: uma televisão, uma geladeira, um computador ou apenas uma roupa nova podem trazer alento existencial para quem perdeu, ou foi sequestrado de si mesmo. Um emprego – com a ideia de uma “posição social” – pode ser o que há de mais valioso conforme o poder que não se tem. As pessoas tendem a se medir pela posses, pois os bens são um sinal de segurança e status em uma sociedade na qual coisas valem demais e, certamente, mais do que as próprias pessoas.

As pessoas passam a se medir pelos bens, pois assim aprenderam com o capitalismo que primeiro as mediu como coisas, que primeiro as colocou na condição de mercadoria. O que é um ser humano para o capitalismo, senão um objeto útil, uma força de trabalho descartável? Podemos então culpar as pessoas pela miséria espiritual em que vivem e que ajudam a fomentar se ela é a própria lógica do sistema? Não teríamos que mudar o sistema para mudar esse modo de ser das pessoas?

Ainda sobre a classe média, quem consegue mudar de classe social, muitas vezes faz questão de esquecer de onde veio. O pertencimento a uma classe é para muitos sinônimo de sofrimento. A vergonha é um plus de sofrimento para quem já sofre com a miséria e a pobreza. Melhor esquecer a vergonha e acreditar na ilusão. Quem negaria que é melhor usar o esquecimento como uma virtude quando o que está em jogo é a urgência de sobreviver, inclusive subjetivamente?

Por outro lado, há quem seja capaz de “capitalizar” a própria pobreza e, nesse caso, temos que voltar à análise dialética de uma sociedade na qual tudo e todos se transformam em mercadoria. Nem todos conseguem se reconciliar com a vergonha e enfrentar a crítica social e cultural necessárias em uma situação dessas, muitos preferem recalcá-la. Não se deve julgar uma pessoa por isso, mas antes, investigar o que está em jogo para buscar transformar esse cenário.

Só assim conseguiremos devolver os cidadãos à luta política que lhes dá dignidade real.

(8) Comentários

  1. Acho que vale a pena procurar a noção de meritocracia nas concepções de relação com o trabalho e a ascensão na carreira.

  2. Márcia, eu penso exatamente como você. Como consultor do Sebrae e professor universitario, convivo e combato diariamente esses modismos tais como “meritocracia” e “resiliência”….mas sou muito criticado e até perseguido….Mas, como bom escorpião, procuro “esfregar na cara” dos “imbecilizados” o quanto eles são manipulados, enganados e descartados! Falei!
    Abraços!

  3. Márcia, nós estamos caminhando a passos largos para o fim da humanidade, da condição de sermos humanos.
    Há muito que deixamos de ser o sujeito da nossa história, se é que ainda há uma História.
    Fui professor do ensino fundamental, e assisti, com a razão e os sentidos,
    a partir do começo da década de setenta, que o poder estava sendo subtraído de nós enquanto cidadãos e profissionais. Ao passo que nos transformávamos em meras peças descartáveis e facilmente substituíveis.
    Quase nada mais importa, infelizmente. Daria, até, para dizer que voltemos aos tempos de Platão e o que se vê são sombras.

  4. Como não ser um objeto num mundo abjeto, onde os poucos que tem, tem muito e ainda querem muito mais, onde o que tem mais valor são as posse e não as pessoas com suas nuances e situações muitas vezes mais e mais

  5. Chamou-me atenção a frase “um homem pobre que apoia empresário que age contra direitos trabalhistas”…, De fato, é algo que não dá para entender porque o oprimido apoia e até se torna também um opressor quando passa a ter poder sobre um subalterno. Márcia, seu artigo, ao falar do poder de uns sobre outros; de exploração da indústria cultural, nos reporta a obra de Paulo Freire “Pedagogia do oprimido” em que o oprimido introjeta em si o opressor e assim passa a oprimir também os seus iguais e, da obra do também filósofo Adorno, chamada “Indústria cultural”. É, infelizmente acontece essas coisas complexas

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