Marina Lima é cientista de colagens e afetos em “Ópera Grunkie”

Marina Lima é cientista de colagens e afetos em “Ópera Grunkie”
Marina Lima (Crédito: André Hawk/Divulgação)

 

 

“A imprensa diz que tenho 18 álbuns, mas tenho 22”, observa Marina Lima ao comentar sobre o trabalho mais recente de sua carreira: Ópera Grunkie. Parte das celebrações de seus 70 anos, completados em setembro, o disco nasce de um período intenso vivido pela cantora desde o lançamento do álbum anterior, há oito anos. Entre os acontecimentos que marcam o novo trabalho está a perda de seu irmão e parceiro musical, o poeta, compositor e filósofo Antonio Cicero. Em 2024, diante do declínio cognitivo provocado pelo Alzheimer, ele decidiu realizar um procedimento de suicídio assistido na Suíça, onde a prática é legalizada.

Em entrevista à Cult, por videochamada, Marina conta que recebeu um telefonema de Cicero – diretamente da Suíça, dois dias antes do procedimento –, comunicando sua decisão. A irmã foi a única pessoa da família com quem ele falou naquele momento, embora tenha enviado cartas de despedida a pessoas que definiu como “os amigos mais íntimos”. “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade”, escreveu o poeta.

Marina Lima e Antonio Cicero (Foto: @marinalimax1/Instagram)

Segundo Marina, foi uma escolha pensada com cuidado: “Cicero foi para lá porque achava que, para ele, tinha dado. Não era um ato de desespero.”. Ao recordar a despedida, a cantora afirma que, embora tenha ficado – ela, sim – desesperada diante da perspectiva de perder a última pessoa de sua família, compreendeu sua decisão. “Somos irmãos na vida e na arte”, ela reafirma o vínculo entre ambos.

Para Marina, a decisão de Cicero também contribuiu para ampliar o debate público sobre a morte assistida no Brasil, especialmente devido a sua projeção como poeta e membro da Academia Brasileira de Letras. A própria cantora passou a integrar a organização Eu Decido, que defende a legalização da prática no país.

“Ópera Grunkie”, novo álbum de Marina Lima


Parte do desejo de criar Ópera Grunkie surgiu como uma forma de atravessar momentos desafiadores como esse. “O que me levou a sentir urgência em fazer esse disco foram as músicas, as melodias e o mar, porque, para mim, a música é o mar. Era um mar revolto, com ondas grandes, e eu precisava dar conta daquilo para atravessar, nadar e sair viva”, afirma a artista. 

Nesse novo trabalho, Marina reúne diferentes estilos musicais, trechos de poesia e áudios extraídos do WhatsApp. Segundo ela, o título já buscava expressar o caráter singular do projeto: “Logo vi que esse disco seria muito diferente, uma quebra de paradigma na minha história; portanto, difícil de as pessoas entenderem. Achei melhor, então, já colocar no título que o disco é uma ópera”. Nesse contexto, “ópera” se refere à ideia de uma obra estruturada como narrativa, com introdução, desenvolvimento e desfecho.

Já o termo “grunkie” refere-se ao grupo de pessoas com quem a cantora se identifica: gente leve, engraçada, imprevisível e talentosa. A expressão foi criada pelo ator e músico Pablo Morais, que também colabora com o álbum, e acabou sendo incorporada ao vocabulário de Marina Lima para se referir ao seu círculo mais próximo de amigos. Ao incluir o termo no título do disco, a cantora buscou sinalizar o caráter imprevisível do centro do projeto: “Pra ajudar quem quiser seguir viagem comigo”.

Organizado em três atos, com abertura e “finale”, o álbum propõe uma “travessia” com lógica interna que articula, simultaneamente, luto e celebração da vida.

O primeiro bloco é dedicado a Cicero. Embora inclua canções diretamente atravessadas pelo luto, como “Grief-Stricken” e “Meu Poeta”, a abertura com “Partiu” – originalmente lançada em No Osso (2015) – funciona como uma afirmação da vida ao entoar os versos: Tudo é possível / Uma vida inteira pra plantar e pra colher / Luz.

