Marielle, nosso luto, nossa luta

Marielle, nosso luto, nossa luta
Marielle Franco, cujo assassinato completa um ano nesta quinta (14) (Foto: Divulgação/ Arte Revista CULT)

 

Sempre me chamou a atenção que tantas pessoas falassem sobre o momento em que receberam a notícia da morte de Marielle em 14 de março, há um ano. Mesmo muitas pessoas que não conviveram com ela descreveram o momento em suas vidas em que souberam do horror de sua morte, tamanho foi o impacto em suas vidas. Era como a morte de uma pessoa próxima e muito querida.

Eu também lembro. Eu estava descendo do avião para um evento literário fora do Brasil. Lembro bem da sensação de pesadelo. Um pesadelo que não tem mais fim e do qual nem a revelação dos assassinos e seus mandantes será capaz de acabar. Se realmente confirmar-se a hipótese de um envolvimento tão radical entre governo e assassinos, teremos novos parâmetros para a luta política no Brasil. Parâmetros que já eram apontados na figura de Marielle, feminista negra, lésbica, mãe, filha, ativista dos direitos humanos.

Eu não estive na cerimônia fúnebre. Não acompanhei pela televisão, nem pelas redes sociais. Enterrar os mortos é fundamental para o trabalho do luto, mas eu pessoalmente não realizei o luto até agora. E creio que muita gente não realizou. Creio que ninguém é capaz de sentir nenhum tipo de paz desde então, tendo em vista também o que virou o Brasil.

Para todos nós, permanece a imagem de Marielle viva, vibrante, altiva, bonita demais, colorida, alegre, sorridente. Permanece a sua voz ao telefone me mandando notícias sobre meu livro feminista que ela tão generosamente leu e sobre o qual escreveu algumas linhas mesmo no meio de tantas coisas muito mais importantes para fazer. Marielle era aquela pessoa que sempre estava atenta a todos que lhe pediam, que lhe chamavam, que esperavam algo dela. A importância do seu trabalho na Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) foi tão marcante que ela se tornou a mais votada de todas das vereadoras aos 38 anos de idade. Marielle era generosa e atenciosa com qualquer pessoa. Também os seus gestos com as companheiras de ativismo, que eu conheci, sempre me fizeram admirá-la e amá-la muito.

Eu tenho meditado nesse impacto emocional da morte por assassinato de Marielle no Brasil. Sobre pessoas de todos os gêneros, embora as feministas negras, que são suas herdeiras diretas, sintam o impacto dessa morte e da ameaça que paira sobre pessoas que continuam inspiradas na presença e no trabalho de Marielle. Eu tenho pensado nessa afetividade, no modo como se sofre por Marielle, algo importante nesse momento em que o fascismo ganha lugar manipulando ódios. Marielle foi atacada mesmo depois de morta. Sua memória, como fazem os fascistas, foi vilipendiada. Notório é o que fez um deputado Rodrigo Amorim do PSL, partido da família Bolsonaro, rasgando sua placa e colocando uma parte emoldurada em seu gabinete. Mas Marielle foi muito amada e sua memória e legado continuam sendo e o sofrimento também surge dando lugar ao respeito e ao amor das pessoas. O amor por Marielle vai na contramão do fascismo que a assassinou. E isso a mantém presente entre nós.

O assassinato de Marielle é uma morte política e por isso afeta a todos, porque seu corpo político é o corpo de todos nós. Estamos todas e todos implicadas nele, ligados a ele por nossas causas, por nosso sangue ou gênero ou sexualidade ou classe social. Marielle era uma guerreira interseccional. Essa dimensão política que nos toca coletivamente e, de algum modo, pessoalmente, é o conteúdo do símbolo Marielle para multidões.

Marielle com seu corpo e suas pautas interseccionais representou a luta completa pela democracia radical no Brasil. Ela foi vítima da criminalização da raça, do gênero, da população LGBT e de todos os ativismos que se dedicam às causas das minorias.

Marielle era uma pessoa que se dedicava a todas essas causas, que concentrava uma revolução em seu próprio corpo de mulher preta e favelada como ela gostava de falar com aquela força, aquele sorriso luminoso.

Mas Marielle era também uma intelectual. Também a bandeira da pesquisa e do conhecimento estava em seu corpo. Ela conhecia profundamente a segurança no Rio de Janeiro e o demonstrou em sua dissertação de mestrado, bem como em outros textos que escrevia.

Devemos sempre lembrar da dimensão intelectual de Marielle Franco. Sua tese de mestrado cujo título foi “UPP – a redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro” publicada atualmente pela editora n-1, é uma análise consistente e crítica da função das UPPS na manutenção do Estado Penal que visa o extermínio da população negra e favelada. Marielle, além de toda a sua luta, se transformava em uma pensadora da questão da segurança, unia a compreensão teórica e a prática e era uma ameaça ao estado mafioso simplesmente por existir.

O luto por Marielle tomou a dimensão do luto pelo Brasil que vivemos nesse momento com a ascensão fascista. É seguindo seus passos éticos e políticos que poderemos avançar rumo a uma superação do fascismo.


Leia a coluna de Marcia Tiburi toda quarta no site da CULT

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