Marina diz que a morte de alguém próximo não tira sua perspectiva de apostar na vida. Para ela, seguir em busca da própria verdade é uma forma de encontrar sentido: “Não é porque alguém morre que a vida perde sentido”. Ao iniciar o álbum com “Partiu”, a artista quis reforçar esse compromisso e encorajar outras pessoas a fazerem o mesmo – mas “não de uma forma alienada, de forma possível”.

A cantora observa, ainda, que sua relação com a morte é atravessada por outras perdas ao longo dos anos. Com o passar do tempo, diz, o tema se torna inevitavelmente mais presente, sem que isso altere sua relação com a vida.

Alvin L, compositor (Reprodução/Instagram @marinalimax1)

Na semana em que conversou com a Cult, Marina recebeu também a notícia da morte do compositor Alvin L, aos 67 anos, após uma parada cardíaca. Parceiro frequente em sua trajetória, ele é autor de canções gravadas pela cantora, entre elas “Não Sei Dançar”, um de seus maiores sucessos. “Fora Cicero, meu maior parceiro foi o Alvin”, afirma. Marina conta que demorou a apagar as últimas mensagens trocadas com ele: eram poucas, mas “leves, engraçadas, tão lindas”.

Embora atravesse temas ligados ao luto, Ópera Grunkie inclui também momentos de leveza e novos formatos musicais. “A música é o caminho que tenho para falar sobre minha loucura, minha vida e minha crença”, afirma. “Expresso pela música tanto a alegria quanto a dor.”

Em “Olívia”, por exemplo, Marina constrói uma faixa no estilo reggaeton – ritmo que remete a um ambiente festivo, com o qual a cantora nunca antes trabalhara. No contexto narrativo da canção, Virgínia, mulher de Olívia, teria organizado uma festa; em seu ápice, porém, Olívia sente-se aborrecida e acaba com a celebração.

Essa ideia surgiu a partir de um vídeo (que circulava na internet – repostado, inclusive, por Marina em suas redes sociais) de uma macaca chamada Olívia; a macaca, trajando um vestido rosa, tirava a roupa ao ser contrariada pela tutora. Marina transportou a imagem para um cenário de festa interrompida: aquele momento em que a expectativa é grande, mas algo desanda e o clima se desfaz; “um tipo de situação louca, que chateia, mas depois que passa, é muito engraçada”.

A experimentação rítmica aparece também em “Collab Grunkie”, construída a partir de uma chamada coletiva feita pela artista nas redes sociais. Interessada em incorporar novas vozes ao projeto, Marina recebeu mais de 900 e-mails. Entre eles, encontrou a base eletrônica de um músico de Sorocaba com a qual se identificou imediatamente. “Quando ouvi aquela base, com aqueles timbres – e eu trabalho com computador, trabalho com música eletrônica – adorei o som, adorei o ritmo. Pensei: posso me misturar com isso, eu me vejo nisso”, conta.

A faixa incorpora um áudio enviado pela atriz Fernanda Montenegro, de quem Marina é amiga há 40 anos. A amizade entre as duas começou quando Marina assistiu, aos 30 anos, à peça As lágrimas amargas de Petra von Kant, com Fernanda Montenegro e Renata Sorrah em cena. Embora não fosse frequentadora assídua de teatro, ficou profundamente impressionada. Desde então, mantém contato constante com a atriz. Após a morte de Cicero, Fernanda enviou um áudio à cantora em que diz: “Aproveite a vida. Não se queixe. Nada consola uma velhice idiota”. Foi nesse momento que Marina percebeu que aquele material também fazia parte do espírito “grunkie” do disco.

Outra participação importante em “Collab Grunkie” é a da cantora Laura Diaz, da banda Teto Preto. Marina conheceu o grupo em apresentações organizadas por coletivos da cena paulistana: eventos divulgados de forma restrita, muitas vezes realizados em espaços alternativos. Ao convidar Laura Diaz para colaborar, Marina apresentou a base da faixa – pedindo que a colega reagisse livremente. Admiradora de Elis Regina, Laura respondeu com uma “pegada de samba”.

Para Marina, essas conexões compõem a espinha dorsal do disco. “O ouvinte que quiser entender perceberá quantas coisas se conectam”, ela afirma, satisfeita com o resultado. “Não pisaria mais em nada. Eram aquelas pessoas me traduzindo – na vontade de dançar”; e conclui: “Trabalhei como cientista sobre o material, mas tudo já estava bonito desde o começo”.

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